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19/03/2008 - 00h06
Palavras da guerra
Azar Nafisi* The New York Times Em Washington
Ultimamente as pessoas têm me perguntado com uma certa freqüência o que eu fazia enquanto caíam as bombas durante a guerra Irã-Iraque. Meus interlocutores ficam invariavelmente surpresos, se não chocados, quando conto a eles que eu estava lendo James, Eliot, Plath e grandes poetas da Pérsia como Rumi e Hafez. Mas é exatamente durante essas épocas, quando nossas vidas são transformadas pela violência, que precisamos das obras da imaginação para confirmar a nossa fé na humanidade, para encontrar esperança no meio dos escombros de um mundo desenganado. Memórias dos campos de concentração e do gulag atestam isso. Sempre releio as palavras de Leon Staff, um poeta polonês que viveu no gueto de Varsóvia: "Mais do que pão, nós agora precisamos de poesia, numa época em que parece que não se precisa dela de forma alguma." Quando penso sobre os oito anos de guerra com o Iraque, uma época em que as noites e os dias pareciam ser indistinguíveis, e estavam reduzidos ao som da sirene, avisando-nos sobre o próximo ataque aéreo. Eu freqüentemente lembrava meus alunos da Universidade Allameh Tabatabai que enquanto as armas espocavam e o Palácio de Inverno era invadido, Nabokov se sentava em sua escrivaninha e escrevia poesia. Minha sala de aula em Teerã às vezes ficava lotada com alunos que ignoravam os alertas sobre bombas químicas iraquianas para poderem contar com a habilidade de Tolstoi de desfamiliarizar (um termo cunhado pelos críticos formalistas russos) a realidade de todos os dias e oferecê-la a nós sob um outro olhar. A excitação que vinha de descobrir uma verdade escondida sobre "Anna Karenina" me dizia que os mísseis iraquianos não haviam sucedido em sua missão. De fato, quanto mais Saddam Hussein queria que nós fôssemos marcados pelo terror, mais nós rogávamos pela beleza. Se eu senti necessidade de continuar a reler os clássicos, foi para ver a luz nos olhos de meus alunos. Lembro-me de uma jovem, vestida dos pés à cabeça com um chador preto, olhando como se nada no mundo importasse mais do que a idéia de que "Orgulho e Preconceito" era subversivo porque nos ensinava sobre o direito de fazermos nossas próprias escolhas. Entre as minhas apressadas anotações daquela época, encontrei uma citação de Saul Bellow sobre escritores nos campos de trabalho soviéticos. Para meus amigos nos Estados Unidos que são céticos sobre a importância da imaginação nos tempos de guerra, deixe-me dividir essas palavras: "Talvez continuar um poeta nessas circunstâncias também é atingir o coração da política. Os sentimentos humanos, experiências humanas, a forma e a face humana, retomam seus lugares apropriados - o centro das atenções." Agora outra guerra começou, apesar de que dessa vez é o país que adotei e não o país em que nasci que está lutando contra o Iraque. Nada vai substituir as vidas que foram perdidas. Ainda assim, vou conseguir algum conforto agora como fiz naquela época, abrindo um livro.
*Azar Nafisi, autora do best seller "Lendo Lolita em Teerã" e do futuro "Things I've Been Silent About", é uma professora da Universidade Johns Hopkins. Ela obteve uma bolsa de Oxford e lecionou literatura inglesa em Teerã até que a Universidade de Teerã a expulsou por se recusar a usar véu. Nafisi trocou o Irã pelos Estados Unidos em 1997 e atualmente vive em Washington, D.C. Ele escreve para o "New York Times", "The Washington Post", "The Wall Street Journal" e "The New Republic". UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)

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