|
|  |

19/03/2008 - 00h09
Invasão do Iraque - cinco anos: os médicos mendigos
Ángeles Espinosa Do El País
Enviada especial a Bagdá
O Centro de Cirurgia Cardíaca Ibn al Bitar constitui um exemplo da capacidade de resistência dos iraquianos. Basta olhar as fotos que o diretor, Husein al Hili, guarda em seu computador. Os saques de abril de 2003 destruíram a clínica, até então inevitavelmente chamada Saddam Hussein e que contava com 250 leitos e oito salas de cirurgia. Um mês depois o pessoal se reuniu em assembléia e decidiu continuar trabalhando. Hoje funciona com 140 leitos e quatro salas de cirurgia, apesar de abandonada pelo Ministério da Saúde.
"É o único centro desta especialidade no Iraque, atendemos 80 mil pacientes de todo o país", declara orgulhoso Al Hili, um especialista em gestão hospitalar que procede do campo da radiologia. Mas o caminho não foi fácil. "O saque foi pior que a guerra. Apesar de haver um carro aqui fora, os soldados não fizeram nada para impedir", lembra. "Inclusive comprei armas para que os trabalhadores defendessem as instalações, mas os assaltantes os renderam e as tiraram."
 | | | Mulher chora ao lado de leito com seu filho ferido em hospital de Sadr, distrito de Bagdá |
Depois disso, uma delegação de médicos foi ver as autoridades religiosas, xiitas e sunitas, para que contivessem o descontrole e os ajudassem a recuperar os materiais roubados. Mas as coisas não melhoraram muito quando a ordem voltou. "Em nenhum momento tivemos um ministro capacitado para o cargo; todos os que passaram pela Saúde desconheciam seu trabalho. Eu disse isso aos americanos: sofremos uma dupla destruição, a produzida pela guerra e a causada pelo ministério", explica Al Hili.
Não é preciso que ele o diga, porque é voz corrente que o controle do ministério foi um completo desastre. Embora não tenham sido condenados porque as testemunhas recuaram, no início deste mês foram julgados dois altos funcionários por usar a cobertura do ministério para organizar e financiar o assassinato de sunitas que procuravam tratamento médico nos hospitais públicos.| CINCO ANOS DEPOIS |
|---|
 Soldados americanos fazem exercícios no sul de Bagdá | SEM PERSPECTIVAS |
Esse clima de insegurança e caos afetou principalmente as classes médias profissionais: dois mil médicos foram assassinados nos cinco anos que transcorreram desde a invasão e estima-se que a metade dos 34 mil que estavam registrados então abandonou o Iraque. Noventa por cento dos 180 hospitais do país não têm suprimentos básicos, o que elevou as taxas de mortalidade infantil e materna. "Até agora não recebemos absolutamente nada do ministério. Limitam-se a pagar nossos salários", afirma o diretor do Ibn al Bitar. Como conseguem material cirúrgico, as válvulas ou os medicamentos? "Mendigamos."
No início não foi assim. Tiveram a ajuda do Movimento para a Paz, Democracia e Liberdade (MPDL), da Espanha, e da ONG francesa Première Urgence (financiados pelo Escritório Humanitário da Comissão Européia - ECHO). Ainda se podem ver seus adesivos na entrada da clínica. "Inclusive chegamos a assinar um acordo para o intercâmbio de médicos, de forma que nossos especialistas puderam se formar na Espanha e na França, e médicos desses países vieram nos ajudar aqui."
Mas o agravamento da violência a partir de 2004 afugentou do Iraque a maioria das organizações humanitárias. O Ibn al Bitar voltou a ficar sozinho. "Temos muitas necessidades. Ainda sobrevivemos com material procedente do Programa Petróleo por Alimentos. Há gaze, compressas, agulhas e outros artigos básicos que estão vencidos, mas nós os esterilizamos e utilizamos. Não podemos desperdiçar nenhum pedaço de algodão", confia Al Hili.
Ao mesmo tempo, esse homem inacessível ao desânimo tem de lutar contra a corrupção que gangrena o país. Os medicamentos mais escassos e o instrumental novo são guardados a chave em seu escritório. Como centro estatal, o Ibn al Bitar não cobra de seus pacientes, mas um dos entrevistados por esta jornalista afirmou que uma enfermeira havia lhe pedido dinheiro por uma injeção que oficialmente não estava disponível.
"Os americanos, e também digo isso a eles, destruíram este país. Não fizeram nada por nós e ainda por cima nos trouxeram os terroristas", lamenta Al Hili. "Por isso as pessoas estão convencidas de que foi tudo planejado. Não encontramos outra explicação. Não é que estejamos pior que cinco anos atrás, estamos pior que há um século, voltamos aos tempos de Abu Baker, há 1.300 anos", conclui, disposto, apesar de tudo, a não se render. UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)

|  |
|