19/03/2008 - 08h54 Em discurso, Bush defende guerra e permanência dos EUA no Iraque
da Redação
Atualizado às 12h02
No dia em que a invasão do Iraque completa cinco anos, o presidente norte-americano George W. Bush defendeu a guerra e a permanência de suas tropas no país em discurso proferido no Pentágono. Ele admitiu que o debate em torno do conflito é "compreensível", mas insistiu que a continuidade da ação militar em território iraquiano é "crucial", indicando claramente que a guerra deve continuar por tempo indefinido.
VEJA O DISCURSO DE BUSH (INGLÊS)
"Neste dia em 2003 os Estados Unidos começaram a operação 'Liberdade para o Iraque'. Assim que a campanha começou, milhares de nossas tropas cruzaram a fronteira iraquiana para libertar o povo iraquiano e remover um regime que ameaçava nações livres. Em cinco anos nessa batalha, há um debate compreensível sobre se esta é uma guerra que vale a pena lutar, se vale a pena vencê-la e se podemos vencê-la. As respostas são claras para mim. Remover Saddam Hussein do poder foi uma decisão correta. E esta é uma luta que a América pode e deve vencer. Os homens e mulheres que entraram no Iraque há cinco anos removeram um tirano, libertaram um país e resgataram inúmeras pessoas de horrores inomináveis. Algumas dessas tropas estão conosco hoje e precisam saber que o povo americano está orgulhoso de suas conquistas. Assim como o comandante em chefe". (...) "Porque agimos, Saddam Hussein não enche campos com os restos de homens, mulheres e crianças. Porque agimos, as câmaras de tortura, salas de estupro e prisões infantis foram fechadas. Porque agimos, o regime de Saddam Hussein não está mais invadindo seus vizinhos, atacando-os com armas químicas e mísseis balísticos. Porque agimos, o regime de Saddam não está mais pagando as famílias de terroristas suicidas na Terra Santa. Porque agimos, o regime de Saddam não está mais atirando em aeronaves americanas e britânicas que patrulham as zonas de segurança e desafiando a vontade das Nações Unidas. Porque agimos o mundo está melhor e os Estados Unidos da América estão mais seguros".
"Remover Saddam Hussein do poder foi uma decisão acertada. Esta é uma luta que a América pode e deve vencer", afirmou Bush. "O mundo está melhor, e os Estados Unidos estão mais seguros", completou.
Controversos, os resultados da ação norte-americana no Iraque ganharam contornos de vitória nas palavras de George W. Bush. "Ela fez mais do que transformar a situação do Iraque, abrindo a porta para uma vitória estratégica mais ampla na guerra contra o terror", declarou.
Balanço do conflito Dezenas de milhares de civis mortos, gasto de cifras superiores ao PIB de muitos países, um custo político incalculável e um país dominado pela incerteza, pela violência sectária e pela falta de perspectivas de paz. O saldo dos cinco anos desde a invasão de tropas militares dos Estados Unidos ao Iraque não é nada alentador. O conflito militar mais longo em que os norte-americanos se envolveram desde a Guerra do Vietnã (1958-1975) está longe de ter uma solução, afirmam analistas ouvidos pelo UOL.
Às 23h35 (horário de Brasília) do dia 19 de março de 2003, os EUA iniciaram com bombardeio a alvos em Bagdá a guerra que tinha entre seus objetivos derrubar o regime de Saddam Hussein. No horário local, eram 5h35 da manhã já do dia 20 de março, uma quinta-feira. Embora os alvos fossem divulgados como "estratégicos", não foi uma guerra de soldados contra soldados.
A busca de exatidão sobre o total de mortes de civis é quase impossível, tal a quantidade de ataques, confrontos e explosões que ocorrem praticamente todos os dias no Iraque. Os dados variam de fonte para fonte: 82 mil, 151 mil civis mortos... Estudos já falaram em mais de 500 mil mortos e há quem estime que o número já pode ter chegado a 1 milhão. O general Tommy Franks, que liderou as invasões ao Iraque e ao Afeganistão quando esteve à frente do Comando Central americano, disse certa vez: "Nós não fazemos contagem de corpos." Oficialmente, morreram cerca de 4.000 soldados norte-americanos.
O custo da guerra também é objeto de controvérsias. Chega a US$ 526 bilhões, segundo o Congresso norte-americano. Chegará a US$ 3 trilhões e já supera o custo da Guerra do Vietnã, segundo estudo de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia, e de Linda Bilmes, professora da Universidade de Harvard.
Com a ajuda de soldados americanos, moradores derrubam estátua de Saddam Hussein, na praça central de Bagdá, em 9 de abril de 2003; invasão das tropas ao país chega ao seu quinto ano longe de um final
"Ninguém pode discutir que esta guerra teve um alto custo em vidas e em dinheiro, mas estes custos eram necessários quando consideramos o custo que teria a vitória de nossos inimigos no Iraque", declarou o presidente americano em discurso pronunciado no Pentágono nesta quarta-feira. "Os críticos não podem mais argumentar que estamos perdendo no Iraque, então agora dizem que a guerra custa muito caro", rebateu Bush.
Não havia chancela da ONU, nem coalizão internacional sólida sobre a iniciativa dos EUA. Havia pretextos. A suposta existência no Iraque de armas de destruição em massa, nunca encontradas, foi o argumento inicial de George W. Bush para combater Saddam. Em um pronunciamento de 4 minutos pouco antes do primeiro bombardeio, Bush anunciou o início dos ataques, alegando que a intenção era a de "minar a capacidade" do ditador. "Não aceitaremos nada menos do que a vitória", afirmou o presidente. Para justificar os ataques, voltou a citar a ameaça terrorista contra os EUA, ameaça esta que se tornou o foco do discurso da política externa norte-americana depois dos eventos de 11 de setembro de 2001.
No pronunciamento, Bush já dizia que a guerra poderia ser mais longa e mais difícil do que alguns previram. Mas talvez não imaginasse que a perspectiva do fim do conflito viesse a ficar tão nebulosa no horizonte.
LINHA DO TEMPO
Dissera Bush: "Os EUA não têm nenhuma ambição em relação ao Iraque, a não ser a de restabelecer a liberdade para a sua população". Saddam foi derrubado e acabou condenado à morte por enforcamento. O ditador se foi, mas os problemas não. No Iraque de hoje, 43% sobrevivem com menos de US$ 1 por dia, 6 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária (o dobro de 2004), imediatamente depois da guerra, mas só 60% da população têm acesso às rações que então eram universais (leia reportagem do "El País"). Hoje, quase um de cada cinco integrantes da população iraquiana de cinco anos atrás, antes da invasão, vive como refugiado no exterior ou está desabrigado no próprio país, segundo a Organização Internacional para Migrações.
Bush também havia, em seu pronunciamento no dia do início dos ataques, voltado a relacionar Saddam à rede terrorista Al Qaeda, de Osama bin Laden. O jornalista Sérgio Dávila, único repórter brasileiro a cobrir o início da guerra, diz que a diferença entre o Iraque que conheceu na ocasião e o de hoje é a presença marcante da Al Qaeda, que antes praticamente "não existia" no Iraque e hoje é responsável por grande parte dos freqüentes atentados no país.
Aos poucos, a guerra ganhou mais e mais críticos na sociedade norte-americana, o que veio a derrubar os índices de aprovação ao governo Bush. A presença das tropas norte-americanas no Iraque era apontada como tema dos mais cruciais nos debates da campanha eleitoral à sucessão de Bush neste ano, em curso. Para sorte ou azar do governo ou de seus opositores, a crise financeira iniciada no fim do ano passado cresceu e se tornou o assunto principal no interesse médio dos americanos. É na ameaça de recessão que reside hoje a preocupação maior. O que pode tornar ainda mais chamativos os custos da guerra.
Análises
Os Estados Unidos não esperavam que a guerra do Iraque fosse muito mais difícil de ser vencida do que a Guerra do Vietnã (1958-1975) e agora vêem crescer o antiamericanismo na região. Na opinião do professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense, Williams Gonçalves, houve "erro de cálculo" na ação dos EUA.
"O Iraque se converteu em um problema sério para o governo Bush. A intenção dos EUA era introduzir em seu lugar governante confiável aos seus interesses. A partir de um Iraque remodelado, promover reformulação completa do Oriente Médio. Apesar de terem derrotado muito facilmente as forças militares de Saddam, os EUA nunca conseguiram exercer um real controle político sobre o Iraque. A frágil estrutura do país se desfez em três grandes grupos: árabes sunitas, árabes xiitas e curdos. Os EUA até hoje não conseguiram fazer com que o governo que se instalou no local se fizesse respeitar. É um governo que não tem qualquer legitimidade, o que impede que as forças americanas se retirem do Iraque."
Nos Estados Unidos, "a não ser por parte dos republicanos, há muito protesto e pouca comemoração", relata Sérgio Dávila, de Washington.
Na Europa, o sentimento predominante em relação à ação militar no Iraque é de repúdio, observa o historiador Luiz Felipe de Alencastro (professor da Sorbonne, em Paris). O conflito no Iraque, diz, "está diretamente ligado ao declínio do prestígio e à saída do primeiro-ministro Tony Blair, que foi quem colocou a Inglaterra na guerra". "Gordon Brown está achando um jeito de retirar o contingente inglês do Iraque."
Alencastro diz que a guerra tomou proporções muito mais graves do que o que os homens que começaram a ofensiva haviam imaginado. "Criou-se no Iraque um tal redemoinho de tensões que hoje fica muito difícil de sair de lá", avalia o historiador. "A saída das tropas pode levar a uma guerra civil de grandes proporções", diz Alencastro, para quem os cinco anos de guerra "desmoralizaram o governo americano". "Foi um golpe terrível na popularidade de Bush", afirma.
Para Gunther Rudzit, os EUA "levaram uma guerra civil ao Iraque".
Especialistas ouvidos pela BBC Brasil concluem que a invasão do Iraque mudou o balanço de forças no Oriente Médio.
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