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06/05/2008 - 09h20
Mianmar conta 22,5 mil mortos por ciclone; 41 mil desaparecem

Aung Hla Tun
Em Yangon

Atualizado às 11h34

O violento ciclone no delta do Irrawaddy, em Mianmar, provocou uma gigantesca onda que deixou as pessoas sem ter para onde fugir, matando pelo menos 22,5 mil e deixando 41 mil desaparecidos, disseram autoridades na terça-feira.

"Mais mortes foram causadas pela onda do que pela tempestade propriamente dita", disse o ministro de Auxílio e Recolocação, Maung Maung Swe, em entrevista coletiva na devastada Yangon, antiga capital do país, onde já começa a faltar água e comida.

"A onda tinha até 3,5 metros de altura e inundou metade das casas em aldeias baixas", disse ele, oferecendo a primeira descrição detalhada do ciclone do fim de semana. "(Os moradores) não tinham para onde fugir."

Foi o pior ciclone na Ásia desde 1991, quando 143 mil pessoas morreram em Bangladesh.

O ministro da Informação, Kyew Hsan, afirmou que as Forças Armadas estão "fazendo o seu melhor", mas analistas viram na tragédia um golpe para o regime militar da antiga Birmânia, que se orgulha da sua capacidade de lidar com qualquer problema.

"O mito que eles projetaram de serem bem preparados foi totalmente varrido", disse o analista político Aung Naing Oo, que fugiu para a Tailândia depois da brutal repressão a uma rebelião em 1988. "Isso pode ter um tremendo impacto político em longo prazo."

Para se ter uma idéia do desafio que os militares enfrentam, as nove toneladas de comida e medicamentos que chegaram da Tailândia tiveram de ser descarregadas somente com a ajuda humana, já que não havia caminhões, segundo um câmera da Reuters que estava no local.

Kyaw Hsan disse que a falta de energia elétrica estava dificultando o reabastecimento de água em Yangon. Dezenas de caminhões distribuem água para os cinco milhões de habitantes da cidade.



Os preços dos alimentos, dos combustíveis e dos materiais de construção dispararam. Velas e pilhas se esgotaram na maioria das lojas. Um ovo custa três vezes mais do que custava na sexta-feira.

Por causa do desastre, a Junta Militar decidiu adiar para 24 de maio um referendo constitucional nas áreas mais atingidas de Yangon e do vasto delta do Irrawady. De acordo com a TV estatal, no resto do país o referendo está mantido para o dia 10.

O objetivo é aprovar um "mapa para a democracia", muito criticado nos países ocidentais, especialmente depois da sangrenta repressão a uma rebelião liderada por monges budistas em setembro passado.

Bush
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, exigiu que o regime militar que comanda Mianmar aceite que equipes de ajuda norte-americanas entrem no pais e disse que os Estados Unidos estão prontos para fazer muito mais para ajudar.

"A junta militar deve permitir que nossas equipes entrem no país", afirmou. Bush completou dizendo que a marinha norte-americana estava pronta para fazer buscas por desaparecidos e ajudar no resgate de pessoas.

Arroz
O governo de Mianmar, que há 50 anos era o maior exportador mundial de arroz, disse ter estoques suficientes do cereal para alimentar a população, apesar dos estragos nos armazéns do delta.

O chanceler da Tailândia, Noppadol Pattama, reuniu-se em Bangcoc com o embaixador birmanês, que lhe disse haver 30 mil desaparecidos por causa do ciclone Nargis.

"Os prejuízos foram muitos maiores do que esperávamos", disse o chanceler. O embaixador Ye Win não quis falar a jornalistas.

Fontes da ONU dizem que centenas de milhares de pessoas ficaram desabrigadas por causa dos ventos de até 190 quilômetros por hora e do maremoto subseqüente.

Habitualmente recluso, o regime militar desta vez aceitou a ajuda internacional, ao contrário do que fez depois do tsunami de 2004 no oceano Índico.

Bernard Delpuech, funcionário humanitário da União Européia em Yangon, disse que a Junta Militar enviou três navios com comida à região do delta. Quase metade dos 53 milhões de birmaneses vive nos cinco Estados atingidos pela tragédia.

A mídia, controlada pelo regime, não se cansa de mostrar soldados em atividades heróicas e simpáticas, mas, numa população ainda marcada pela repressão de setembro, há uma inevitável sensação de revolta.

"O regime perdeu uma oportunidade de ouro para enviar os soldados assim que a tempestade parou, para conquistar o coração e a alma das pessoas", disse à Reuters um funcionário público aposentado. "Mas cadê os soldados e a polícia? Foram muito rápidos e agressivos quando houve protestos nas ruas no ano passado."

A ONG humanitária World Vision disse na Austrália ter recebido vistos especiais para enviar pessoal para ajudar os seus cerca de 600 funcionários em Mianmar.

"Isso mostra como na cabeça do governo birmanês isso é grave", disse Tim Costello, diretor da organização.

Uma lista de mortos e desaparecidos em cada cidade, lida pelo general-ministro Nyan Win, cita 14.859 vítimas fatais no delta do Irrawady e 59 na Grande Yangon, a maior cidade do país, com 5 milhões de habitantes.


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