Eleito novo presidente da Rússia, Dmitri Medvedev assume o poder no Kremlin nesta quarta-feira (7). Medvedev é o terceiro presidente da federação russa após o colapso da União Soviética e assume o governo de oito anos do padrinho Vladimir Putin, que deve seguir na cena política -Medvedev já anunciou que logo após assumir o poder vai propor à Duma (Câmara dos Deputados) a candidatura de Putin ao cargo de primeiro-ministro.
O ex-professor de direito de 42 anos herda o país com a maioria no Parlamento e com um crescimento de cerca de 7% ao ano, além da entrada de altos investimentos estrangeiros que fizeram com que a Rússia abrisse enormes centros comerciais e alcançasse altas taxas de consumo. Os preços dos combustíveis, uma das principais riquezas do país, continuam em ascensão, e as reservas internas chegam a US$ 500 bilhões.
"Medvedev tem a sorte de pegar a Rússia um pouco mais em ordem do que ela era nos anos 90, sob Yeltsin, quando Putin assumiu. Herda um país com as finanças em ordem, mas com problemas profundos. Houve um aumento da pobreza nos anos 90 -diminuiu com Putin, mas ainda é séria- problemas de saúde, o decréscimo da população. Cabe a ele resolver estes problemas, que são mais estruturais", afirma Angelo Segrillo, historiador da USP, formado pelo Instituto Pushkin de Moscou.
Segundo Segrillo, o projeto estratégico que Putin montou na Rússia determinou que a economia e a democracia fossem não-liberais. A economia tem um forte controle do Estado e a democracia é dirigida com uma espécie de "mão forte". Isso foi construído em conjunto com uma equipe de pessoas, muitos provenientes do antigo serviço de segurança, o KGB, ao qual Putin serviu. "O Medvedev não é desse grupo, ele é civil, mas está bem afinado com Putin. A grande questão é: ele seguirá com esse grupo ou seguirá um novo curso, um pouco mais liberal? O início dessa resposta se dará nos próximos dias, quando ele formar seu primeiro ministério. Se houver caras novas, isso pode ser um sinal de que ele tentará novas mudanças; se não, ele deve seguir a mesma política de Putin", afirma.
| O QUE PENSA MEDVEDEV |
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PROPRIEDADE PRIVADA "Propriedade privada é uma estrutura vital. Ela é parte dos direitos humanos. Se nós não aprendermos a respeitá-la e protegê-la, nós vamos continuar vivendo com atraso e desolação." |
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MEDVEDEV POR MEDVEDEV "Eu tenho uma mentalidade clara sobre vantagens e desvantagens. Isso ajuda a formular objetivos e a tomar decisões, mas geralmente eu falo e me explico mais do que me solicitam" |
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RELAÇÕES COM PUTIN "Elas são amigáveis, uma parceria baseada no fato de que trabalhamos juntos muito tempo e confiamos um no outro. E isso é o mais importante." "Estou certo que nosso trabalho está completamente maduro e pode dar ao país resultados interessantes, tornando-se um fator positivo de desenvolvimento do nosso Estado". |
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O CARGO DE PRESIDENTE "Nosso país é uma república presidencialista. Não pode ser de outro jeito. Não há como existir dois, ou três ou cinco centros (de poder)... Segundo a Constituição só poder haver um presidente" |
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O LUGAR DA RÚSSIA NO MUNDO "Tem que haver cooperação entre os Estados Unidos e a Rússia... é inevitável". "Qualquer esforço para resolver questões internacionais que vá contra as resoluções da ONU, como aconteceu em particular com Kosovo... são contra-producentes" |
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LIBERDADE DE IMPRENSA "A audiência e as formas de reportagem têm mudado, mas uma coisa deve ser mantida: a necessidade de escrever a verdade e ser responsabilizado pelas histórias que se publica." |
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ECONOMIA "Nós devemos controlar a inflação com o que foi estipulado em nossa economia no final do ano passado... Esse é o preço que pagamos para participar do clube das nações em desenvolvimento. A conclusão é simples: nós precisamos desenvolver nossa própria economia e agricultura." |
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MONOPÓLIOS NACIONAIS "Existem empresas estatais, e a existência delas é crucial para a segurança econômica da nação em geral. Eu me refiro a monopólios estruturais, como a Gazprom e a Russian Railways, e empresas do complexo militar-industrial." |
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SISTEMA DE LEI "Nós precisamos arrancar pela raiz a prática de decisões ilegais, "de acordo com um pedido" ou por dinheiro." "Um dos elementos fundamentais para nosso trabalho nos próximos quatro anos será a promessa de independência de nosso sistema de lei nos poderes Executivo e Legislativo." |
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CONTINUIDADE "A maior obrigação é seguir o caminho social e econômico que já vem sendo desenvolvido no país" |
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LIBERDADE "Eu considero que é mais importante alcançar harmonia entre liberdade e ordem ao longo prazo. A imperatriz Catarina escreveu: "Liberdade é a alma de tudo, sem a qual tudo está morto. Eu quero que as pessoas obedeçam às leis, mas não a lei dos escravos." "Nossa democracia é ainda muito jovem... Nossa democracia está sendo feita de acordo com nossas leis. Seus resultados só poderão ser avaliados em 30 ou 50 anos". |
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Quase 80% da população acredita que Medvedev deve continuar com a mesma política, segundo pesquisa pública. Os mais pessimistas vêem no novo presidente um jovem ambicioso, mas incapaz de mudar a Rússia. Abaixo da Presidência está o gigante monopólio de gás Gazprom, que é considerada uma empresa sem transparência e sem eficácia, assim como os deficientes programas nacionais para a saúde, ensino, habitação e agricultura.
Já os otimistas preferem ver as diferenças entre os discursos de Putin e Medvedev, o contraste da dureza do primeiro com a sutileza liberal do segundo. Destacam as palavras do novo presidente a favor da democracia, da liberdade de imprensa e dos embates contra a corrupção.
"Ele tem um perfil um pouco mais liberal do que o Putin, então é possível que desta retórica saiam algumas ações concretas, mas ainda é cedo para saber se ele vai mudar estas questões", acredita o historiador Angelo Segrillo.
Os anos de PutinVladimir Putin, 55, deixa a presidência após oito anos de gestão em um momento de grande popularidade, com aprovação de cerca de 70%. É o líder mais popular desde os tempos de Stálin. Putin é considerado o homem que colocou fim ao caos nos anos 90, época que se seguiu à desintegração da antiga União Soviética. Ele levantou a economia russa e recuperou a posição de grande potência.
Políticos e economistas manifestam distintos pontos de vista sobre a magnitude da influência do cenário internacional na estabilização da economia da Rússia, mas o que é indiscutível é que a imensa maioria dos russos atribui o mérito a Putin.
"Em apenas um ano da década de 90 a Rússia teve crescimento positivo, em todos os outros ela decresceu, como se fosse uma guerra. Quando Putin entra, a Rússia começa a crescer. Então a população associou-o diretamente à melhoria econômica. Em menos de um ano ele colocou em dia todas as aposentadorias e salários estatais que ficavam atrasados às vezes por meses. Ele virou um deus. Nós sabemos que ele pegou a economia no fundo do poço, os preços do petróleo aumentaram, mas o povo não quer saber disso", explica Segrillo.
Mesmo eventos como o
naufrágio do submarino Kursk em 2000, a
invasão do teatro de Moscou por chechenos em 2002 e o
o massacre na escola de Beslan em 2004 pouco afetaram sua popularidade.
As críticas do Ocidente e dos opositores locais pelos retrocessos no âmbito democrático, na liberdade de imprensa e no respeito aos direitos humanos praticamente não afetaram a opinião pública. Às acusações ele respondia que nenhum país é livre de pecados. "Eu sou um puro liberal", ele dizia, "o problema é que eu sou sozinho, não há liberais como eu na esquerda mundial".
A sucessão e o futuro papel de PutinA principal preocupação de Putin era elaborar uma fórmula sucessora que permitisse manter, em parte, as políticas aplicadas nos últimos oito anos. Para isso, decidiu não tentar modificar a Constituição em busca de um terceiro mandato -precisaria da maioria no Parlamento e imenso apoio popular- e apoiou a candidatura de Dmitri Medvedev, homem de sua confiança que trabalhara ao seu lado nos últimos 17 anos. O risco era mínimo já que pesquisas indicavam que mais de 50% dos eleitores votariam em um candidato apoiado pelo então presidente russo.
A dupla Medvedev-Putin suscitou o debate sobre o surgimento de um segundo centro de poder, o governo (controlado pelo primeiro-ministro), até agora meramente executor das políticas elaboradas pelo Kremlin.
"Assim como na França, na Rússia o presidente é responsável pelas relações exteriores e pela defesa e o primeiro-ministro é responsável pelas políticas internas. O problema é que Putin ofuscava tudo, mas quando ele for primeiro-ministro basta ele seguir a Constituição para dizer que é o primeiro-ministro quem comanda a política interna do país. Dentro da Rússia é ele que vai mandar, e para isso não serão necessárias grandes mudanças na Constituição, como alguns estão prevendo", aposta Segrillo.
Putin foi eleito recentemente líder do Partido Rússia Unida, que conta com a maioria de mais de dois terços da Duma, o que lhe permite propor emendas constitucionais. O jornal local "Gazeta" disse que haveria um projeto de lei para redistribuir as funções entre os chefes de Estado (presidente) e chefe de governo (primeiro-ministro), informação que o Kremlin apressou-se em desmentir.
Mas Putin já manobrou e fez com que fosse enviado à Duma um projeto de lei que libera o primeiro-ministro de muitas obrigações rotineiras, a fim de que ele possa se concentrar em assuntos estratégicos. E ele tampouco parece disposto a perder o controle sobre os dirigentes regionais: no fim do mês passado emitiu um decreto que diz que os governadores devem apresentar seus informes anuais ao Gabinete dos Ministros e não mais a Presidência, como vinha sendo feito.
*Com agências internacionais