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05/07/2008 - 07h00

"Desiludidos" com a CUT e o PT, sindicalistas da Conlutas fazem 1º congresso nacional prometendo greves

Rayder Bragon
Especial para o UOL
Em Betim (MG)
Uma central sindical criada por dissidentes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas), começa a pôr em prática articulações elaboradas desde 2006 e realiza seu primeiro congresso nacional na cidade mineira de Betim (a 26 quilômetros de Belo Horizonte) aglutinando cerca de 220 sindicatos, além de 80 movimentos populares e 130 organizações estudantis alinhados com a esquerda mais radical.

  • Rayder Bragon
    O evento -que começou na quinta-feira e vai até domingo- em um ginásio poliesportivo de Betim conta com a participação de cerca de 4.000 (segundo número divulgado pela própria Conlutas) pessoas, entre trabalhadores, sindicalistas, líderes comunitários e estudantes de várias partes do Brasil, além da América Latina e da Europa, segundo os organizadores. Os temas que serão debatidos até domingo são variados e vão desde a redução de jornada de trabalho, perpassando pela reivindicação do aumento de aposentadorias e salários, construção de moradias, o apoio ao movimento dos sem-terra, dos sem-teto e a reestatização de empresas públicas repassadas à iniciativa privada no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso e a preservação da Amazônia.

    As proposições aprovadas deverão nortear as ações que serão implementadas nas entidades associadas ao Conlutas e em reivindicações a serem feitas ao governo e aos sindicatos patronais, principalmente no segundo semestre, durante negociações salariais, conforme relatos de dirigentes.

    Na segunda-feira, inicia-se o Encontro Latino-americano e Caribenho de Trabalhadores, com o objetivo de trocar experiências sobre gestões sindicais e avanços nas políticas trabalhistas na região.

    Conlutas

    • Rayder Bragon
      Tendo como apoiadores e dirigentes militantes do PSTU e do PSOL, a criação da Conlutas foi sugerida em decorrência de uma desilusão declarada de parte da esquerda com os rumos tomados pelo PT após a ascensão da sigla ao poder e uma suposta cooptação da CUT deflagrada pelos petistas recém-empossados para que abrandassem as críticas ao noviço governo, segundo diretores ouvidos pela reportagem do UOL.

      De acordo com José Maria de Almeida, candidato do PSTU ao cargo de presidente nas eleições de 2002 e, atualmente, dirigente da nova central, logo após a discussão da reforma sindical e a reforma trabalhista, proposta pelo governo em 2004, começaram de forma embrionária os entendimentos da ala discordante.

      Almeida destaca o surgimento da Conlutas como resultado de rejeição ao modelo preconizado pela CUT.

      "Nós começamos a nos articular em 2004 para discutirmos a organização da resistência contra a reforma sindical e trabalhista que o governo e uma parte das centrais sindicais estavam patrocinando no país. Como a CUT, da qual eu fazia parte, apoiou esse projeto, houve um conjunto de sindicatos da Central que resolveu organizar um movimento à parte para impedir a aprovação daquela reforma. Conseguimos impedir a tentativa do governo e, em 2006, foi convocado um congresso que transformou aquela mobilização informal em uma central sindical e popular", disse José Maria.

      Para ele, a diferenciação da Conlutas em relação às centrais sindicais tradicionais é a incorporação de movimentos sociais e estudantis.

      Segundo José Maria de Almeida, o apoio de sindicatos importantes como o dos professores de universidades brasileiras, além do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, de São Paulo, e sindicatos da construção civil da região Nordeste, vai fortalecer a ação posterior da Conlutas.

      Movimento sindical
      Questionado se o movimento sindical não teria sido esvaziado após os aumentos salariais terem sido dados acima da inflação, Almeida faz um alerta e endurece o discurso.

      "Há muitas pessoas que são pesquisadoras e estudiosas, mas tiram conclusões de fatos que não dão fundamento para aquela conclusão que ele tirou. Nós vamos viver uma nova retomada pela luta pelos salários em breve. Eu acho que nesse segundo semestre vai ter mais greve que houve no mesmo semestre do ano anterior", frisou.

      O arrefecimento de lutas sindicais foi observado somente no início do governo Lula, diz Almeida.

      "Quando o Lula chegou ao poder, as pessoas tinham expectativa de que ele iria mudar o país. Então, se ele vai mudar o país, para que eu vou fazer greve. O problema foi que a CUT e a Força Sindical bloquearam todas as lutas que elas puderam bloquear porque estão recebendo dinheiro do governo. Então, isso diminuiu as lutas, mas não é porque as pessoas estão vivendo melhor do que antes", afirmou.

      CUT e PT

      Para o dirigente, a CUT foi incorporada pelo governo Lula e deixou de ser combativa e defender os interesses dos trabalhadores representados por ela.

      "A CUT já vinha se afastando do compromisso com os trabalhadores desde a década de 90. O problema é que, com a ascensão de Lula ao poder, isso ganhou um salto, porque ela (a CUT) passou a defender o projeto do governo Lula e os interesses políticos do governo Lula, que segue aplicando o mesmo programa econômico do governo FHC (Fernando Henrique Cardoso, do PSDB).

      Almeida "descredencia" a CUT e o PT como representantes dos trabalhadores e da esquerda, respectivamente.

      "Para defender os nossos direitos, ela não serve mais. Ela serve para apoiar o governo e ajudar o governo a aplicar as suas políticas de convencimento dos trabalhadores. Ela (a CUT) virou um instrumento do governo. O PT, para chegar aonde chegou, à Presidência da República, foi construído ao longo dos últimos anos um conjunto de acordos com a burguesia e com o empresariado que levou o partido a assumir o programa econômico que é o dos banqueiros deste país. Esse foi o diferencial construído para que a chapa formada por Lula e José Alencar, em 2002, pudesse ter o apoio das grandes empresas e o beneplácito da mídia para que eles pudessem ganhar as eleições", concluiu.

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