WASHINGTON, 4 NOV (ANSA) - O Departamento de Estado norte-americano voltou hoje a condenar o golpe de Estado ocorrido em Honduras no dia 28 de junho e indicou que seguirá reclamando a restituição do presidente Manuel Zelaya.
"Nossa oposição [à destituição] foi muito clara desde o princípio", reiterou o porta-voz da diplomacia norte-americana, Ian Kelly.
A afirmação responde quase que imediatamente a uma carta enviada por Zelaya à secretária de Estado, Hillary Clinton, na qual o mandatário pediu a Washington que esclarecesse sua posição ante a crise hondurenha.
Zelaya reagiu assim a declarações do subsecretário norte-americano para o Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon, que em entrevista à emissora CNN argumentou que a formação de um governo de unidade não deve estar condicionada à sua restituição.
Para o funcionário, esta seria uma manobra necessária para assegurar a realização das eleições presidenciais hondurenhas no dia 29 de novembro.
No documento encaminhado a Hillary, o presidente eleito lamentou a "surpreendente" postura de Shannon.
Segundo Zelaya, caso fosse mantida a posição de "reconhecer as eleições sem reverter o golpe de Estado nem resolver a profunda crise política", Washington estaria agindo de maneira contrária ao que fora determinado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e pela Organização das Nações Unidas (ONU).
"Somos obrigados a apresentar publicamente esta respeitosa solicitação à secretária de Estado, sra. Hillary Clinton, para que explique ao povo hondurenho se a posição de seu país foi alterada ou modificada sobre a condenação ao golpe de Estado em Honduras", afirma o texto.
"Nós tornamos clara nossa posição sobre o presidente Zelaya e sua restituição. Cremos que [ele] deve ser reconduzido ao poder", garantiu Kelly, em resposta. O porta-voz apontou, porém, que as negociações agora dizem respeito somente aos hondurenhos.
Shannon, indicado pelo presidente Barack Obama para ser embaixador no Brasil, foi enviado a Honduras por Hillary na última semana e conseguiu que Zelaya e o presidente de facto, Roberto Micheletti, assinassem um acordo no qual delegaram ao Congresso a decisão final sobre a possível reversão do golpe.
Porém, o processo, que parecia bem encaminhado, voltou a se complicar nos últimos dias, sobretudo devido à demora do Legislativo para dar seu parecer. Os parlamentares optaram, além disso, por receber antes o posicionamento da Corte Suprema de Justiça.
Zelaya, hospedado na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa desde o dia 21 de setembro, tem pressionado o Congresso para que decida rapidamente, condicionando a formação do governo de unidade -- algo que deveria ocorrer até amanhã, segundo os pontos do acordo -- a seu retorno ao Executivo.
O porta-voz do Departamento de Estado norte-americano disse que a prioridade deve ser dada à implementação do tratado e à criação de um ambiente no qual "os próprios hondurenhos possam enfrentar o assunto da restituição e resolver este problema".
Os Estados Unidos, prosseguiu ele, estão "comprometidos com o acordo, mas depende dos hondurenhos levá-lo a cabo". "De qualquer forma, seguiremos com muito interesse o processo legislativo e judicial para a restituição de Zelaya", complementou Kelly.
Paralelamente, Washington também mandou a Honduras sua secretária de Trabalho, Hilda Solis, que faz parte da Comissão de Verificação do cumprimento do acordo.
O grupo é formado ainda pelo ex-presidente chileno Ricardo Lagos e pelos hondurenhos Jorge Reina e Arturo Corrales, que no diálogo que levou ao pacto representaram Zelaya e Micheletti, respectivamente.