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 Internacional

04/02/2005 - 14h11
João Paulo II, um Papa político e protagonista da história

CIDADE DO VATICANO, 6 fev (AFP) - João Paulo II, vitimado esta semana por problemas respiratórios, é protagonista-chave do cenário mundial há mais de um quarto de século e marcou com seu carisma e sua forte personalidade os rumos da Igreja católica, que passou por vários momentos críticos durante seu pontificado.

O Papa que chegou do Leste, crítico contundente dos totalitarismos, é considerado por historiadores e cientistas políticos como um dos principais fatores que desencadearam a queda do comunismo no final dos anos 80.

João Paulo II, que não se conformava com a divisão do mundo em dois blocos, o comunista e o capitalista, declarou-se sempre convicto de que "a mentira comunista" podia ser derrotada.

Para conseguir esse objetivo, apoiou durante os anos 80 a política dos Estados Unidos, liderada então por Ronald Reagan, um anticomunista convicto.

"Havia uma convergência natural de interesses entre os funcionários da Casa Branca e seus colegas no Vaticano", revelou, em 1999, a uma revista católica William P Clark, um dos conselheiros do ex-presidente americano. Um quarto de século depois seria difícil considerar João Paulo II como um aliado estreito dos Estados Unidos.

Após a queda do muro de Berlim, o Papa começou a denunciar com firmeza os excessos do capitalismo, suas injustiças sociais, a solicitar o perdão da dívida externa dos países pobres e também criticou o perigo de que uma só potência domine a cena mundial.

"Depois do fim da União Soviética, os Estados Unidos ficaram sozinhos. "Não sei se é bom ou mau, mas é isso", declarou durante sua viagem ao México para encerrar o Sínodo dos Bispos da América.

Depois que os Estados Unidos decidiram atacar o Iraque em 2003, o Papa pediu com todas suas forças que não se desencadeasse uma guerra imprevisível, cujas conseqüências eram desconhecidas e que podia desembocar numa guerra de religiões. Em inúmeras ocasiões públicas, sobretudo durante o Angelus do domingo, o Papa pediu pela paz no Iraque, pela paz no Oriente Médio, e pelo "fim das guerras esquecidas e dos conflitos atrozes que provocam morte e dor", ao se referir às guerras fratricidas na África e aos conflitos na América Latina, entre eles o da Colômbia, no qual interveio várias vezes.

"A guerra é uma aventura sem retorno", advertiu em 1991 quando se opôs à guerra no Golfo.

A condenação à guerra foi explícita ao longo de seu pontificado, tanto que chegou a figurar entre outros para o Prêmio Nobel da Paz. Além de seus pronunciamentos, o Papa cumpriu gestos históricos e simbólicos sem precedentes e de grande impacto político e moral.

Foi o primeiro pontífice da história que entrou em uma sinagoga, em Roma, e a ter estabelecido relações diplomáticas com o Estado de Israel.

Foi também o primeiro chefe da Igreja católica que entrou em uma mesquita e que pediu perdão em nome da Igreja por todos os erros cometidos pelos católicos durante as cruzadas, as guerras de religião, o tráfico de negros e contra os judeus.

Foi também o primeiro pontífice que visitou Cuba, o último reduto do comunismo no Ocidente, em janeiro de 1998, e a aparecer em público com Fidel Castro.

Há pouco mais de dez anos, esteve no balcão do La Moneda (palácio presidencial chileno) com o ditador Augusto Pinochet, suscitando a desaprovação de muitos católicos, que interpretaram o gesto como uma benção ao regime militar.

Mais complexas foram as relações inter-religiosas. Apesar de seus esforços a favor da unidade, não conseguiu aproximar os ortodoxos nem cumprir sua desejada viagem a Moscou, para visitar o patriarca Alexis II. O Papa, que mobilizou as multidões, sobretudo os jovens, durante suas inúmeras viagens pelo mundo e em particular na América Latina, não pôde deter, entretanto, a redução das vocações religiosas e inclusive o avanço das seitas protestantes nesse continente, onde vive a metade dos católicos.

Para muitos, a firme condenação dos métodos anticoncepcionais, sobretudo do uso do preservativo para evitar a Aids, e seus rigorosos princípios em matéria de moral sexual e de família, acabaram por desencantar muitos católicos, que se sentem incompreendidos diante da evolução dos costumes no mundo moderno, como o divórcio.

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