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04/08/2005 - 19h57
Relembrando o holocausto de Hiroshima: uma jornada pessoal através da dor

HIROSHIMA, Japão, 4 ago (AFP) - O primeiro ataque nuclear foi imortalizado nos museus, livros e filmes mas para muitos, o holocausto de Hiroshima representa uma luta pessoal, uma opção entre despertar memórias dolorosas ou deixá-las adormecidas.

Para Keiji Nakazawa, em cujos trabalhos está incluída o aclamado mangá, a revista em quadrinhos japonesa, "Barefoot Gen," desenhar qualquer coisa sobre o ataque atômico ocorrido há 60 anos foi como passar por tudo aquilo novamente.

"Eu estava escrevendo Barefoot Gen para uma revista semanal, e foi como estar aprisionado nas terríveis memórias da explosão atômica semana após semana. Foi muito doloroso." disse Nakazawa, 66.

Ele perdeu o pai, a irmã e um irmão mais novo de uma só vez no ataque nuclear do dia 6 de agosto de 1945, que matou cerca de 140.000 pessoas em Hiroshima.

Enquanto narra os momentos vividos pelo menino de seis anos Gen, são retratados alguns dos mais nítidos e chocantes efeitos do bombardeio como as imagens dos corpos derretidos e queimados.

"Gen sou eu. Eu escrevi o que eu vi e não quis abrandar a guerra e o sofrimento humano. Enquanto pessoalmente eu quero ficar distante da experiência atômica o máximo possível, acredito que uma história em quadrinhos seja uma ferramenta para lembrarmos a experiência da guerra", disse Nakazawa. Como o menino da revista, Nakazawa com seis anos tentou em vão resgatar seu pai, sua irmã e seu irmão que estavam presos em sua casa destruída após o ataque. Enquanto a fúria das chamas invadia a casa, o autor e a mãe grávida assistiam a seus entes queridos morrerem sem poder fazer nada. Dias depois, Nakazawa voltou à casa queimada e achou três esqueletos.

O livro vendeu mais de seis milhões de exemplares no Japão desde sua primeira publicação, em 1975, e foi traduzido para o inglês, o francês, o alemão, o indonésio, o coreano e o russo.

"Eu quero que os meus leitores se levantem contra a guerra e as armas nucleares", disse Nakazawa.

-- O diretor de cinema --

Para o diretor Kazuo Kuroki, 74, realizar filmagens sobre a guerra, incluindo Hiroshima, foi um esforço agonizante para superar seu sentimento de culpa. Ele fugiu quando seus colegas de classe morreram em um ataque aéreo ao sul da ilha de Kyushu em 1945. "Sempre me senti culpado por ter sobrevivido ao ataque aéreo americano. Estava trabalhando em uma fábrica construindo aviões de guerra e de repente as forças americanas nos atacaram. Eu corri e corri e corri," disse Kuroki.

"Vi meus amigos ajudando os que estavam morrendo mas continuei correndo. Um total de 11 colegas de classe foram mortos. Fiquei muito traumatizado com a experiência. Mas é meu dever como sobrevivente de guerra contar estas dolorosas histórias."

Kuroki disse que foi muito influenciado pelos filmes franceses incluindo o de Alain Resnais "Hiroshima Mon Amour", de 1959, uma história baseada no romance de Marguerite Duras que narra a história de amor entre uma mulher francesa e um homem japonês na cidade devastada.

O último filme de Kuroki, "A face de Jizo", narra a luta de uma jovem mulher para superar sua culpa por ter sobrevivido ao bombardeio atômico e sua jornada em busca de amor e felicidade.

Baseado no trabalho do renomado escritor e ativista da paz japonês Hisashi Inoue, o filme, lançado em 2004, conquistou 16 prêmios de cinema no Japão e foi exibido na China e nos Estados Unidos.

"O tema do livro é a coragem de viver. Como a personagem feminina no filme, eu, também, tenho que viver enquanto guardo enorme culpa pelos meus amigos mortos," disse Kuroki.

-- O curador de museu --

Para Minoru Hataguchi, ser o diretor do Memorial da Paz de Hiroshima o forçou a enfrentar a lembrança mais dolorosa da guerra: a perda de seu pai no ataque nuclear antes mesmo de ter nascido. "Quando nasci, eu não tinha meu pai. Por toda minha vida, tentei evitar a questão do bombardeio atômico," disse Hataguchi, 59.

O corpo do pai foi vaporizado, e as únicas lembranças dele foram a fivela queimada do cinto e um relógio de bolso, que sua mãe descobriu na estação de trem quatro dias depois do bombardeio e que foram enterrados simbolicamente na ausência do corpo. Hataguchi trabalhava no gabinete de educação, saúde pública e coleta de impostos da cidade quando o prefeito o escolheu em 1997 para dirigir o museu. Ele se sentiu completamente despreparado.

"Como diretor do museu, tive que falar sobre a paz. Mas sendo honesto, não sabia o que dizer. Meus colegas sugeriram que eu falasse sobre meu pai," disse ele.

"Foi extremamente doloroso falar dentro e fora de casa sobre minha própria experiência. Eu até escavei a sepultura do meu pai para recuperar sua fivela e seu relógio de bolso e os exibi durante uma exposição sobre a bomba atômica na Índia", em 1998. Mas apenas alguns dias antes da exposição acabar, a Índia fez o seu primeiro teste nuclear e se auto-declarou uma potência atômica, iniciativa seguida rapidamente pelo rival Paquistão. "Eu me senti muito triste e desapontado. É muito difícil convencer os líderes mundiais de que as armas nucleares são horríveis e devem ser abolidas para o bem," disse Hataguchi. Construído em 1955, o museu possui uma coleção de cerca de 18.000 itens recolhidos após a explosão da bomba que vão de unhas queimadas a um relógio de bolso que aponta 8:15, momento em que a bomba atômica americana explodiu.

A cada ano cerca de 1,1 milhão de pessoas visitam o museu da paz. Cerca de 10% delas são estrangeiras e a lista de visitantes inclui o Papa João Paulo II, o presidente cubano Fidel Castro, o guerrilheiro Che Guevara e o ex-primeiro ministro israelense Shimon Peres. Nenhum presidente americano jamais visitou o museu.

"Quando eu falei ao Sr. Castro que Che Guevara havia visitado o museu, ele ficou surpreso. Eu também falei sobre como meu pai foi morto no bombardeio. Antes de partir, Sr. Castro me abraçou três vezes," disse Hataguchi.

"Eu quero que os visitantes acreditem que o horror nuclear nunca deveria acontecer novamente. Se Hiroshima não serve como um apelo ao mundo contra as armas nucleares, o que então?"

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