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 Internacional

16/03/2007 - 14h15
Bento XVI, o Papa que diz "não" às mudanças na Igreja

Por Kelly Velásquez=(FOTOS)= CIDADE DO VATICANO, 16 mar (AFP) - A poucos dias de completar seu segundo ano de pontificado, Bento XVI se mostra um Papa conservador, que diz não ao casamento dos sacerdotes, à comunhão dos divorciados, à Teologia da Libertação, à eutanásia, aos casais que não se casam, à música moderna na missa e à tolerância.

Dois gestos importantes, como a divulgação nesta semana de sua primeira exortação apostólica, intitulada Sacramentum Caritatis (O Sacramento da Caridade) e a condenação, no dia seguinte, de um dos 'padres' da Teologia da Libertação, o salvadorenho de origem espanhola Jon Sobrino, refletem claramente o caráter e os objetivos do pontificado de Bento XVI.

"Nem mesmo Pio XII (1939-1958) chegou ao extremo de tomar medidas tão restritivas e agredidas. Apagou meio século de história", destacou o jornal do Partido Comunista italiano Liberazione, ao comentar o novo documento papal.

"É uma volta ao passado, quando a Igreja estava aferrada à tradição e aos rituais e não via os sofrimentos do mundo onde vivemos", comentou, por sua vez, o presidente da Federação de Igrejas Evangélicas italianas, Domenico Maselli.

A exortação papal, que na teoria resume as posições dos bispos de todo o mundo após o sínodo celebrado em outubro de 2005, é na verdade um chamado direto do pontífice a "cerrar fileiras", segundo vários teólogos e historiadores consultados pela imprensa italiana.

Em seu documento, o novo Papa, um refinado filósofo e teólogo de formação, insta os bispos à luta ideológica, a um catolicismo militante, tanto "no testemunho da própria fé" quanto na defesa dos "valores inegociáveis", como a oposição à eutanásia, ao aborto, ao divórcio, à união entre homossexuais.

Seu texto, cheio de reflexões doutrinárias, "reflete a dificuldade que a Igreja tem de acompanhar o ritmo da cultura contemporânea", destacou o professor emérito de História da Igreja da Universidade de Bolonha, Giuseppe Alberigo.

Com ânimo combativo, de menos diálogo ou tolerante com respeito às posições adotadas pela Igreja após a revolução modernizadora do Concílio Vaticano II (1962-1965), Bento XVI exige dos católicos que se oponham às leis que não se ajustam à sua doutrina. Junto com as linhas conceituais traçadas, o Papa alemão reiterou sua orientação intransigente em temas como o celibato sacerdotal e manteve a proibição da comunhão aos católicos divorciados.

Do ponto de vista prático, as mudanças serão evidentes quando os religiosos celebrarem a missa em latim e entoarem canto gregoriano.

Estes instrumentos deverão primar a partir de agora na missa contra o uso popular de guitarras elétricas, danças e cantos modernos adotados em vários países, sobretudo da África e da América Latina.

O endurecimento frente às mudanças da sociedade veio acompanhado da primeira medida punitiva adotada por Bento XVI desde que foi eleito pontífice em abril de 2005

Em uma "notificação", a Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) condenou a obra do teólogo Sobrino, de 68 anos, residente desde 1957 em El Salvador por esconder a divindade de Cristo, exaltando o Jesus histórico, humano.

"As obras de Sobrino apresentam em alguns pontos discrepâncias notáveis com a fé da Igreja", sentenciou a Congregação, que decidiu há seis anos submeter os textos do teólogo a exame.

A condenação de um dos mais qualificados estudiosos latino-americanos reabre a luta contra a Teologia da Libertação, o movimento católico de defesa dos sem-terra, indígenas e proletários.

O novo Papa, que como cardeal puniu durante os anos 80 importantes teólogos, do brasileiro Leonardo Boff ao suíço-alemão Hans Kung, e que quis suprimir quase com regozijo o Concílio Vaticano II, continua se apresentando como o símbolo da polarização conservadora.


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