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 Internacional

23/04/2007 - 12h06
Os franceses cicatrizam a ferida de 2002 comparecendo em massa às urnas

Por Anna Pelegrí PARIS, 23 abr (AFP) - Os franceses se reconciliaram com a política no primeiro turno das eleições presidenciais neste domingo com um comparecimento em massa às urnas, o que marcou o fim de um longo período de apatia e cicatrizou a ferida de 2002, quando o alto índice de abstenção contribuiu para levar a extrema-direita ao segundo turno.

Nem o mais otimista dos analistas antecipou esta participação histórica, de 83,77%, a segunda mais alta para um primeiro turno desde que os franceses votaram pela primeira vez por sufrágio universal direto no presidente da República, em 1965.

Mas os eleitores estavam decididos a enterrar para sempre o fantasma do primeiro turno de 2002 cortando, desta vez, qualquer possibilidade de o líder da extrema-direita, Jean Marie Le Pen, passar para o segundo turno como aconteceu há cinco anos, quando ele disputou com o atual presidente, Jacques Chirac, depois de obter mais votos do que o socialista Lionel Jospin.

Em 21 de abril de 2002, foi a abstenção do eleitorado que bateu o recorde, com 28,4% dos eleitores, muitos dos quais de esquerda, ficando em casa e demonstrando uma indiferença e um descontentamento inéditos desde a fundação da V República.

"Os eleitores estavam preocupados, não queriam que aquele cenário voltasse a se repetir", avaliou Jean Daniel Levi, do instituto de pesquisas CSA. Depois de anos de desconfiança em relação a uma classe dirigente que parecia ter esquecido deles, os franceses decidiram que chegara a hora de retomar as rédeas do jogo democrático para dar uma nova oportunidade aos políticos.

Votaram contra Le Pen e contra todos os extremismos, já que a esquerda radical também retrocedeu neste primeiro turno. Além disso, retomaram a esperança de "ruptura" e uma golfada de ar fresco, que prometem encarnar os candidatos dos partidos moderados, que governaram a França nos últimos 25 anos.

"Os franceses quiseram reafirmar seus valores e identidade nas urnas", assinalou Levi. Deram seu voto ao conservador Nicolas Sarkozy e à socialista Ségolène Royal, "dois novos candidatos jovens, dois novos programas", acrescentou.

Sarkozy e Royal, que disputarão o segundo turno no dia 6 de maio, conseguiram injetar a dose de ilusão que tanto fazia falta em seus respectivos eleitorados.

Ao mesmo tempo, marcaram distâncias em relação às velhas guardas de seus partidos e prometeram uma nova forma de governar mais próxima do povo e que dê respostas às suas maiores preocupações, como o desemprego e a diminuição do poder aquisitivo.

Os franceses, arraigados ideologicamente à alternância bipartidária, deram asas a esses candidatos qüinquagenários, que se apresentavam pela primeira vez numa eleição presidencial.

Nenhum candidato da direita conseguiu tantos votos quanto Sarkozy (31,18%) num primeiro turno desde Válery Giscard d'Estaing, em 1974, enquanto que Royal (25,87%) conseguiu igualar a porcentagem obtida pelo socialista François Mitterrand no primeiro turno de 1981.

Prudentemente, Levi advertiu que esta explosão de democracia não é sinônimo de um "eleitorado entusiasta", que perdoou e virou a página do descontentamento, e mais uma amostra de uma França responsável, que foi às urnas "sem estar de todo de acordo com os candidatos".

Para este analista, Royal e Sarkozy deverão multiplicar seus esforços na reta final das eleições se quiserem que os eleitores do centrista François Bayrou e do extremista Le Pen, terceiro e quarto respectivamente no primeiro turno, transfiram para eles seu apoio em 6 de maio.

No entanto, na imprensa francesa desta segunda-feira só havia lugar para o otimismo. "A História recordará esse lindo dia de abril, no qual a França deu a imagem de um país sereno, cidadão, que redescobre a política e mostra sua vontade de retomar seu destino", escreveu Jean-Marie Colombani no Le Monde.

"Para todos aqueles que criticavam há dez anos que vivíamos o fim da política e o desencanto absoluto, este 22 de abril ressoa como um feliz desmentido", assinalou por sua parte o editorial do Le Figaro.


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