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19/02/2008 - 09h33
Fidel Castro, o homem que nunca se curvou aos Estados Unidos
HAVANA, 19 Fev 2008 (AFP) - Fidel Castro, depois de exercer o poder em Cuba durante quase cinco décadas, renuncia ao poder e passa à história como o homem da incansável resistência aos Estados Unidos, seu perseverante inimigo ideológico.
Durante os 48 anos que permaneceu no poder, Fidel enfrentou 10 presidentes americanos - incluindo um embargo econômico e uma invasão apoiada pelos serviços secretos de Washington - e sobreviveu à queda do bloco socialista.
Considerado no início de seu regime um símbolo das esperanças do Terceiro Mundo e dos movimentos de libertação, o ex-guerrilheiro de 'Sierra Maestra' foi se transformando, com o passar dos anos, em um governante contrário a qualquer liberalização política, acusado de autoritarismo e tachado de ditador.
Nascido em 13 de agosto de 1926 em Birán (leste de Cuba), foi o terceiro de uma família de sete filhos. Seu pai, o espanhol Angel Castro, combateu no Exército colonial da Espanha antes de instalar-se e chegar a dono de terras na ilha; a mãe, Lina Ruz, era uma cubana humilde, natural de Pinar del Río (oeste).
Após estudar em colégios jesuítas, Fidel se matriculou na Universidade de Havana em 1945 e saiu formado advogado cinco anos mais tarde.
No ensino superior, adquiriu consciência política, primeiro na Federação de Estudantes Universitários (FEU) e depois como integrante do Partido do Povo Cubano - também chamado ortodoxo -, no qual participou nas campanhas contra a corrupção governamental.
Ainda como estudante, Fidel Castro participou em 1947 da frustrada expedição que tinha como objetivo derrubar o ditador dominicano Rafael Leónidas Trujillo. Um ano mais tarde, quando estava em Bogotá para um congresso estudantil, foi surpreendido pelo assassinato do líder progressista colombiano Jorge Eliécer Gaitán e integrou os violentos protestos posteriores, que ficaram conhecidos como "Bogotazo".
Fidel casou-se com Mirtha Díaz-Balart, mãe de Fidelito, único filho do ditador conhecido publicamente.
O golpe de Estado protagonizado em Cuba, no dia 10 de março de 1952, pelo general Fulgencio Batista levou o jovem advogado a optar pela luta armada como via para derrubar o ditador.
Em 26 de julho de 1953, depois de 16 meses de planejamento clandestino, Fidel liderou um grupo de 165 homens que atacaram o quartel de Moncada, segunda base militar mais importante de Cuba.
A operação fracassou e deixou um saldo de quase 70 guerrilheiros mortos e 15 detidos, mas marcou o ponto de partida da revolução cubana.
Fidel e seu irmão Raúl foram condenados à 15 anos de prisão em 16 de outubro de 1953, em um julgamento no qual o líder rebelde assumiu a própria defesa e, durante um discurso de cinco horas, pronunciou a célebre frase: "A história me absolverá".
Em 15 de maio de 1955, Fidel Castro e seus companheiros foram anistiados. Depois de fundar o Movimento 26 de Julho partiu para o exílio no México, onde começou a preparar uma nova ação armada contra a ditadura de Batista.
No dia 2 de dezembro de 1956, a bordo do iate Granma e à frente de 81 homens, desembarcou em Alegria de Pio, na região oriental da ilha, e sofreu um duro revés: o pequeno corpo expedicionário foi dizimado pelo Exército assim que tocou em terra, mas 16 combatentes conseguiram sobreviver, incluindo Fidel, o irmão Raúl e o argentino Ernesto Che Guevara, e se refugiaram em Sierra Maestra.
Protegida pela selva da cadeia montanhosa, a guerrilha começou a atacar as tropas de Batista e a recrutar novos membros entre os camponeses e jovens universitários.
Quase dois anos depois, 10 mil soldados de Batista se voltaram contra a guerrilha de Fidel, na fracassada "ofensiva de verão". Fortalecidos pela vitória, os rebeldes lançaram a batalha final. A partir daí, centenas de simpatizantes engrossaram as fileiras da guerrilha.
Contra todos os prognósticos e depois de 25 meses de combates, os guerrilheiros "barbudos" comandados por Fidel levaram Fulgencio Batista a fugir de Cuba no dia 1º de janeiro de 1959.
Sete dias mais tarde, o "comandante-em-chefe" fez sua entrada triunfal em Havana. Após entregar a Presidência da República a Osvaldo Dorticós, o Fidel foi designado primeiro-ministro do novo governo em fevereiro de 1959.
Fidel permaneceu neste cargo até 1976, quando foi nomeado presidente ao ser eleito para a chefia do Conselho de Estado, cargo instituído por uma nova Constituição, posto em que concentrou as funções de chefe de Estado e de Governo.
Em 1959 uma das primeiras medidas do governo foi a criação dos Tribunais Revolucionários para julgar os procuradores e repressores do regime de Batista, sobretudo os vinculados a mortes e torturas.
De 21 de janeiro a julho de 1959 - quando os tribunais foram suspensos por lei - centenas de pessoas foram julgadas, condenadas à morte e fuziladas. Estas execuções foram muito criticadas pela comunidade internacional.
Ao recordar a época, Fidel disse em 1975: "Este ato elementar de justiça, que era exigido unanimemente por nosso povo, deu lugar a uma feroz campanha da imprensa imperialista contra a revolução".
De 1959 a 1962 foi registrada a primeira onda migratória, principalmente para os Estados Unidos. No total, 265.000 pessoas deixaram a ilha, especialmente as vinculadas ao regime deposto ou afetadas pelas 'leis revolucionárias'.
Esta onda migratória marcou política e ideologicamente o exílio cubano, baseado majoritariamente na cidade de Miami, Flórida.
Segundo o Centro de Estudos Migratórios da Universidade de Havana, de 1959 a 1999 emigraram de Cuba, por todos os meios e para distintos países, 1.079.000 pessoas.
Outra ação adotada logo após tomar o poder foi a reforma agrária, que expropriou e nacionalizou os latifúndios, pertencentes em 90% a interesses americanos.
Em seguida aplicou uma reforma urbana que passou para as mãos do Estado as grandes empresas - também majoritariamente americanas - que controlavam a economia da ilha.
As medidas radicais provocaram a ruptura diplomática com os Estados Unidos em 3 de janeiro de 1961. Sete meses depois, Havana optou por vincular-se a Moscou, em uma aliança que teve uma influência determinante por mais de três décadas.
Em abril de 1961, 1.400 anticastristas apoiados pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) desembarcaram na Baía dos Porcos (ao sudeste de Havana), e Fidel comandou pessoalmente o contra-ataque, depois de proclamar a revolução "socialista" em um ato público.
A expedição anti-revolucionária foi derrotada no campo de batalha, mas as ações de sabotagem e de operações guerrilheiras contra o regime se prolongaram por vários anos.
Em 1962, o jovem regime revolucionário atravessou um período crítico. Washington conseguiu a suspensão de Cuba da Organização dos Estados Americanos (OEA) e deu início ao embargo econômico, comercial e financeiro da ilha.
Porém, o pior ainda estava para chegar: em outubro, na chamada "crise dos mísseis", o mundo esteve à beira do cataclismo nuclear. Os Estados Unidos decretaram um bloqueio aeronaval a Cuba e exigiram a destruição das rampas de lançamentos de foguetes com ogivas nucleares que a União Soviética havia instalado na ilha.
Finalmente, Moscou cedeu aos americanos, que por sua parte se comprometeram a não invadir Cuba.
Os anos seguintes se caracterizaram pelo alinhamento de Cuba com as posições soviéticas e por uma crescente dependência econômica do bloco socialista europeu.
Em 3 de outubro de 1965, Fidel foi nomeado primeiro secretário do novo Partido Comunista de Cuba (PCC), que substituiu o Partido Unido da Revolução Socialista (PURS), com uma importante transição ao marxismo-leninismo. Sete anos mais tarde, Cuba tornou-se membro do Conselho de Ajuda Mútua Econômica (Came), que reunia os países socialistas do mundo
De forma paralela, a revolução cubana começou a "exportar" seus ideais e a promover a formação de grupos guerrilheiros no Terceiro Mundo, em especial na África e América Latina.
Uma destas operações, em 9 de outubro de 1967, resultou na morte de Ernesto "Che" Guevara, guerrilheiro argentino que havia participado na revolução cubana desde o início.
Depois de abandonar todos o seus cargos públicos para continuar lutando por seus ideais na África, Guevara voltou à América Latina para criar um movimento insurgente na Bolívia, onde foi capturado e morto por um soldado boliviano que obedecia ordens superiores.
No final de 1975, Fidel Castro enviou abertamente tropas militares para apoiar a nascente república de Angola. Em 1977 fez o mesmo com o deslocamento de soldados cubanos à Etiópia.
Presidente do Movimento de Países Não Alinhados (NOAL) de 1979 a 1983, Fidel se tornou um dos líderes mais populares do Terceiro Mundo, com discursos contínuos contra o imperialismo, o colonialismo, a exploração e o racismo. Também comandou uma grande ofensiva contra o pagamento da dívida externa.
Fidel Castro voltaria a assumir pela segunda vez a presidência do NOAL em setembro de 2006, mas convalescia da cirurgia intestinal a que havia sido submetido em julho e nem sequer compareceu à reunião de cúpula do movimento, em Havana.
A aura de mito e a lenda que envolveu o líder cubano em seus primeiros anos de luta foi se apagando com o passar do tempo, pois a população enfrentava sérias dificuldades econômicas e ele era acusado de violar os direitos humanos.
A imagem de Fidel no cenário internacional começou a ser a do ditador mão-de-ferro com o chamado "êxodo de Mariel" de 1980, quando 125.000 cubanos fugiram do país para os Estados Unidos. Agravou-se ainda mais em julho de 1989 com a execução do "herói de Angola", general Arnaldo Ochoa, e outros altos oficiais acusados de corrupção.
A desintegração da União Soviética (1990-91) e o fim do socialismo no leste da Europa representaram outro duro teste para o 'comandante', pois seu regime ficou privado da ajuda econômica fornecida pelos soviéticos e seus satélites durante 30 anos.
O país se afundou em uma crise econômica e social sem precedentes e o mundo passou a apostar que vítima seguinte do fim do socialismo seria Fidel. No entanto, ele conseguiu manter a liderança e seguir em frente com seus ideais.
Sua invencibilidade esteve ligada ao controle permanente da sociedade como um todo, principalmente das organizações de base de seu regime, como os Comitês de Defesa da Revolução (CDR), instalados em todos os bairros para vigiar as atividades "contra-revolucionárias", e o Exército. Nem mesmo a "crise dos balseiros", que levou 35 mil cubanos ao mar em embarcações precárias, no ano de 1994, abalou sua popularidade na ilha.
O ditador cubano aceitou fazer algumas concessões ao capitalismo em 1993 para evitar o colapso do regime, asfixiado pela penúria material.
Ao mesmo tempo em que declarou fidelidade aos princípios marxista-leninistas, Fidel foi obrigado a fazer tais concessões. A retomada parcial da economia privada, a busca crescente por investimentos estrangeiros, a reorientação das exportações e a autorização para a entrada de dólares no país foram medidas que, aos poucos, reativaram os principais setores da atividade econômica cubana.
Animado com os sinais de recuperação e com a inserção progressiva de Cuba na nova ordem mundial, no fim da Guerra Fria, o chefe de Estado Cubano recusou os pedidos internacionais de democratização ou abertura política.
Dez anos depois, Fidel iniciou um processo de nova centralização: proibiu a circulação do dólar a partir de 8 de novembro de 2004 e impediu alguns dos negócios antes permitidos à iniciativa privada.
No entanto, o regime ganhou novo impulso com a aliança política e econômica de dois novos sócios: China e sobretudo a Venezuela de Hugo Chávez.
Reconfortado pelos espasmos de recuperação e pela reinserção progressiva de Cuba na nova ordem mundial surgida após o fim da guerra fria, Fidel manteve intacto o sistema de partido único e não cedeu um milímetro de espaço à oposição interna, composta por pequenos grupos de dissidentes e defensores dos direitos humanos, a quem chamava "mercenários" a serviço dos Estados Unidos.
Durante quase meio século de governo, Fidel Castro exerceu uma liderança e poder unipessoal sobre um país de pouco mais de 11 milhões de habitantes. Agora se abre a grande interrogação do que pode acontecer neste período de transição ou sucessão que os analistas chamam de "pós-castrismo".
Seu afilhado político de longa data, o irmão Raul, ministro das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) e segundo secretário do Partido Comunista de Cuba (PCC), apenas poderá, a seu ver, assegurar a continuidade do castrismo. UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)

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