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 Internacional

20/02/2008 - 07h56
Cuba entra na era pós-Fidel em meio a mudanças prometidas por Raúl

HAVANA, 20 Fev 2008 (AFP) - Cuba entrou nesta quarta-feira em uma lenta etapa de transição sem Fidel Castro no comando, mas necessitada das mudanças econômicas prometidas por Raúl Castro, o mais provável sucessor do histórico líder comunista, que deve ser eleito presidente no próximo domingo.

A ilha amanheceu calma e ainda tenta entender completamente a surpreendente mensagem escrita na qual Fidel anunciou terça-feira sua renúncia à Presidência e ao posto de Comandante-em-Chefe, depois de 49 anos no poder e 19 meses de convalescênça.

Agora tudo indica que no domingo o Parlamento ratificará Raúl como presidente de Cuba, uma função que o irmão de Fidel exerce de forma interina desde 31 de julho de 2006, quatro dias depois do líder ditatorial ter sido diagnosticado com uma grave doença.

"Não aspirarei nem aceitrei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-Chefe", afirmou Fidel, de 81 anos, que no entanto conserva o estratégico posto de primeiro secretário do Partido Comunista (PCC), o único permitido na ilha.

Ao delinear um governo colegiado, com dirigentes da velha guarda, de uma geração um pouco mais jovem e da intermediária - como o vice-presidente Carlos Lage, de 56 anos -, Fidel disse que existe a "autoridade e a experiência para garantir a substituição".

A decisão do líder cubano foi anunciada em um momento crucial, no qual os cubanos debatem seus problemas e a direção comunista tenta se renovar, para tentar acabar com os males da ilha: erros políticos e econômicos, a burocracia e a baixa produtividade.

"Devemos nos comprometer com o que seremos capazes todos unidos, agora e sempre, de manter no alto a dignidade desta pátria, de fazê-la cada vez mais justa, livre, independente e soberana", disse o presidente do Parlamento, Ricardo Alarcón.

A imprensa cubana reproduz declarações de apoio à revolução, apesar da saída do 'Comandante', que em suas próprias palavras não tem "as condições físicas para uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total".

"Vamos ver o que acontece. Oxalá que seja para endireitar a situação", afirma Annia, estudante de idiomas de 30 anos.

Ela disse ouvir nas ruas os boatos de medidas que podem ser adotadas, os mesmos mencionados quando Raúl Castro anunciou em julho do ano passado "mudanças". Em dezembro ele criticou "o excesso de proibições e limitações".

Em debates convocados por Raúl, os cubanos pediram a eliminação da diferença entre salários em pesos cubanos (15 dólares mensais na média) e os altos preços, assim como das restrições de viagens, das compras e vendas de carros e residências.

A cautela é maior no que diz respeito à política e aos direitos humanos.

"Não espero nenhum impacto positivo da situação quanto às liberdades", disse à AFP o dissidente Elizardo Sánchez, depois de pedir a libertação de 240 presos políticos.

Em meio ao clima de dúvida chega nesta quarta-feira a Cuba o número dois do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, para celebrar os 10 anos da histórico viagem de João Paulo II e dialogar com Raúl.

Analistas, diplomatas e outros especialistas não descartam a possibilidade de que Fidel, em seu retiro médico e por meio das "Reflexões do Comandante-em-Chefe" que escreve há um ano, exerça poder de veto ou aprovação das decisões do governo.

"Seguirei escrevendo sob o título 'Reflexões do companheiro Fidel'. Será uma arma a mais do arsenal com a qual se poderá contar. Talvez minha voz seja ouvida. Serei cuidadoso", destacou Fidel Castro na mensagem de renúncia.

Para muitos, as respostas às demandas sociais não podem demorar. Raúl, no entanto, advertiu há alguns dias que o novo Parlamento tomará "grandes decisões" nesta "etapa complexa", mas que as soluções virão "pouco a pouco".



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