HAIA, 27 Out 2009 (AFP) - O julgamento do ex-chefe político dos sérvios da Bósnia, Radovan Karadzic, 64 anos, foi retomado nesta terça-feira no Tribunal Penal Internacional (TPI) para a ex-Iugoslávia, em Haia, na Holanda, na ausência do acusado, o "comandante supremo da limpeza étnica na Bósnia", segundo definição da promotoria.
"Está sendo julgado este comandante supremo, este homem que explorou as forças do nacionalismo, do ódio e do medo para pôr em execução sua visão de uma Bósnia etnicamente dividida: Radovan Karadzic", afirmou o promotor Alan Tieger; e enumerou, em seguida, as acusações de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade que pesam contra Karadzic por seu papel na Guerra da Bósnia (1992-1995), que deixou 100.000 mortos e 2,2 milhões de deslocados.
O julgamento de Karadzic foi reiniciado no TPI à revelia, uma vez que o acusado voltou a boicotá-lo, como o fez no primeiro dia, na véspera.
"O tribunal é da opinião de que a audiência pode prosseguir", declarou o juiz sul-coreano O-Gon Kwon, enfatizando que Karadzic escolheu "de forma voluntária" não se apresentar e deve aceitar as consequências.
Radovan Karadzic, encarregado da própria defesa, anunciou na quarta-feira passada ao TPI, em comunicado, que não estava preparado e boicotaria a abertura do processo, que tem duração prevista de dois anos.
Em setembro, ele havia pedido, sem sucesso, 10 meses adicionais para preparar a defesa.
E afirma inocência.
Em julho de 2008 foi detido em Belgrado, depois de passar 13 anos como fugitivo.
"Durante a conquista do território que ele exigia para os sérvios, suas forças mataram milhares de muçulmanos e croatas da Bósnia, detiveram milhares em campos sórdidos e forçaram centenas de milhares dentre eles a fugir de suas casas", prosseguu Alan Tieger.
Também evocou o "terror" da população de Sarajevo durante o cerco da capital que fez 10.000 mortos e o genocício de Srebrenica, durante o qual mais de 7.000 homens e jovens muçulmanos foram executados, em julho de 1995.
"As forças de Radovan Karadzic tomaram Srebrenica num esforço para limpar uma da últimas presenças significativas de muçulmanos no leste da Bósnia", destacou Tieger.
Se declarasse a Bósnia independente da Federação Iugoslava, os muçulmanos "desapareceriam da superfície da Terra", havia ameaçado Karadzic desde 1991, num discurso que teve alguns trechos projetados pela acusação.
O magistrado americano apoiou seus argumentos com fotos do acusado posando com seu alter ego militar, o general Ratko Mladic, ainda fugitivo, e com extratos de conversações telefônicas de Karadzic.
O acusado queria criar "um Estado sérvio sobre o que considerava ser um território historicamente sérvio, livre daqueles que ele via como inimigos"- muçulmanos e croatas - que formavam, no entanto, mais de 60% da população bósnia, lembrou Tieger.
Radovan Karadzic, detido em julho de 2008 em Belgrado, após 13 anos de fuga, deve também responder por genocídio, por abusos cometidos nos primeiros meses de guerra, assim como pela tomada como reféns de 200 observadores e Capacetes Azuis da ONU, em maio-junho de 1995.