PESHAWAR, Paquistão, 29 Out 2009 (AFP) - O balanço de vítimas de um dos atentados mais violentos da história do Paquistão, executado na quarta-feira no noroeste do país, aumentou para pelo menos 105 mortos nesta quinta-feira, jogando sombra sobre a missão de paz da secretária de Estado americana Hillary Clinton.
Apenas poucas horas depois da chegada de Hillary a Islamabad para reforçar as relações com um país afundado no caos, um carro-bomba explodiu em um mercado lotado em Peshawar.
O atentado de quarta-feira ainda não foi reivindicado, mas faz parte de uma série de ataques que, em sua maioria, são atribuídos aos talibãs paquistaneses e que deixou 240 mortos apenas no mês de outubro.
"Ao todo, 105 pessoas morreram; 71 delas foram identificadas. Treze são crianças e 27 são mulheres", informou nesta quinta-feira à AFP Zafar Iqbal, médico do hospital Lady Reading.
Um balanço anterior registrava 92 mortos.
"Ainda temos 134 feridos aqui. Os outros (feridos) foram transferidos para outros hospitais ou voltaram para suas casas", acrescentou.
A lista dos mortos foi fixada em um mural na parte de fora do hospital.
Um membro dos serviços de inteligência paquistaneses em Peshawar forneceu balanço de vítimas semelhante para o ataque, o mais grave desde o atentado que quase matou a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto no dia 18 de outubro de 2007, que deixou 139 mortos. Benazir foi morta em outro ataque terrorista, no dia 27 de dezembro de 2007, em Rawalpindi, próxima à capital do país, Islamabad.
Vários funerais serão organizados nesta quinta-feira em Peshawar. Os comerciantes fecharam as lojas e bazares por três dias em sinal de luto.
A explosão abriu uma enorme cratera, que derrubou vários imóveis próximos, e destruiu grande parte das tendas do bazar de Meena, o mais popular da cidade, de 2,5 milhões de habitantes de maioria pashtun.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que o atentado foi "espantoso". A explosão em Peshawar ocorreu apenas algumas horas depois do ataque de talibãs contra uma hospedaria de funcionários das Nações Unidas em Cabul, no Afeganistão.
Os dois episódios, somados ao número sem precedentes de americanos mortos no Afeganistão registrado em outubro, aumenta ainda mais a pressão sobre o presidente Barack Obama, num momento em que oposição exige que ele se pronuncie imediatamente sobre o reforço de tropas para o front afegão.
Segundo um membro do Parlamento paquistanês que pediu anonimato, o ataque de Peshawar foi planejado para coincidir com a chegada da secretária de Estado americana.
Cercada por um forte esquema de segurança, Hillary chegou na manhã desta quinta-feira a Lahore, no leste, onde visitará alguns locais históricos e religiosos e se reunirá com políticos da região do Punjab. Além disso, deve participar de dois encontros com estudantes e executivos paquistaneses.
Ela condenou os atentados, que classificou de "cruéis e brutais".
Os Estados Unidos desejam ampliar uma relação bilateral que muitos paquistaneses não veem com bons olhos, cujo principal objetivo é manter a cooperação militar para combater os talibãs e a Al-Qaeda.
Na noite de quarta-feira, Hillary Clinton anunciou a liberação de 85 milhões de dólares para um fundo público de luta contra a pobreza.
"Não estou aqui apenas para a diplomacia oficial, e sim para responder às perguntas que as pessoas no Paquistão estão fazendo", disse Hillary, em uma entrevista divulgada nesta quinta nas principais redes de televisão paquistanesas.
Os Estados Unidos também prometeram uma ajuda de 125 milhões de dólares para melhorar o abastecimento de energia elétrica, um dos problemas estruturais mais graves do país, que sofre com cortes de energia constantes, e 45 milhões a serem investidos em educação superior.
Um comunicado do Departamento de Estado americano anunciou ainda um esforço de 103,5 milhões de dólares para treinar a polícia mobilizada na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, principal local de refúgio e combate dos talibãs aliados à Al Qaeda.
A secretária de Estado americana precisou explicar mais uma vez a recente lei Kelly-Lugar-Berman, que prevê triplicar a ajuda americana ao Paquistão, fixando-a em 7,5 bilhões de dólares em cinco anos.
O projeto, no entanto, gerou forte polêmica no Paquistão, já que vários paquistaneses acusam Washington de querer condicionar a soberania do país com o dinheiro.
"Segundo as evidências, não somos muito bons em nossas explicações", reconheceu Clinton, destacando que "os Estados Unidos não têm a intenção de violar a soberania do Paquistão".