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29/11/2007 - 11h28
Lagos defende metas escalonadas para reduzir emissões

Florianópolis - O ex-presidente do Chile Ricardo Lagos, enviado especial sobre mudanças climáticas da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU), defende que os países em desenvolvimento passem a adotar metas para a redução do desmatamento, diminuição das emissões de carbono e eficiência energética a partir de 2020, conforme já fazem os países desenvolvidos - com exceção dos Estados Unidos, que não aderiram ao Protocolo de Kyoto. Na avaliação dele, os países que estão em vias de crescimento hoje têm acesso a novas tecnologias menos poluentes e poderiam, portanto, adotá-las para contribuir na luta contra o aquecimento global.

Lagos ressaltou, entretanto, que deve haver uma diferenciação entre as metas para cada país, de acordo com o estágio de desenvolvimento em que cada um se encontra. Segundo ele, há dez anos, era razoável exigir um esforço na redução de emissões de gás carbônico somente dos países desenvolvidos e pedir aos países em desenvolvimento que fizessem o que estivesse ao seu alcance, mas as circunstâncias mudaram e é preciso que todos os países se adaptem a elas.

"Dez anos depois, creio que a responsabilidade principal é dos países desenvolvidos e creio que eles deveriam se comprometer até 2020 em reduzir suas emissões em 20% ou 30%. E teria que haver algumas propostas de geometria variável para outros países", disse ele, ao participar do Eco Power Conference - Fórum Internacional de Energia Renovável e Sustentabilidade, Florianópolis.

Para o ex-presidente chileno, países em desenvolvimento como o Brasil poderiam até mesmo se beneficiar financeiramente ao assumir compromissos que já cumprem internamente perante organismos internacionais, como a ONU. "Por exemplo: 20% das emissões carbônicas anuais que vão à atmosfera se devem ao desmatamento. Se vamos pagar, por meio de mecanismos de credito de carbono, para plantar uma árvore que vai capturar o gás carbônico, poderíamos pagar para não cortar uma árvore", sugeriu.

"Suponho que todo o governo tenha metas em relação a esse tema. A pergunta é: essas metas são apenas internas? O Brasil está fazendo um tremendo esforço para diminuir o ritmo de desmatamento, mas utiliza para isso recursos econômicos que poderiam ser destinado à pesquisa, ciência, tecnologia, outras coisas. Todos temos metas e se pode exigi-las, mas podemos discuti-las", declarou.

Outro exemplo citado por Lagos é a relação entre crescimento econômico e demanda energética. Na avaliação dele, uma das metas que poderia ser proposta para os países em desenvolvimento de renda média seria o compromisso para não aumentar o consumo de energia na mesma ordem ou mais fortemente que o próprio ritmo da economia. Ele ponderou, porém, que não se pode cobrar indistintamente eficiência energética de todos os países em desenvolvimento.

"O Chile é igual ao Haiti? Parece que não. Então, pode-se pedir que o Haiti faça o que puder, mas um país de renda média como o Chile pode fazer um pouquinho mais de esforço para reduzir o desmatamento. Por certo queremos crescer no Chile, mas com maior eficiência energética", explicou.

Às vésperas da Conferencia de Bali, que começa na próxima segunda-feira, Lagos destaca algumas das discussões que prometem gerar polêmica entre os países. Embora haja consenso que as discussões sobre mudanças climáticas e aquecimento global devem ser feitas dentro da ONU e que todos os países-membros devem participar, há dúvidas sobre os procedimentos que seriam adotados para reduzir as emissões. Por exemplo, se haveria o estabelecimento de limites de emissões por atividade econômica.

"Implícito nessa discussão está o tema per capita, um tema complexo e difícil. Todo ser humano quando nasce tem direito de emitir uma certa quantidade de gás carbônico. Mas é o direito que hoje tem cada criança americana que nasce?", perguntou. Além disso, o ex-presidente lembrou que o fluxo do comercio internacional também gera emissões e mostrou preocupação sobre a forma como esse problema seria equacionado.

"Nós chilenos exportamos morangos a Paris e estamos muito orgulhosos disso. E se alguém perguntar quanto gás carbônico emitiu esse morango para chegar ao mercado em Paris? E que, portanto, este morango precisa ter uma penalização, porque emitiu muito mais gás carbônico, e dessa forma o morango francês será mais barato? São temas complexos", admitiu o ex-presidente.

Anne Warth


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