ASSUNÇÃO, 6 NOV (ANSA) - A Igreja Católica paraguaia advertiu hoje que "ideologias pseudodemocráticas" ameaçam o sistema democrático do país, referindo-se ao atual momento do governo do presidente Fernando Lugo em relação às políticas direcionadas à população.
Em uma carta pastoral emitida ao término de uma assembleia de bispos, a entidade diz que a sociedade sofre a perda do sentido da vida que leva muitos à depressão e à falta de esperança.
"O sistema de governo democrático está cada vez mais ameaçado por ideologias pseudodemocráticas que não levam respostas às urgentes necessidades da população carente", diz o texto.
Questionado sobre o tema, o presidente da Conferência Episcopal Paraguaia (CEP) e arcebispo de Assunção, Dom Pastor Cuquejo, considerou que na atualidade há um estado de confusão na cidadania.
"Há um estado de perplexidade, em que a cidadania não consegue entender com clareza para onde aponta todo o sistema democrático neste novo período constitucional", declarou em alusão a Lugo, admitindo, por outro lado, que esta situação resulta de "uma herança do passado".
Segundo o religioso, o atual governo criou muitas expectativas de soluções às necessidades básicas, porém, a população continua esperando sinais de melhorias na educação, na saúde e no trabalho.
Cuquejo, contudo, recusou-se a opinar se seria o governo de Fernando Lugo ou a cidadania que não colabora para conseguir tais objetivos, mas afirmou que "há realidades conflitantes, essa é a percepção da cidadania".
As críticas da Igreja ao governo surgem no momento em que Lugo enfrenta questionamentos, em meio a rumores de que poderia ser alvo de um golpe de Estado.
Segundo a imprensa local, este seria o motivo que fez com que o mandatário afastasse os chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Hoje, ele também destituiu o comandante máximo das Forças Armadas, Cíbar Benítez.
Lugo, ex-bispo católico, deixou o cargo religioso em 2006 para concorrer às eleições paraguaias. Ele iniciou seu governo em agosto de 2008, encerrando seis décadas de governos do conservador Partido Colorado, com o discurso de que trabalharia em favor dos mais pobres.
Contudo, desde abril passado, quando ele admitiu ser pai de um menino de dois anos, concebido quando ainda exercia seu bispado, cogita-se sua renúncia.
Recentemente, também veio à tona a notícia dos escândalos de corrupção nos quais o presidente estaria envolvido, entre eles a compra de terras para a reforma agrária por valores três vezes superiores aos reais. O superfaturamento poderia chegar a US$20 milhões.
O sequestro de um fazendeiro, no último mês, foi outro fator que alimentou as críticas dirigidas ao mandatário, acusado de ser leniente ante o recrudescimento de ações do grupo armado Exército Popular Paraguaio (EPP), que atua no norte do país.