Meu nome é Naná, mas antes eu me chamava Loirinha, quando eu morava na casa de outra dona, a Fernanda.
A Fernanda tinha a casa cheia de animais. Cachorros, gatos, passarinhos e até uma coruja. Um dia a sua mãe -vindo de Recife para passar férias- se aproveitou da ausência de Fernanda e me colocou na rua, junto com o meu irmão, o Galego, e outros gatos. Tínhamos apenas dois meses e Fernanda tinha nos recolhido da rua.
Vaguei com o meu irmão por vários dias até que chequei num condomínio perto de onde eu morava. Foram dias de sofrimento, crianças malvadas me pegaram, me bateram com um pedaço de pau e até me seguraram pelo rabo. Eu estava quase morrendo quando uma jovem, a Cintia, me pegou e me levou para um apartamento de uma amiga, a Luciane Rachel, pois sabia que lá todos gostavam de animais. A mãe de Luciane Rachel, dona Sueli, quase chorou ao ver meu estado. Ela me alimentou e eu fiquei lá aquela noite. No dia seguinte, como eu não melhorava, ela me levou a uma clínica veterinária. Lá fui atendida pela doutora Hortência, que me examinou, viu que eu não tinha fraturas e passou remédio para eu urinar, pois eu estava inchada e não urinava há mais de 24 horas. Depois de 2 horas eu consegui. Foi uma felicidade para o pessoal da casa e um alívio para mim. Mas dona Sueli continuou me tratando e percebeu que os dias se passaram e eu não fazia cocô. Além disso eu só me arrastava, por causa das pancadas. Dona Sueli ficava cada vez mais preocupada. Até que ela se lembrou do leite de Magnésia de Philips e, numa colherada só, consegui fazer cocô. Vocês não imaginam o meu sofrimento, pois ainda estava dolorida das pancadas. Dona Sueli sofria junto comigo. Depois, tudo foi ficando normal, eu comecei a dar os meus primeiros passinhos e a engordar e a fazer gracinhas. Dona Sueli me apresentou o outro gato da casa, o Frajola, um gato preto e branco bem vira-lata, mas que era o xodó de todos e com a minha presença, um dia ele saiu para passear e nunca mais voltou. Foi um sofrimento para todos. Todos os dias dona Sueli e seu Severino saíam de carro pelas ruas à procura dele. Só desistiram dele após dois meses de procura. Aí eu já estava bem forte e gorda e consegui conquistar o coração de todos da casa e até o das visitas.
Eu sou muito esperta, é o que eles dizem. Entendo tudo que eles dizem e querem e eles também me entendem.
Não suporto leite de saquinho ou de caixinha, se colocar para mim eu bato com a pata até entorná-lo. Só tomo leite Ninho integral e frio. Quando dona Sueli me pergunta se eu quero leitinho, eu lambo os beiços e coloco meio palmo de língua para fora. Isso quer dizer que sim. E quando eu quero, eu vou até a porta do armário e fico miando. Quando abrem a porta, entro e ponho minhas duas patas dianteiras em cima da lata, lambendo os beiços. Hoje estou comendo ração especial por estar muito gorda.
Quando dona Sueli sai do banho, eu fico na paquera porque ela me pergunta se quero mimizinho. Mimizinho é dormir em sua cama com um travesseiro baixinho e um lençol. Me abraço com ele e fico como estivesse mamando até dormir. Só saio quando o seu Severino vai dormir, pois a cama fica pequena. Aí vou para a cama de Luciane Rachel.
Sou uma gata limpa, nunca saio à rua. Às vezes me levam para passear na coleira, mas não gosto muito de andar na rua. Sou peluda, menos que um angorá. Tenho várias cores, predominando o branco. Sou branca, amarela, preta, cinza e marron. Sou linda!
Adoro azeitona e milho cozido. Sou muito paparicada por todos da casa. O Lúcio Flávio, o filho mais velho, tem 26 anos. Parece um bobão quando está comigo, faz um monte de gracinha para mim. Às vezes eu me invoco e dou-lhe umas mordidas e arranho o seu braço, pois ele gosta de me irritar só para me ver com raiva. Até os amigos deles me paparicam. A dona Sueli é a que mais me dá atenção. Ela briga se chegar do trabalho e as minhas vasilhas de água e comida estiverem quase vazias. A família dela, que mora no Rio, quando liga sempre pergunta por mim. O meu nome é uma homenagem à tia Inah, que todos chamam de tia Naná. Ela teve um problema de saúde há mais de 40 anos e ficou com uma das pernas paralisadas. Ela arrasta os pés e, quando eu aqui cheguei, me arrastava também. Por isso ganhei este nome. Eu só gosto de dormir com pouca luz e ventilador ligado, não importa o tempo. Quando dona Suieli coloca aquelas músicas antigas eu gosto de deitar em sua cama e ficar ouvindo. Tiro um bom ronco durante horas.
Isso acontece quando ela está de folga e inspirada para ouvir música. Não sou muito chegada a crianças, quando temos estas visitas eu me escondo o máximo para não ser achada. Não gosto do carinho bruto de crianças.
O seu Severino brinca comigo de pique-esconde. Ele se esconde e me chama e eu saio a sua procura.
Quando eu acho ele sai correndo atrás de mim e eu corro pulando em cima de mesas e poltronas, depois eu me escondo e ele vai me procurar. É um bobalhão, parece um velho gagá, aliás todo mundo nesta casa. Me tratam como eu fosse uma criança pequena.
O que eu mais gosto aqui é quando dona Sueli resolve fazer faxina na casa. Ela tira móveis do lugar, colchões das camas e espalha tudo pela casa. Eu adoro subir em cima de estantes, dos colchões que estão em pé e por cima das coisas que ela tira de dentro do armário. Tem hora que ela se irrita com a minha falta de modos e grita para a Luciane Rachel me tirar de lá ou me coloca dentro do armário da estante que tem a porta de vidro e a fecha. Eu adoro ficar lá dentro e na hora que vão me tirar eu mordo todo mundo com raiva, pois não quero sair.
O mesmo acontece quando subo no computador, ou no scanner, chego até dormir e quando vão me tirar eu fico com raiva e mordo.
Eu esqueci de dizer que três meses após eu ter sido recolhida, dona Sueli encontrou um cavalo caído em frente do seu prédio e começou a tratar dele. O veterinário sugeriu que o transportassem para um terreno baldio em frente do seu apartamento, pois seria mais confortável já que o chão era de areia fina e não o machucaria. Ela conseguiu com a Petrobrás uma empilhadeira daquelas gigantes e conseguiu levá-lo para o outro lado e pediu ajuda a Fernanda, minha primeira dona, pois ela fazia parte da Aspase- Associação de Proteção Animal de Sergipe, e num dia que ela veio aqui em casa para trazer uns remédios para o cavalo me viu. Teve um choque e começou a chorar me chamando de loirinha e contou a história que a mãe dela tinha jogado vários gatos na rua e que ela não encontrara nem a mim nem o meu irmão, o galego. O galego foi para a casa de sua secretária, que adora gatos. Ela também se chama Sueli.
Meu irmão morreu um ano depois. Estava dormindo embaixo de um carro e quando este saiu o esmagou. A Sueli ficou muito abalada e dona Sueli lhe arranjou mais dois gatos que nasceram no seu trabalho.
Sou uma gata muito feliz. Me sinto uma princesa. Aqui me chamam de Naná, que é o meu nome, e de vários apelidos quando querem me fazer carinho. Titico, ticotico, nanazita, neném e eu fico toda dengosa me esfregando entre pernas.