Um importante passo no estudo do comportamento dos chimpanzés foi dado nos anos 60 do século passado, pelos cientistas Allen e Beatrix Gardner, que trabalhavam na Universidade de Nevada, em Reno, nos Estados Unidos. Na mesma época em que a cientista Jane Goodall começava a estudar os chimpanzés em liberdade, na Tanzânia, o casal Gardner observava chimpanzés mantidos em cativeiro, nos Estados Unidos.
Com suas pesquisas e estudos de biologia, psicologia e etologia, os Gardner imaginaram que haveria um método de estabelecer comunicação com chimpanzés usando algo que fosse "natural" e já verificado entre as populações de chimpanzés que viviam em liberdade: a linguagem gestual.
Escolheram então a linguagem usada pelas pessoas com dificuldades auditivas e de fala, o Sistema Americano de Sinais (American Sign Language - ASL), para fazer seu grande experimento de comunicação entre homens e chimpanzés.
Em 1966, os dois cientistas encontram a "aluna" ideal para o seu programa: Kathy, uma chimpanzé Pan troglodytes troglodytes, de 10 meses, que fora capturada pela Força Aérea americana na África e pertencia ao centro de pesquisas de Holloman, no Novo México, um laboratório ligado à Nasa, a agência espacial norte-americana.
Kathy foi então levada para Nevada pelo casal e rebatizada como Washoe, o nome da região onde viveria (Washoe County, em Nevada). O nome completo dela é Washoe Pan Satyrus.
O Projeto Washoe, como ficou conhecido o estudo, não tinha como objetivo apenas que a chimpanzé entendesse e repetisse um "vocabulário" já existente e sim que usasse ativamente os sinais para pedir o que desejava: comida, água e brinquedos.
Adotada como bebê humano, vivendo em família com os pesquisadores, Washoe enfrentou um verdadeiro bombardeio de imagens, experiências sensoriais e sinais. Os cientistas que cuidavam dela mostravam livros e usavam a linguagem de sinais também entre eles, para que Washoe pudesse "assistir" a comunicação.
Washoe se tornou a primeira chimpanzé a usar uma linguagem criada e ensinada por humanos.
Em 1967, se juntou à equipe o psicólogo experimental Roger Fouts. Três anos mais tarde, em 1970, Fouts foi designado para acompanhar Washoe até a Universidade de Oklahoma. Desde 1980, Washoe está na Universidade Central de Washington, e é a matriarca do Instituto de Comunicação de Chimpanzés e Humanos, o CHCI (Chimpanzee and Human Communication Institute). Washoe tem uma página na Internet http://friendsofwashoe.org.
O CHCI é um santuário para os chimpanzés que se comunicam com os humanos através da ASL. Sua missão é educar o público sobre os riscos de extinção dos chimpanzés selvagens, ajudar a vida dos chimpanzés cativos e funcionar como centro de pesquisa. Durante os finais de semana, são oferecidos para estudantes e o público em geral... Chimpósios!
Hoje, com quase 38 anos, Washoe pode articular frases com sujeito e predicado, usando até sete palavras, todas construídas com a linguagem dos sinais. Sabe tomar banho, vestir roupas e comer com talheres. Ensinou a chimpanzés menores a linguagem que aprendeu. Um dos bebês adotados por Washoe, o chimpanzé Loulis, aprendeu mais de 50 sinais.
Em 1972, o projeto liderado pelo casal Gardner, em Reno, entrou numa segunda fase. O treinamento ia testar o aprendizado e analisar a convivência em grupo, em situações "fraternais". Por isso, os chimpanzés tinham de chegar bem jovens, em intervalos de alguns anos, para que fosse criada uma família em escadinha.
O cuidado e a transmissão de ensinamentos pelos irmãos mais velhos são observados em populações que vivem livremente, segundo relatos da primatóloga Jane Goodall.
Durante a segunda etapa do projeto dos Gardner, havia sempre a presença de surdos-mudos ou de pais de crianças com dicifuldade auditiva que usavam a linguagem dos sinais fluentemente. Para eles, era mais fácil reconhecer "ensaios" do uso da ASL, que foram também verificados pelo casal Gardner.
Foram também ensinados na linguagem dos sinais pelos Gardner e depois por Roger Fouts: Moja (1972-2002), Pili (1973-1975), Tatu (1975), Dar (1976) e Loulis. (MARA GAMA)