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11/08/2005 - 20h01
Declaração de Duda sobre caixa 2 do PT agita Congresso
Da Redação
Em São Paulo
De um lado, parte da oposição anunciou o "fim do governo Lula". De outro, petistas fazeram ato público contra o próprio partido. Essas foram algumas das reações ao depoimento do publicitário Duda Mendonça na CPI dos Correios nesta quinta-feira (11).
O senador Pedro Simon (PMDB-RS) cobrou de Lula um pronunciamento ao Brasil. "Ou ele fala amanhã ou nunca mais." Pediu a Duda que influenciasse o presidente para que se decidisse a falar à nação. Duda, responsável pela campanha vencedora de Lula à Presidência da República, compareceu voluntariamente à CPI após prestar depoimento para a Polícia Federal, em Salvador. Suspeito de envolvimento no escândalo do "mensalão", Duda, segundo suas próprias palavras, "abriu o coração" para os integrantes da CPI. Entre lágrimas, admitiu ter recebido dinheiro do empresário Marcos Valério como pagamento de despesas de campanha do PT. Parte dos recursos foi recebida em dinheiro vivo e outra parte ("cerca de R$ 10 milhões"), em depósitos feitos em nome de uma empresa offshore em Bahamas, aberta por Duda supostamente a pedido de Valério.
 | | | Duda chora durante depoimento na CPI | Segundo o publicitário, as cifras de recursos não declarados oriundos de Valério e do PT chegariam a R$ 15 milhões. "A gente também não é bobo. Não pode emitir nota fiscal, está na cara que não é dinheiro oficial", afirmou. "Na verdade, esse dinheiro claramente era de caixa 2". Duda justificou-se e afirmou que não poderia negar-se a receber os recursos, uma vez que tinha dívidas com fornecedores. "Não tinha poder de decisão. Não havia alternativa."
Lula ameaçado Em suas denúncias, Duda evitou envolver diretamente o presidente. Afirmou nunca ter conversado sobre dinheiro com Lula. "Nem sempre pode culpar o chefe ou o presidente, hoje é difícil comandar a própria família ou os dedos da mão." Em outro momento, disse não ter se arrependido de fazer a campanha eleitoral de Lula. "Acho o presidente Lula um homem de bem, que tudo vai ficar provado e que eu vou ter orgulho de ter feito a campanha dele, sim" , disse Duda. O publicitário disse supor que todo o dinheiro recebido para a campanha de Lula foi oficial, com notas fiscais, já que as campanhas vitoriosas sempre recebem muito dinheiro. Depois da eleição presidencial, o publicitário continuou prestando serviços à legenda, e ainda tinha dívidas da campanha eleitoral. Segundo Duda, foi a partir de então que uma parte dos pagamentos começou a ser feita sem registro.
Mas as declarações não convenceram a oposição, que já estuda abrir processo contra Lula por crime de responsabilidade. "Temos de avaliar cuidadosamente os desdobramentos do depoimento, pois, se ficar caracterizado o crime, a oposição tem o dever de agir", disse o líder do PFL no Senado, José Agripino (RN).
"Mas temos de calcular também os riscos políticos dessa iniciativa, se ela for necessária", advertiu. "Não tenho dúvida de que um processo de impeachment dividiria profundamente a sociedade brasileira, com conseqüências terríveis."
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que o depoimento expôs "um corpo sobre o chão" e que as práticas reveladas não são admitidas pela legislação brasileira. "Ele aproximou os episódios de um pântano de evasão de divisas e sonegação fiscal", afirmou.
Na Câmara, 21 deputados da esquerda do PT desligaram-se da bancada, em sessão na qual pelo menos seis parlamentares foram às lágrimas: o ex-líder Walter Pinheiro (BA), Chico Alencar (RJ), Doutor Rosinha (PR), Iara Bernardi (SP), Luiz Bassuma (BA) e Orlando Desconsi (RS).
Duda disse também que o PT ainda lhe deve R$ 14 milhões relativos a trabalhos de 2004, quando suas empresas coordenaram as campanhas de marketing para prefeito dos candidatos petistas em Recife (João Paulo), São Paulo (Marta Suplicy), Belo Horizonte (Fernando Pimentel), Goiânia (Pedro Wilson) e Curitiba (Ângelo Vanhoni). O publicitário informou que desde 2001 só faz campanhas eleitorais para o PT. Em 2002, além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também trabalhou para os candidatos José Genoino (governo de São Paulo), Aloizio Mercadante (senador em São Paulo), Benedita da Silva (governo do Rio) e um outro candidato a senador pelo Rio cujo nome não soube informar. Duda Mendonça acrescentou que, durante as campanhas, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares respondeu por todos os pagamentos de gastos do partido. O publicitário afirmou ainda que, apesar de estar triste com a situação atual, mantém a confiança no governo Lula. "Se for provado que Lula não é o presidente dos meus sonhos, nunca mais faço campanha política", sentenciou. Valério reage Assim como Duda Mendonça, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza apresentou-se voluntariamente para depor em uma Comissão Parlamentar de Inquérito -- no caso, a CPI da Compra de Votos. Questionado pelo deputado Ibrahim Abi-Ackel (PP-MG), ele desmentiu Duda e afirmou que nunca remeteu dinheiro para conta do publicitário em paraíso fiscal nas Bahamas. Segundo ele, a remessa para o exterior teria sido feita por um consultor financeiro, chamado Jader, indicado pela própria sócia de Duda, Zilmar Fernandes. "Não sei por que Duda remeteu o dinheiro para fora", comentou. Valério chegou a propor uma acareação com Duda Mendonça, mas o presidente da CPI dos Correios, senador Delcidio Amaral (PT-MS), negou a possibilidade de fazê-lo ainda nesta quinta-feira.
 | | | Duda e Zilmar na CPI dos Correios |
Oposição reage As reações ao depoimento de Duda foram imediatas. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) defendeu a necessidade de se discutir o impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como solução para a crise política que o país enfrenta. "Certamente a alternativa do impeachment tem que ser discutida", disse o senador. "A crise se agudizou de tal forma que é possível até que se conclua que essa possa ser a melhor alternativa". O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM), foi mais longe e afirmou que o "governo Lula acabou oficialmente hoje". "Toda aquela tese de que era apenas 'caixa dois', o que já é grave, veio por terra. Na verdade viu-se agora pelas declarações do Duda que é sonegação fiscal, é lavagem de dinheiro, é abertura ilegal de contas no exterior, evasão de divisas, é envolvimento muito forte com a figura jurídica do Banco Rural lá fora. É a torpe parceria entre o Marcos Valério e o PT e este governo. Não tem mais clima. Não tem mais como este governo providenciar qualquer coisa para este país agora", disse Virgílio. Situação reage Não ficaram restritas à oposição as reações diante das revelações do publicitário Duda Mendonça sobre o esquema de financiamento de campanha do PT a partir de caixa dois. O senador Aloizio Mercadante fez questão de dizer que nunca soube de qualquer esquema, apesar de sua campanha ao Senado ter sido feita por Duda. "Até 2002 o presidente do PT era o Zé Dirceu, depois foi o Genoino. A direção foi irresponsável. Esses dirigentes não tinham o direito de fazer isso com militância e com a história do PT. Quando eu vejo essa história, não reconheço o PT que ajudei a fundar, não é o mesmo PT que está envolvido nesse caso", disse o senador. Parlamentares da esquerda do partido fizeram um ato de repúdio no plenário da Câmara. Eles divulgaram uma nota na qual pedem a imediata convocação extraordinária do diretório nacional do PT para discussão e tomada de providências enérgicas em relação aos fatos. Na carta, os manifestantes comunicam que foram entregues à coordenação da bancada todas as vice-lideranças que haviam sido preenchidas com integrantes do bloco de esquerda do PT. O ato provocou comoção em vários deputados. Chico Alencar (RJ) e Orlando Desconsi (RS) chegaram a chorar. A deputada Maninha (DF) ergueu um cartaz com a frase "Não em nosso nome". O líder interino do PT, deputado Fernando Ferro (PE), pediu cautela aos deputados da bancada. "Os ajustes serão feitos no interior do nosso partido", disse Ferro. Segundo o líder interino, é interesse dos adversários do PT ver a legenda enfrentar divergências públicas. "Vamos tirar lições dos erros e caminhar para a superação dos nossos problemas. O que é importante para o Brasil e a democracia", garantiu Ferro. Mercado reage A Bolsa de Valores de São Paulo fechou em baixa de 1,78% nesta quinta-feira, abatida por novos desdobramentos da crise política, que levaram ao aumento de incerteza sobre este cenário, segundo analistas ouvidos pela agência Reuters. O volume financeiro foi o mais forte de agosto, R$ 1,9 bilhão, e superou a média diária do ano, de R$ 1,47 bilhão. Em Nova York, o indicador de principais ADRs brasileiras recuou 3,28%. Entre os papéis mais vendidos na bolsa paulista nesta sessão ficaram Vale do Rio Doce, que caiu 1,25%, Usiminas que perdeu 1,74%, e Telemar, que cedeum 2,26%, envolvido na briga de vencimento de opções, na segunda-feira. Outra notícia que teve influência no mercado foi o leilão realizado pelo Banco Central no mercado de câmbio, que fez o dólar encerrar com alta de 2,85%, maior avanço desde 31 de maio de 2004. (Com Valor, Reuters, Agência Brasil, Agência Câmara e Folha Online) Assista no UOL News: |
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