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19/03/2010 - 20h44

Tratamento de câncer em adolescentes ainda tem lacunas

Roni Caryn Rabin
The New York Times

O suplício de Simone Weinstein com o câncer começou de uma forma muito banal: ela se sentia cansada. Era difícil se levantar pela manhã e não tinha energia suficiente para sair com seus amigos.

Como Simone tinha 14 anos, sua mãe pensava que aquilo era apenas uma atitude típica da adolescência.

Ela conta que sua mãe dizia: “Não sei o que fazer com você”. Hoje, Simone tem 20 anos e estuda na faculdade Whittier College, na Califórnia. Há pouco tempo, ela recebeu o diagnóstico de câncer no sangue, chamado de leucemia linfoblástica aguda. “Minha mãe pensava que eu era uma adolescente boba e preguiçosa”, desabafa.
Isso é bastante comum, mesmo que 1 entre 333 crianças desenvolva um tumor maligno até os 20 anos e a doença seja mais fatal no grupo entre 15 e 19 anos do que qualquer outra moléstia.

Especialistas dizem que os adolescentes dificilmente pedem ajuda aos adultos ou lhes confidenciam suas mudanças físicas. Assim, eles acabam recebendo seus diagnósticos muito mais tarde do que as crianças menores. Normalmente, isso significa que eles vão necessitar de tratamentos mais agressivos e prolongados, que podem causar efeitos colaterais para o resto da vida.

Enquanto as taxas gerais de sobrevivência alcançam entre 70% e 80%, dependendo do tipo de câncer, os adolescentes não se beneficiam dos enormes avanços em sobrevivência conquistados pelas crianças menores e adultos mais velhos nas últimas décadas.

Segundo as estimativas, eles também participam menos de ensaios clínicos, os quais oferecem as terapias mais avançadas: menos de um em cada cinco adolescentes com câncer participa de um ensaio clínico, em comparação com mais da metade das crianças pequenas.

Algumas perguntas básicas sobre câncer em adolescentes permanecem sem respostas, inclusive sobre o lugar de tratamento – em hospitais pediátricos, junto com crianças pequenas, ou em locais para adultos, que seguem protocolos já testados em pacientes de idade mais avançada?

Além disso, os adolescentes tendem a desenvolver uma série de tumores muito diferentes dos adultos. Os mais comuns são leucemia, linfoma, tumores do trato reprodutivo, tumores no cérebro e sarcomas – tumores dos tecidos musculares e conjuntivos, que são muitas vezes confundidos com lesões esportivas.

“Os adolescentes se situam em uma ‘lacuna do câncer’ – uma terra de ninguém”, declara o Dr. W. Archie Bleyer, especialista no tratamento de câncer em adolescentes do Centro Médico St. Charles, em Bend, Oregon. O Dr. Bleyer discursou na abertura de uma conferência sobre o assunto, ocorrida no mês passado na Comunidade de Bem Estar de Fênix, no Arizona, associada ao grupo internacional Cancer Support Community (comunidade de apoio aos pacientes com câncer). Segundo Bleyer, “os jovens de 14, 15 e 16 anos necessitam de apoio psicológico, o qual eles não receberão dentro de um hospital para adultos”.

Ainda de acordo com Bleyer, os jovens tratados em hospitais pediátricos possuem muito mais chances de serem incluídos em ensaios clínicos; mas ele também avisa: “Dependendo do câncer, é melhor que seja tratado em um hospital para adultos.”

O grupo do Arizona começou a oferecer apoio social permanente para adolescentes muitos anos atrás, depois de conhecer Heather Bongiolatti, uma estudante do ensino médio local, diagnosticada com linfoma não-Hodgkin.

Ela disse em uma entrevista que havia experimentado grupos de apoio para adultos e crianças, mas não se adaptara a nenhum deles: “A maioria dos adultos eram pais de crianças com câncer; e os grupos para crianças faziam desenhos e trabalhinhos manuais. Eu tinha 15 anos e não queria participar daquilo.”

No entanto, ela precisava desesperadamente de um grupo social. Embora dois amigos íntimos tenham ficado ao seu lado durante a doença, grande parte de seus colegas a “deixaram de lado no mundo”, desabafa ela, fingindo nem mesmo conhecê-la quando de seu retorno à escola, depois de perder quase dois anos de aulas.
Agora com 22 anos, Bongiolatti diz que a maior parte de seus colegas está se formando na faculdade e tocando sua vida, enquanto que ela teve que dar um tempo por causa de sérios problemas nos ossos, causados pelos remédios para o câncer. Ela não pode dirigir e passou por nove cirurgias nos últimos anos, incluindo três implantes de quadril.

Gina DeGraw, assistente social responsável por uma clínica de sobreviventes do câncer especializada em adolescentes, do Hospital Infantil de Fênix, diz que não existe um bom momento na vida para ter câncer, mas a adolescência está entre os piores.

“O jovem normal está em busca de sua independência quando, de repente, recebe o diagnóstico e descobre que precisa voltar a ser dependente”, diz ela. “Eles carregam toda a angústia da adolescência e têm que lidar com questões que a maioria dos adultos não precisa lidar, como a perda da fertilidade, por exemplo.”

E também existe a questão da aparência. “Na época em que desejam parecer mais atraentes, eles ficam inchados e perdem os cabelos com a radiação, quimioterapia e esteróides”, explica DeGraw.

Os jovens também podem perder o seguro saúde no momento em que completam 18 anos e deixam de fazer parte do plano familiar ou do governo, ou quando precisam deixar a faculdade por razões médicas.

Segundo os médicos, eles não são os melhores pacientes e passam por tempos difíceis se adaptando a tratamentos longos e cansativos. Muitos destes problemas foram identificados em um relatório publicado em conjunto em 2006 pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos e a Fundação Lance Armstrong.

O relatório, que reuniu adolescentes e adultos na faixa de 20 a 40 anos, observou que esta população inteira “durante décadas, viu pouquíssima melhora na taxa de sobrevivência ao câncer.”

Esse relatório levou ao desenvolvimento de programas de tratamento focados nas necessidades específicas de adolescentes e jovens adultos. Por exemplo: segundo o Dr. Brandon Hayes-Lattin, diretor médico do programa de oncologia para adolescentes e jovens adultos do Instituto Knight do Câncer, no estado de Oregon, a instituição mantém um programa interdisciplinar que consulta oncologistas de crianças e adultos sobre os ensaios clínicos disponíveis e que oferece serviços de apoio para os pacientes jovens.

De acordo com a Dra. Crystal L. Mackall, chefe do departamento de oncologia pediátrica do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, os ensaios clínicos realizados com este grupo conseguiu alguns avanços – especialmente no que se refere à leucemia linfoblástica aguda, o tipo de câncer de Simone Weinstein.

Os jovens com este tipo de leucemia, chamada de LLA, não passam pelo tratamento tão bem como as crianças menores, considerando-se a mesma doença, uma discrepância que tem confundido os oncologistas.

Porém, quando os pesquisadores compararam jovens tratados por oncologistas pediátricos com aqueles tratados por oncologistas de adultos, descobriram que o primeiro grupo obteve resultados muito melhores.

A Dra. Wendy Stock, diretora do programa de leucemia do Centro Médico da Universidade de Chicago, disse que “quando vimos as diferenças, fiquei pasma. Não era uma pequena diferença de 5%, mas uma diferença de 30% no índice de sobrevivência.”

Atualmente, o protocolo pediátrico é oferecido a adolescentes através de locais de ensaios clínicos.

A Dra. Stock e outros médicos estão tentando descobrir os fatores responsáveis pelos melhores resultados e se a taxa maior de sobrevivência se deve ao protocolo de tratamento ou a outros fatores, como o ambiente mais bem estruturado dos centros pediátricos ou a maior familiaridade dos oncologistas pediátricos com a LLA.

É possível que haja diferenças sutis entre o tipo de adolescente ou jovem adulto encaminhado a um centro pediátrico e aquele que consulta um oncologista para adultos.

Muitos dos remédios receitados para este tipo de leucemia são tomados por via oral na casa dos pacientes, exigindo um comprometimento total por um longo período. “O adolescente ou jovem adulto que consulta um pediatra geralmente vai acompanhado de sua mãe, e é ela que vai forçá-lo a tomar os remédios”, explica a Dra. Stock.

© 2010 New York Times News Service

 

Tradutor:
Cláudia Lindenmeyer

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