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18/11/2005 - 14h15
Lula diz que vai disputar reeleição, mas volta atrás e afirma que foi um "lapso"

Da Redação
Em São Paulo

Durante entrevista coletiva concedida nesta sexta-feira para nove emissoras de rádio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que irá "sim disputar as eleições". Depois, corrigiu a informação e disse ter cometido "um lapso". "Na verdade, a intenção era dizer se eu for para a disputa", esclareceu. Ele assegurou que não tem pressa de decidir sobre a reeleição.

Lula também entrou em contradição ao comentar a participação do presidente da República em campanhas eleitorais. Primeiro disse ser contrário. Depois, que estaria na campanha mesmo não sendo candidato.

Na entrevista, Lula também disse considerar "saudáveis" as divergências entre sua equipe --os ministros Antonio Palocci (Fazenda) e Dilma Rousseff (Casa Civil) andaram trocando críticas públicas nos últimos dias. O presidente também defendeu Palocci e a política econômica e disse não ter visto crime cometido pelo ex-ministro-chefe da Casa Civil e deputado José Dirceu (PT-SP), que está ameaçado de cassação.

Eleições 2006

Depois do "lapso", Lula afirmou que só vai decidir no ano que vem, em março ou abril, se será ou não candidato à reeleição e que não será apenas uma decisão pessoal, mas do PT.

"Ainda não decidi se sou candidato. Votei contra a reeleição na Constituinte. Fui uma vítima da reeleição, quando eu tinha chances de ganhar."

Lula disse ainda que é contrário ao envolvimento pessoal do presidente em uma campanha eleitoral e que isto prejudica o governo. Mas depois entrou em contradição.

Primeiro disse que presidente não deve fazer campanha. "Eu estou muito convencido de que o presidente não tem de fazer campanha eleitoral. Em um ano eleitoral as coisas param. Se eu decidir vai ser lá para março ou abril. Não agora, tenho muita coisa para decidir."

Depois, afirmou que estaria na campanha. "Se eu for candidato ou não for candidato, estarei em campanha porque eu vou ajudar um companheiro", acrescentou.

Apesar de reconhecer a crise política que seu partido enfrenta, o presidente afirmou acreditar na força do PT para 2006. Para Lula, o partido mostrou sua força nas prévias que ocorreram em setembro, nas quais foi eleita a nova direção nacional do partido.

"As prévias mostram que o PT está vivo. 300 mil pessoas votaram. Isto demonstra muito vigor. O PT é novo, tem só 25 anos, nesta idade cometemos muitos erros. Os que cometeram erros pagarão e estão pagando por isso."

Divergências internas

Durante a entrevista, o presidente afirmou que as divergências entre os integrantes do seu governo são "saudáveis e fazem parte da democracia".

"Eu não me preocupo com a divergência, acho que ela é salutar. É saudável que as pessoas expressem o seu pensamento até que esse comportamento não prejudique a totalidade e o conjunto do governo", disse Lula.

O presidente reafirmou a confiança que tem em sua equipe e disse que os dois ministros são extremamente importantes para o governo e que não está do lado de nenhum dos dois, mas, sim, "do lado do povo brasileiro".

O presidente disse ainda que só há um caminho para acabar com as divergências e este caminho é o diálogo dentro do governo. "Na medida em que os ministros tenham divergência, como é que nós dirimimos essa divergência? Nós convocamos uma reunião com os ministros que estão divergindo e resolvemos o problema porque aí nós transformamos a divergência numa política pública do governo e todos passarão a defender aquela política pública", afirmou Lula.

"Por enquanto eles estão debatendo. Quando eles terminarem o debate trarão na minha mesa e junto com a Comissão de Política Econômica nós pegamos essa tese, transformamos numa política pública de governo, e aí a Dilma, o Palocci, o presidente Lula, o ministro do Planejamento, o ministro da Agricultura, a ministra do Meio Ambiente, todos passarão a defender a política defendida pelo governo", reiterou.

Palocci e política econômica

Lula fez elogios diretos a Palocci. "Quero reafirmar aqui que o ministro Palocci é o ministro da minha inteira e total confiança e o Brasil deve muito a ele. Não sei se um economista conseguiria fazer o que o Palocci fez na política econômica", afirmou.

Sobre o papel de Palocci no governo, Lula afirmou que "é o de qualquer tesoureiro responsável pelas finanças em qualquer lugar do mundo". "O papel do Palocci é tentar segurar ao máximo porque ele sabe que se não segurar a vaca vai para o brejo."

Segundo Lula, é o equilíbrio entre a vontade de um ministro e a disponibilidade de liberar recursos que permite "que a gente tenha uma política de gasto justa sem repetir erros que historicamente foram cometidos no Brasil". "Graças a Deus, nós hoje temos espaço para que alguém possa divergir de alguém neste país", reiterou.

Lula ainda esclareceu que em nenhum momento afirmou que vai mudar a política econômica do governo, fazendo alterações na política cambial e de formação de superávit. "Eu não posso crer que você tenha entendido que eu disse que vou mudar superávit, que vou mudar política cambial. Eu disse que nós, na medida que conquistamos a estabilidade, na medida que conseguimos controlar a inflação, estamos vendo os juros caírem. Já caiu de 19,75% para 19%. A tendência natural é os juros continuarem caindo."

Segundo o presidente, "na medida que os juros vão caindo, a tendência natural é o câmbio ter um ajuste por conta da taxa de juros. O superávit será de 4,25% [do PIB (Produto Interno Bruto)], que nós assumimos o compromisso. E ninguém faz superávit porque gosta de fazer superávit. Nós fazemos superávit porque devemos muito. É quase um trilhão nossa dívida interna e nós precisamos dizer aos nossos credores que, muitas vezes, é a grande parte da classe média brasileira que tem poupança nos bancos, que eles vão ter como receber aquilo que é dinheiro deles. Não fazemos isto porque é maravilhoso fazer superávit, fazemos isto porque é uma questão de seriedade."

Dilma Rousseff

Em relação à ministra Dilma Rousseff, Lula afirmou que seu trabalho é árduo porque ela atende às reivindicações dos demais integrantes da sua equipe. "A Dilma passa o dia inteiro recebendo ministros querendo mais obras, mais financiamentos, e é a Dilma a encarregada de trazer para a minha mesa junto com o ministro da Fazenda, com o ministro do Planejamento e o ministro da área, as reivindicações."

Dirceu

Assim como na entrevista concedida na semana passada ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Lula voltou a afirmar que não viu qualquer crime cometido por Dirceu e de que não acredita na existência do "mensalão".

Durante o programa de televisão, o presidente disse que Dirceu será cassado. Lula falou não acreditar que suas palavras prejudicarão a defesa do seu ex-ministro. "Não acredito que minha fala tenha prejudicado o Zé Dirceu. O que eu tenho visto são as pessoas condenarem a priori o Zé Dirceu. Eu fico me perguntando qual crime o Zé Dirceu cometeu."

(Com informações do Valor Online, Reuters e Folha Online)


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