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01/12/2005 - 16h10
Dirceu reafirma ser inocente e diz que cassação é como "pena de morte"

Da Redação
Em São Paulo

Cassado na noite de ontem pela Câmara dos Deputados, José Dirceu (PT-SP), ex-ministro da Casa Civil e ex-homem forte de Lula, afirmou que ter sido cassado é "como se tivesse perdido a própria vida". "É uma dor que vocês não podem imaginar", afirmou, durante entrevista coletiva na tarde desta quinta-feira em Brasília. Em seguida, Dirceu comparou a cassação à pena de morte.

Jamil Bittar/Reuters 
O ex-deputado José Dirceu durante entrevista coletiva que concedeu na Câmara
O ex-deputado voltou se declarar inocente das acusações de ter montado um esquema de corrupção no governo Lula e afirmou que foi punido sem provas. "Eu não fui cassado por corrupção, a minha cassação foi política", afirmou, completando que a oposição vai usar sua cassação nas eleições de 2006 e quer ver o governo "sangrando" até chegar enfraquecido às urnas.

Quando questionado sobre se teria se arrependido de não ter renunciado, ele negou. "Eu sabia que eu corria esse risco [de ser cassado]", afirmou. "Eu não me sinto nessa posição de vítima, tem muitas coisas mais graves que isso acontecendo no país. Não vamos dramatizar muito isso não, gente", disse aos jornalistas.

O ex-ministro afirmou não guardar mágoas nem ressentimentos dos colegas que o cassaram. Ele também declarou que não vai recorrer da decisão. "Não tenho ânimo de ir ao Supremo Tribunal Federal. Meu ânimo agora é de trabalhar, porque eu preciso me sustentar", afirmou.

Dirceu agradeceu ao presidente Lula pelo apoio --nos bastidores, comentava-se que Dirceu esperava que Lula o defendesse com mais veemência. "Reiterar meu agradecimento ao presidente Lula, que disse para todo o país, com toda a responsabilidade do presidente da República, que eu era inocente e que não haviam provas contra mim", afirmou.

Futuro
Sobre os planos para o futuro, Dirceu afirmou que voltará a trabalhar como advogado em São Paulo e que vai escrever um livro em parceria com o escritor Fernando Morais sobre os 30 meses que passou à frente da Casa Civil. "Eu não vou fazer um livro 'chapa branca', eu quero discutir o país", disse, afirmando que vai contar "tudo que é necessário para relatar minha passagem pelo governo" na publicação.

Questionado sobre uma provável volta ao poder, Dirceu respondeu ao repórter: "boa pergunta". Em seguida, acrescentou: "eu já cumpri um papel na vida política do país. Eu tenho que ter humildade para saber que eu sou um ex-presidente do PT, um ex-ministro e um ex-deputado. Eu tenho que ter consciência que boa parte da sociedade me condena", afirmou.

Demonstrando bom humor durante a entrevista, ele citou o compositor Zeca Pagodinho e disse que seu lema será "deixa a vida me levar", refrão de uma canção de Pagodinho. Dirceu também afirmou que não irá se aposentar antes dos 75 anos (ele tem 59 agora).

Sobre sua participação política de agora em diante, Dirceu afirmou que vai apoiar o presidente Lula, caso ele decida se candidatar à reeleição, ou outro candidato que o PT escolha para a presidência da República. Como só poderá voltar a participar de processos eletivos em 2016, Dirceu afirmou, durante esse período, sua atuação política vai ser no apoio a movimentos sociais.

José Dirceu também afirmou que recebeu mais manifestações de apoio do que de condenação dos eleitores e disse que as bengaladas que levou de um escritor em Brasília nesta semana foram "fato isolado". Mesmo assim, Dirceu vai apresentar queixa-crime contra o escritor que tentou acertá-lo. Um aposentado foi à coletiva defender Dirceu e desafiou o escritor que agrediu Dirceu para um "duelo de bengalas".

PT
Sobre o Partido dos Trabalhadores, Dirceu afirmou que se tivesse sido presidente do PT nos últimos anos, os problemas que mancharam a imagem do partido não teriam ocorrido. "Se eu fosse presidente do PT, a situação seria outra", respondeu, recusando-se a explicar o que queria dizer com a declaração para não ser taxado novamente de "arrogante".

Para Dirceu, Delúbio Soares (ex-tesoureiro expulso do partido após ter sido acusado de ter operado o pagamento de recursos a parlamentares da base aliada) é "honesto", porque "não houve enriquecimento ilícito da parte dele".

Sobre a existência de "caixa dois" no PT, ele admitiu que o partido errou. "O PT cometeu erros e vai banir o 'caixa dois'", afirmou. "Não podemos fazer um julgamento do PT por causa desse erro [caixa dois]", declarou. "É preciso ver a resposta que o PT está dando a esses erros. A sociedade saberá colocar na balança os acertos e os erros do PT. Eu sou totalmente favorável que se ponha fim ao 'caixa dois'", disse Dirceu. Questionado sobre a solução para o fim da crise, ele se declarou a favor de uma reforma política.

Dirceu repetiu que não há provas de que exista o "mensalão", pagamento de propina a deputados. "Eu não tenho convicção de que tenha havido 'mensalão'".

Sobre o fato de o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ser o próximo alvo da oposição, ele disse que Palocci é "imprescindível" para o Brasil. "Eu defendo o ministro Palocci das acusações que estão sendo feitas contra ele como defendo a sua permanência como ministro", afirmou.

Ao final da entrevista, ele criticou o "denuncismo vazio" de veículos de comunicação e diz que a imprensa não pode fazer denúncias sem provas.


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