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24/12/2006 - 18h44
Russos lembram com amargura o 15º aniversário do fim da URSS
Ignacio Ortega
Moscou, 24 dez (EFE).- A Rússia lembra amanhã o 15º aniversário
do histórico discurso no qual Mikhail Gorbachov anunciou sua
renúncia e assinou a "certidão de óbito" da outrora onipotente União
Soviética (URSS).
"Gorbachov não deve participar de nenhum ato especial", disse
hoje Pavel Palaschenko, porta-voz da Fundação Gorbachov.
O Estado soviético tinha deixado de existir quatro dias antes,
mas a renúncia do último dirigente soviético em um discurso
televisionado, em 25 de dezembro de 1991, convenceu os últimos
incrédulos de que a URSS (União de Repúblicas Socialistas
Soviéticas) tinha acabado.
Os turistas que visitavam a Praça Vermelha naquela noite
testemunharam a bandeira soviética sendo arriada e surgir, em seu
lugar, a tricolor bandeira czarista da nova Rússia, comandada por
Boris Yeltsin.
"Não há nada a comemorar. Gorbachov nunca foi um comunista. Não
pôde preservar a URSS porque tinha outra tarefa em mente, seu
desmoronamento", disse hoje o pensionista Gennadi Abashin.
Maria, de 24 anos, expressou opinião semelhante, ao considerar
que Gorbachov deveria "ter modernizado o país para evitar a
desintegração".
"Entre as repúblicas existiam fortes laços. Tínhamos muitas
coisas em comum", disse, enquanto passeava sob a neve em frente ao
Kremlin.
Naquela noite, Gorbachov, que sempre foi elogiado por suas
habilidades como orador, pronunciou um discurso emocionado no qual
fez um mea-culpa, mas defendeu as reformas introduzidas durante a
Perestroika.
O discurso não foi uma surpresa, já que havia sido antecipado
pelos meios de comunicação na véspera, e foi motivado pela "nova
realidade política" surgida após a criação da Comunidade dos Estados
Independentes (CEI) naquele 8 de dezembro.
Gorbachov defendeu a "independência dos povos", mas também a
"preservação do Estado" e a "integridade do país", e reiterou que
decisões de "tamanha envergadura" como o fim da URSS deveriam ter
sido aprovadas mediante a expressão da "vontade popular".
"Temos muito de tudo, terra, petróleo, gás, carvão, metais
preciosos, outras riquezas naturais, e Deus também não nos ofendeu
quanto à inteligência e talentos, mas vivemos muito pior que os
países desenvolvidos", disse.
Em uma de suas frases mais célebres, Gorbachov expressou seu
pesar diante do fato de que as pessoas perderiam "a cidadania de um
grande país" e pediu a todos para "conservar as conquistas
democráticas": eleições livres, liberdade de imprensa e de
consciência, pluripartidarismo, respeito aos direitos humanos,
reforma agrária e propriedade privada.
Desde o princípio, Gorbachov insistiu na viabilidade do "Estado",
mas mostrou-se o tempo todo disposto a cooperar em uma transição
ordenada e na consolidação da nova comunidade pós-soviética.
De fato, Gorbachov já tinha perdido todos os símbolos do poder em
21 de dezembro, quando os líderes de 11 das antigas 15 repúblicas da
URSS - menos a Geórgia e as três bálticas - nomearam um novo
comandante das Forças Armadas.
"Gorbachov não calculou bem suas forças. A renúncia foi a melhor
decisão que pôde tomar", afirma a pensionista Tania, de 58 anos.
O último dirigente soviético, de 75 anos, retornou recentemente
ao "trabalho", após submeter-se em meados de novembro a uma
complicada operação cardíaca em uma clínica de Munique.
Por conselho dos médicos, Gorbachov não viajou em 17 de novembro
à tradicional Cúpula de Prêmios Nobel da Paz em Roma.
Mikhail Gorbachov, Prêmio Nobel da Paz em 1990, dirige atualmente
a fundação que leva seu nome e que se dedica à pesquisa política,
social e econômica.
Além disso, em junho passado, anunciou a compra de 10% das ações
do independente "Novaya Gazeta", onde trabalhava a jornalista Anna
Politkovskaya, vítima de um assassinato em novembro.
Apesar da diferença de seus estilos, Gorbachov se transformou nos
últimos anos em aliado do presidente russo, Vladimir Putin, embora
também tenha criticado a regressão no que se refere às liberdades
civis na Rússia.
"Gorbachov contribuiu para o desaparecimento da URSS. E mais, foi
a chave do desastre. Deixou-se usar como um títere. Agora, deveria
viver como um aposentado e abster-se de participar da vida política.
Seu momento já passou", opinou Boris, de 28 anos.
Segundo as pesquisas de opinião, mais da metade dos russos tem
saudade da URSS, porcentagem que supera os 75% nas pessoas com mais
de 60 anos. UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)

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