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17/02/2008 - 10h13
Rússia não reconhecerá secessão do Kosovo e prevê onda separatista na Europa
Ignacio Ortega
Moscou, 17 fev (EFE).- A Rússia não hesitou em abrir uma nova
frente de atrito com o Ocidente para defender a integridade
territorial da Sérvia, se opondo à independência unilateral da
província sérvia do Kosovo.
O presidente russo, Vladimir Putin, reafirmou no final de janeiro
no Kremlin ao chefe de Estado sérvio, Boris Tadic, a "categórica"
oposição russa à independência dessa região de maioria albanesa.
"O reconhecimento da independência do Kosovo seria ilegal e
imoral", disse Putin, que advertiu que o reconhecimento do novo
Estado trará o retorno da instabilidade aos Bálcãs.
Putin insistiu na vigência da resolução 1.244 do Conselho de
Segurança da ONU, que reconhece o Kosovo como parte integrante da
Sérvia e também contempla o retorno da minoria sérvia a seus lares.
"Dizem que o Kosovo é um caso especial. É tudo mentira, não é
nenhum caso especial, e todos entendem isso perfeitamente", disse.
A Rússia declarou que nunca reconhecerá a independência kosovar
sem o beneplácito de Belgrado, o que intensificará seu atual atrito
com o Ocidente em temas de segurança e solução de conflitos.
O Kremlin sempre se pronunciou contra a autodeterminação do
Kosovo, inclusive nos tempos de Boris Yeltsin, quando o Kremlin
ainda não tinha se recuperado da queda da União Soviética.
Yeltsin qualificou o bombardeio da Sérvia, em 1999, de "retorno à
Idade de Pedra", e desde então a postura oficial russa só endureceu.
Após recuperada a auto-estima pelo renascimento econômico, Moscou
aparece agora como o porta-bandeira do direito internacional, da
inviolabilidade das fronteiras dos Estados e da luta contra os
separatismos.
Na opinião de Moscou, o Ocidente defende esses princípios em
algumas regiões e ignora completamente as mesmas idéias em outras,
dependendo de seus interesses políticos e econômicos.
A Rússia sustenta que a independência do Kosovo abrirá a "caixa
de Pandora" das pretensões independentistas de muitas outras
regiões, tanto no "quintal" da Rússia (Abkházia, Ossétia do Sul,
Nagorno Karabakh e Transnístria), quanto na Espanha, França e
Itália.
"É a primeira vez que se aborda a saída de uma região de dentro
de um Estado soberano. O Kosovo será um precedente para quase 200
regiões e Estados do mundo", advertiu o ministro de Exteriores
russo, Serguei Lavrov.
Por isso, a Rússia sempre defendeu a retomada das negociações
entre Belgrado e Pristina, mesmo quando as consultas entre as duas
partes não iam bem.
A Rússia e a Sérvia chegaram inclusive a falar de um "mapa do
caminho" alternativo às iniciativas ocidentais, e coincidiram em
propor ao Kosovo uma autonomia especial, semelhante à que existe em
Hong Kong.
Chegado o momento, a Rússia usou seu direito ao veto no Conselho
de Segurança da ONU para frustrar os planos dos Estados Unidos e dos
países da União Européia de debater o plano do mediador Martti
Ahtisaari de independência tutelada para o Kosovo.
Para isso, criou uma frente comum com a China, outra potência com
direito de veto também muito interessada na luta contra os
movimentos independentistas.
Os dois países firmaram um acordo tácito de cooperação na ONU
para abortar qualquer tentativa de interferência em relação à
república russa da Chechênia e às regiões chinesas de Xinjiang e
Tibete.
Diante da possibilidade certa de que russos e chineses
recorressem ao veto, o Ocidente teve que retirar o assunto do Kosovo
da ordem do dia do Conselho de Segurança.
Quando a independência do Kosovo já parecia irreversível, a
Rússia denunciou que o envio de uma missão da União Européia a essa
região sérvia de maioria albanesa não tinha "base legal".
Em sinal de agradecimento por seu apoio incondicional no Kosovo,
o presidente sérvio aceitou selar com Putin uma aliança energética
válida por 30 anos, que reforça as posições russas nos Bálcãs.
A Igreja Ortodoxa e muitos políticos russos consideram os sérvios
seus "irmãos eslavos", por isso a percepção social da independência
do muçulmano Kosovo é muito negativa.
Em todo caso, a Rússia não tomará medidas de represália, segundo
deixam transparecer as afirmações de Lavrov, que disse que o Kremlin
não prevê o reconhecimento das independências das regiões georgianas
da Abkházia e da Ossétia do Sul.
"A Rússia não tem em seu repertório político nenhum tipo de
medidas para castigar ninguém", disse Lavrov. UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)

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