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20/02/2008 - 14h44
Governo silencia sobre sucessão um dia após renúncia de Fidel

Antonio Martínez Havana, 20 fev (EFE) - As fontes governamentais e a imprensa cubana fazem silêncio absoluto sobre quem será o novo chefe de Estado e de Governo um dia após o anúncio de que Fidel Castro não deseja ser eleito Presidente no próximo domingo, quando o Parlamento estiver reunido.

Como observado nesta terça-feira, o clima percebido hoje em Havana é de absoluta normalidade, com as pessoas realizando suas tarefas cotidianas, assim como no resto da ilha.

Os poucos comentários feitos nas esquinas garantem que o presidente interino e ministro da Defesa, Raúl Castro, será eleito sucessor de Fidel, apesar de diplomatas e analistas não descartarem ainda outras possibilidades, como a eleição do secretário e vice-presidente do Conselho de Estado, Carlos Lage.

Os jornais cubanos "Granma" e "Juventud Rebelde" elogiaram hoje a decisão de Fidel de não ser reeleito, afirmaram que foi um gesto de "extraordinária dignidade" e divulgaram mensagens de setores governistas que lhe juraram lealdade, mas nada disseram sobre a sucessão.

"Cada um de nós agirá como um comandante-em-chefe", diz a manchete do "Juventud Rebelde" enquanto outra traz os dizeres: "Não falharemos com ele".

"Atenderemos sempre a seu arsenal de idéias", diz a primeira página do "Granma", órgão do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, do qual Fidel é primeiro-secretário.

Os dois jornais, os únicos da ilha, se limitaram a relatar nas primeiras páginas o anúncio do líder cubano sobre sua intenção de deixar a Presidência do país após quase 50 anos no poder, sem reações ou comentários.

A imprensa apenas divulgou uma declaração de um representante do regime sobre a saída de Fidel.

O presidente do Parlamento cubano, Ricardo Alarcón, pediu a seus compatriotas para "manterem a dignidade da pátria" e torná-la mais justa, livre, independente e soberana.

Também não se sabe muito sobre Fidel, de 81 anos e que se recupera há 19 meses de uma cirurgia no intestino que o obrigou a passar, interinamente, a Presidência a seu irmão Raúl, de 76, que continuará no cargo de primeiro-secretário do Partido Comunista, o único da ilha.

O mandato executivo do líder cubano terminará oficialmente em 24 de fevereiro, quando a Assembléia Nacional eleger um novo Conselho de Estado, presidido pelo comandante-em-chefe desde a criação do atual sistema de Governo, em 1967.

Na mensagem de renúncia, Fidel disse que, a partir de agora, seus artigos sob o título "Reflexões do comandante-em-chefe" serão chamados simplesmente de "Reflexões do companheiro Fidel".

Ele também advertiu de que suas notas de opinião continuarão sendo "uma arma a mais do arsenal com o qual se poderá contar" e ressaltou, caso ainda haja dúvidas: "Não me despeço de vocês".

A opção do líder cubano se destacava em uma série de possibilidades discutidas há um ano e meio por analistas, diplomatas, intelectuais e correspondentes, mas surpreendeu na forma e na data escolhida por Fidel, cinco dias antes do fim do mandato.

Agora, as expectativas giram em torno de quanto poder Fidel manterá como líder da revolução de janeiro de 1959, como guia da esquerda radical latino-americana e como primeiro-secretário do Partido Comunista, se continuar no cargo.

A Constituição cubana consagra o partido como "a força dirigente superior da sociedade e do Estado".

"Essa é uma das dúvidas que ficam em suspenso na mensagem: o que está acontecendo com o partido?", indagou um observador.

Nestes 19 meses em que Raúl Castro ocupou interinamente a Presidência de Cuba, Fidel continuou interferindo no Governo e administrando vetos a muitos assuntos importantes, e a dúvida é se agora tudo isso mudará.

"Fidel vai continuar tendo poder de veto sobre as decisões do país e esse poder não vai ser discutido", disse um analista, que acrescentou que será apenas uma questão de tempo até que o poder do líder cubano se torne "cada vez mais irrelevante" devido à sua saúde e ao passar dos meses e dos anos.

Outros comentam o caráter paternalista de Fidel ao classificarem a mensagem de renúncia como uma "obrigação" de preparar o povo para suas "ausências psicológica e politicamente".

Sobre o motivo pelo qual Fidel, que recentemente reconheceu ter se apegado ao poder, decidiu renunciar agora - outros crêem que acabou sendo convencido de que isso era necessário -, um observador disse: "Ou seu estado de saúde está pior do que dizem os chefes de Estado que o visitam", ou as reformas econômicas necessárias, anunciadas por Raúl Castro, "são mais urgentes do que o previsto".

Cabe destacar que Fidel, que não aparece em público desde julho de 2006, renunciou à Presidência em um artigo publicado na imprensa e não gravou uma mensagem de áudio e vídeo, cortando seu cordão umbilical com os cubanos.



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