Nairóbi, 5 nov (EFE).- O argentino Luis Moreno-Ocampo, promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), anunciou hoje em Nairóbi que pedirá em dezembro a abertura de uma investigação sobre a violência pós-eleitoral ocorrida ano passado no Quênia.
"Considero que crimes de lesa-humanidade foram cometidos no Quênia", declarou Moreno-Ocampo em um breve comparecimento diante dos jornalistas presentes à porta do gabinete do presidente queniano, Mwai Kibaki, depois de uma reunião com este e o primeiro-ministro do país, Raila Odinga.
Segundo Kibaki, ele e Odinga tiveram "um encontro construtivo com o promotor. As conversas foram sinceras", disse.
O presidente do Quênia assegurou que o Governo está comprometido a "desenvolver um mecanismo judicial local para se ocupar dos responsáveis da violência pós-eleitoral e colaborar com o TPI", algo que não aconteceu até agora.
Em julho, Moreno-Ocampo recebeu do ex-secretário-geral da ONU e mediador nos conflitos do Quênia, Kofi Annan, os nomes de pelo menos dez altos funcionários do Governo queniano supostamente envolvidos nos confrontos.
Os episódios de violência começaram quando a oposição, então liderada por Odinga, denunciou fraude no resultado eleitoral, que dava a vitória pela segunda vez consecutiva a Kibaki.
Em 41 dias, mais de 1.500 pessoas foram assassinadas e 400 mil foram deslocadas de seus lares.
Embora inicialmente interpretado como um conflito étnico, analistas locais insistiram em que o ocorrido foi produto de um histórico problema de terras e do uso sectário das rivalidades tribais por parte dos líderes políticos nacionais.
Apesar de a solução temporária para o conflito ter sido integrar a oposição ao partido governista e criar uma coalizão entre Kibaki e Odinga, nenhuma das reformas propostas pela comunidade internacional e por uma comissão de investigação local começou.
Moreno-Ocampo ainda passará mais dois dias mais no Quênia, nos quais se espera que tenha reuniões com membros do Governo, de outras instituições do Estado e da sociedade civil.
As outras quatro eleições gerais realizadas no Quênia desde a instauração do sistema multilateral, em 1992, registraram confrontos, mas, nenhum membro do alto escalão de algum Governo já foi julgado por ter participado de forma direta ou indireta dos mesmos.
A maior preocupação agora é fazer com que os crimes ocorridos logo depois das últimas eleições não fiquem impunes, pois há o risco de que eventos similares se repitam depois do próximo pleito, previsto para 2012.