(Acrescenta novas declarações)
Moscou, 8 nov (EFE).- O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, que nos anos 1980 trabalhou para o KGB soviético na Alemanha Oriental, disse que o Muro de Berlim era "antinatural" e a reunificação da Alemanha, inevitável.
"Certamente, era antinatural. Para mim, era evidente que no mundo atual é impossível reter um povo e este retido não pode estar", afirma Putin no documentário "Muro", que será exibido hoje à noite no canal russo "NTV".
Putin lembra a sensação de "irrealidade" que para ele tinha tanto o muro como a divisão da Alemanha quando esteve destinado em Dresden como funcionário dos serviços secretos soviéticos (KGB).
"Ocorreu o que tinha de ocorrer: a divisão da Alemanha não tinha futuro. Do ponto de vista histórico, não tinha nenhuma perspectiva. Estava claro desde o princípio, que esta situação não deveria ter sido criada (as duas Alemanhas)", afirma.
O ex-presidente russo ressalta que a Grande Muralha chinesa se conservou durante centenas de anos e ainda pode ser vista a partir do espaço "porque foi construída para defender o povo, enquanto que o muro de Berlim dividia um povo".
"Os alemães orientais viviam em outro mundo. A República Democrática Alemã era como um vestígio da URSS. Era uma sociedade dura", lembra.
"Minha primeira sensação foi de inquietação por essa gente, era possível sentir os processos de mudança na sociedade. Mas os líderes se opunham a qualquer mudança", comenta.
Putin considera que os berlinenses e alemães "foram reféns da luta entre duas potências (URSS e EUA) e as forças ocupantes, ao leste e o oeste".
Com relação a isso, assegurou "que não foi a URSS que dividiu a Alemanha e que Moscou apostou desde o início por uma só democracia".
"Assim ocorreu na Áustria. Mas os aliados preferiram fundar a Alemanha Federal", diz.
Putin relata que em uma ocasião teve de intervir para evitar que dezenas de manifestantes atacassem um prédio onde estavam representantes do Exército soviético.
"Expliquei a eles que o prédio pertencia ao Exército soviético e que tínhamos direito de estar e trabalhar ali. Depois de um tempo, o grupo se dispersou, mas foi um momento turbulento", aponta.
Além disso, lembra que os habitantes da Alemanha Oriental "tentaram sempre evitar o conflito com os representantes da URSS".
O primeiro-ministro russo também acredita que as autoridades soviéticas deveriam ter atuado de outra forma na hora de defender os interesses da URSS na Alemanha Oriental, no que se refere à compensação econômica para a retirada das tropas.
"Mas acho que o mais importante foi feito. Surgiu um novo tipo de relação entre Rússia e Alemanha", opina.
Putin diz guardar uma lembrança indelével de seu primeiro encontro com o líder da República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental), Helmut Kohl, quando era assessor do popular prefeito de São Petersburgo, Anatoli Sobchak, entre o final dos 1980 e o começo dos anos 1990.
"Ainda hoje guardo uma viva lembrança desse encontro. Compreendi que na Europa e na Alemanha há pessoas no poder que, profunda e sinceramente, estão convencidos de que o futuro da Europa está vinculado às boas relações com a Rússia", destaca.