Centenas de pessoas esperavam em filas nesta quarta-feira em um centro de distribuição em Banda Aceh, na Indonésia. Mas nada chegou durante a manhã e não havia autoridades para explicar.
"Ouvimos que haveria arroz aqui hoje", disse Baruna, 40, no meio da multidão que cercou um repórter estrangeiro em busca de qualquer informação sobre onde conseguir comida.
"É por isso que estamos esperando. Minha família está com fome. Somos 15 na casa."
Cerca de 500.000 pessoas ficaram desabrigadas na Indonésia após a catástrofe, muitas delas feridas.
Mais de 94.000 morreram, quase todas em Aceh -- província de quatro milhões de habitantes abalada por três décadas de guerra civil.
Quase não há atividade comercial. Poucas lojas estão abertas e moradores desesperados disseram que não há nada para comprar, mesmo se os bancos estivessem abertos para retirada de dinheiro.
Mas um barbeiro abriu sua loja e tinha muito movimento. Em um hospital militar em Banda Aceh, cerca de 200 pacientes feridos no desastre estão divididos em 20 por quarto. Alguns estão em camas, outros em macas militares no chão. Há moscas e voluntários distribuem roupas.
O neurocirurgião Edison Sitorus, médico responsável, disse que as infecções são comuns e que teve que fazer amputações. "Alguns pacientes morreram", disse.
Sitorus disse que o hospital tem número suficiente de médicos, incluindo alguns da Austrália e da Malásia, mas que precisa de mais enfermeiras e equipes de limpeza, e que o suprimento de comida está irregular. "Um problema real é que muitos pacientes não podem ir para casa. Eles não têm casa, nem parentes."
Seu maior temor é a malária. Os feridos, sem casa e fracos, fornecem as condições ideais para a malária, que já havia voltado a Aceh antes do desastre.
Os esforços de ajuda também estão concentrados na cidade costeira de Meulaboh, 175 quilômetros a sudoeste da capital e a apenas 150 quilômetros do epicentro do maremoto de 26 de dezembro. Segundo autoridades da ONU, um terço dos 120.000 habitantes da cidade podem ter morrido na tragédia.
"Os hospitais estão lotados", disse Bill Griggs, capitão da Força Aérea australiana. "Estamos tentando organizá-los, mas mais pessoas feridas continuam chegando pela costa."
A visita de Powell
O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell sobrevoou hoje, por helicóptero, regiões devastadas pelo tsunami na Indonésia.
"Estive em guerras e em muitos furacões, tornados e outras operações de ajuda, mas nunca vi nada igual", disse ele a repórteres.
"Voei sobre Banda Aceh e vi como a onda veio levando tudo em seu caminho --- carros, barcos, navios cargueiros viraram -- seguindo até as montanhas, começando a subir até que finalmente as ondas pararam."
"Não consigo imaginar o horror das famílias e de todas as pessoas que ouviram o barulho se aproximando e que tiveram as vidas destruídas por esta onda", disse o ex-general.
Ele disse que terá um melhor entendimento das necessidades de Aceh nas próximas semanas e meses e que se reportará ao presidente dos EUA, George W. Bush, sobre a devastação e sobre o que os EUA podem fazer para ajudar.
Dez dias depois que o tremor mais forte em 40 anos enviou ondas gigantes até a cidade de mais de 300.000 habitantes no norte de Sumatra, centenas de sobreviventes abalados andam pelas ruas em busca de qualquer coisa que possam encontrar.
"Meus filhos desapareceram, meus netos desapareceram", disse Hawal, mulher de 60 anos de idade que procurava entre os destroços de uma loja de sapatos destruída, ao lado do irmão mais velho e de um garoto.
"Não tenho roupas", disse, contendo as lágrimas e segurando um lenço branco sobre a boca para se proteger do cheiro dos corpos em decomposição enterrados nos destroços.
Helicópteros Seahawk seguiram com ajuda para áreas devastadas e trouxeram de volta feridos.
Acampamentos com bandeiras de dezenas de países que estão fornecendo ajuda, da África do Sul à China, foram montados no aeroporto -- em ilustração do que o presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, chamou de "união global" na maior operação humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.
O capitão Larry Bunt, comandante de helicópteros Seakawk, disse que o lançamento de ajuda está ficando mais eficiente e que estão planejados outros 30 vôos nesta quarta-feira.
"Voamos em círculos tentando encontrar os refugiados. Eles saem (dos abrigos) e acenam", disse, acrescentando que são necessários soldados da Indonésia para controlar as multidões. "Caso contrário, os grupos cercam os helicópteros. E será que os que estão recebendo comida são os que precisam dela? Porque os mais fortes recebem primeiro."
Quinze sobreviventes feridos, incluindo crianças com queimaduras graves, estavam deitados em macas no aeroporto, esperando para serem levados para Medan em um avião de transporte Hércules da Austrália.
Europa faz 3 minutos de silêncio
Dez dias após a tragédia, europeus fizeram três minutos de silêncio nesta quarta-feira para lembrar os milhares de pessoas que morreram com o tsunami na Ásia. Prédios públicos dos países da União Européia estão com as bandeiras a meio mastro, as bolsas de valores fizeram silêncio e as estações de TV e rádio transmitiram música solene para homenagear as vítimas do maremoto.
A operadora de trens alemã Deutsche Bahn disse que os trens ficariam parados nas estações por um minuto e os funcionários suspenderiam o trabalho por três minutos. Pausas similares foram planejadas em aeroportos.
"Vivemos da indústria do turismo", disse o chefe do aeroporto de Berlim, Dieter Johannsen-Roth. "Então temos que aceitar a responsabilidade pelas pessoas da região."
Luxemburgo, que detém a Presidência rotativa da União Européia, convocou todos os 25 Estados membros e instituições para observarem o silêncio, "mostrando solidariedade e luto pelas vítimas do desastre", disse um porta-voz da Comissão Européia.
Mais de 9 mil turistas estrangeiros, a maioria europeus, morreram ou estão desaparecidos após o desastre, que devastou a costa da Indonésia, Tailândia e Sri Lanka. A Suécia parece ser o país europeu mais afetado.
Veja a seguir os números de mortos por país:
| PAÍS | MORTOS | FERIDOS |
| Indonésia | 94.081 | mais de 100 mil |
| Sri Lanka | 30.513 | 15.686 |
| Índia | 15.782 | sem dados |
| Tailândia | 5.246 | 8.457 |
| Somália, Quênia, Seychelles e Tanzânia | 137 | sem dados |
| Maldivas | 74 | sem dados |
| Malásia | 74 | 299 |
| Mianmar | 59 | 45 |
| Bangladesh | 2 | sem dados |
| Total | 145.968 | sem dados finais |
A Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda estima haver mais de 500 mil pessoas feridas e precisando de atendimento médico nos seis países asiáticos afetados.
No vilarejo de Meulaboh, localizado na Província de Aceh (Indonésia) e onde teriam morrido até 40 mil pessoas, uma pista de pouso e decolagem foi liberada o suficiente para permitir a chegada de um avião de pequeno porte com médicos a bordo. Foram distribuídos analgésicos, bandagens e roupas para a população.
"O número de vítimas em Meulaboh é inimaginável", afirmou Aitor Lacomba, diretor indonésio do Comitê Internacional de Resgate. "Dezenas de milhares de pessoas precisam de ajuda imediatamente ali."
Apesar dos problemas, a distribuição de material de ajuda também parecia estar melhorando em outros locais.
"A situação em Banda Aceh (capital de Aceh) está melhorando no geral. O atraso na distribuição do material de ajuda está sendo resolvido", afirmou o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários, da ONU.
Em toda a Ásia, aumentava o temor de que se disseminem doenças.
"Essa é uma corrida contra o relógio", disse a OMS em seu comunicado mais recente.
A entidade afirmou já ter recebido vários relatos sobre casos de malária e de dengue e centenas de relatos sobre casos de diarréia e de feridas infectadas.
Crianças mortas
O Unicef estima que cerca de 50 mil crianças morreram por conta do tsunami e dezenas de milhares ficaram órfãs.
Em Aceh, Ulisarati, uma garota de 8 anos cuja escola foi destruída, espera voltar à rotina o quanto antes.
"Eu quero voltar para a escola. Quero aprender. Vou pedir ao papai que ache outro lugar para mim", diz.
Com esse número de mortos, esse passa a figurar entre as grandes tragédias naturais de que se tem notícia. Veja tabela abaixo com os principais.
| DATA | TIPO | LOCAL | MORTOS |
| 1887 | Inundação | China | 1 milhão |
| 1556 | Terremoto | China, Shaansi | 830 mil |
| 1737 | Terremoto | Índia, Calcutá | 300 mil |
| 1970 | Ciclone | Paquistão/Bangladesh | 300 mil |
| 1976 | Terremoto | China, Tangshan | 255 mil |
| 1138 | Terremoto | Síria, Aleppo | 230 mil |
| 1920 | Terremoto | China, Gansu | 200 mil |
| 1923 | Terremoto | Japão, Kanto | 143 mil * |
| 1991 | Ciclone | Bangladesh | 138 mil |
| 1948 | Terremoto | Turcomenistão | 110 mil |
| 1908 | Terremoto/Enchentes | Itália, Messina | 70 mil a 100 mil |
| 1815 | Erupção | Indonésia, vulcão Tambora | 92 mil |
| 1902 | Erupção | Martinica, Mt. Pelee | 35 mil a 40 mil |
| 1883 | Erupção/Tsunami | Indonésia, Krakatoa | 36 mil |
| 2003 | Terremoto | Irã, Bam | 31 mil |