No final da noite de sexta (1º), já havia mais de 60 mil pessoas reunidas na praça de São Pedro. Em todo o mundo, católicos realizaram celebrações e oraram pelo papa. Em São Paulo, o cardeal d. Cláudio Hummes comandou uma missa na Catedral da Sé. Um dos cotados para suceder João Paulo 2º, Hummes disse que a "nacionalidade não influencia na escolha do papa" (
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De acordo com nota divulgada à tarde pelo Vaticano, a saúde do papa piorou, estava com hipotensão (tensão arterial abaixo do normal) e tinha a função renal comprometida (leia a íntegra da nota). Médicos afirmam que não é mais possível fazer diálises.
"Esta noite Cristo abrirá as portas para o papa", afirmou o monsenhor Angelo Comastri, vigário do Pontífice para a Cidade do Vaticano.
Uma longa procissão de fiéis, com velas nas mãos, se agrupou na praça de São Pedro e muitos deles se ajoelharam repetindo orações em coro.
"Quando o pai sofre, seus filhos se reúnem a seu lado, e quando o pai morre, os filhos ajoelham e rezam... desta maneira mostram e dão o seu afeto, admiração e agradecimento. É o que desejamos fazer esta noite... queremos nos fechar em torno do Santo Padre", destacou o monsenhor Comastri.
Os fiéis vivem uma comoção coletiva ante a iminência do desenlace fatal da batalha que a poucos metros o papa trava contra sua doença.
O Vaticano disse que o papa, de 84 anos, tem dificuldade para respirar e que sua pressão arterial caiu a níveis perigosamente baixos. Mas a Santa Sé negou relatos da imprensa italiana de que ele havia morrido. Na quinta-feira, João Paulo 2º recebeu a unção dos enfermos, antes chamada de extrema-unção.
Citando a agência de notícias italiana Apcom, a emissora Sky Italia disse que o papa estava inconsciente. "O sucessor de Pedro, o pescador, está morrendo", disse o cardeal de Chicago, Francis George, mal contendo as lágrimas.
As autoridades eclesiais já preparam o mundo e seu 1,1 bilhão de católicos apostólicos romanos para o fim do terceiro pontificado mais longo da história -- 26 anos e cinco meses.
"As condições gerais e cardiorrespiratórias do Santo Padre se agravaram ainda mais", disse o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls. "Os parâmetros biológicos estão visivelmente comprometidos."
O vigário de Roma, cardeal Camillo Ruini, disse que o papa "já vê e toca o Senhor". "Ele já está unido ao nosso único Salvador", afirmou durante missa por João Paulo 2º na basílica de São João Latrão, a catedral do papa na qualidade de bispo de Roma.
O padre Konrad Hejmo, amigo íntimo do papa, o primeiro não-italiano em 455 anos, disse que o pontífice ainda está vivo, mas respira com ajuda artificial.
Os católicos lotaram as igrejas para acender velas e orar pelo homem que se tornou papa em 1978, revitalizou a Igreja, ajudou a derrubar o comunismo e provocou inúmeras polêmicas. Dezenas de milhares de pessoas tomaram a praça de São Pedro, no Vaticano, atentas às luzes do apartamento do papa.
Tristeza na Polônia
Após semanas com a saúde em declínio, o papa apresentou febre alta na quinta-feira, provocada por uma infecção urinária. Mas ele disse a assessores que não queria voltar ao hospital, onde passou várias semanas antes da Páscoa.
"O fato de ele não querer voltar mostra que ele está carregando sua cruz e pronto para dizer 'acabou"', disse o bispo irlandês John Magee, ex-secretário particular do pontífice.
Alguns cardeais foram chamados à beira do leito do papa para se despedir dele. Navarro-Valls, normalmente contido, estava quase aos prantos ao dizer que o papa participara de uma missa em seu quarto, ao amanhecer.
Também na Polônia a população seguia aflita a agonia do papa. "Vim rezar por ele", disse Maria Danecka, que participava da aglomeração dentro e nos arredores da basílica de Wadowice, a cidade onde Karol Wojtyla nasceu, em 1920. Muita gente chorava.
Também em Varsóvia e em Cracóvia, onde Wojtyla foi arcebispo, as igrejas ficaram lotadas. Houve missas especiais na Ásia, na África e nas Américas.
Depois que o papa morrer, mais de cem cardeais de todo o mundo serão chamados a Roma para o conclave que normalmente começa entre 15 e 20 dias após a morte, na capela Sistina, no Vaticano.
Não há um favorito claro para assumir a liderança da Igreja, assim como em 1978 o próprio Wojtyla não era favorito.
Alguns religiosos acreditam que o papa virá do Terceiro Mundo, pois é aí que a religião demonstra mais vitalidade.
Católicos da África, a região onde o catolicismo mais cresce, se inspiram na força de vontade do papa para sobreviver no mais pobre dos continentes. "É muito difícil para ele passar por isso. Mas ele ainda não desistiu, e isto nos dá coragem para carregar as nossas próprias dificuldades", disse a vendedora de livros Eleanora Kazadi, 40 anos, que assistiu a uma concorrida missa em Nairóbi, no Quênia.
"Estamos todos muito tristes com a deterioração da sua saúde", disse Gloria Macapagal Arroyo, presidente das Filipinas, um dos poucos países da Ásia onde o catolicismo predomina.
Incapaz de falar
Conhecido como "Atleta de Cristo" no início de seu pontificado, devido a sua dedicação a atividades físicas, o papa começou a apresentar problemas em maio de 1981, quando sofreu um atentado.
Vítima do mal de Parkinson, foi ao longo da última década que ele passou a demonstrar sinais cada vez mais constantes de fraqueza. Passou os últimos dois meses gravemente doente e não conseguiu se recuperar de uma recente traqueostomia, feita para ajudá-lo a respirar.
João Paulo 2º não consegue falar em público desde que deixou o hospital, em 13 de março, com um tubo inserido na traquéia para ajudá-lo a respirar. Nesta semana, ele recebeu outro tubo, pelo nariz, para a alimentação.
Os historiadores dizem que um de seus principais legados será sua participação na queda do comunismo na Polônia, em 1989, o que desencadeou mudanças políticas em todo o Leste Europeu.
Mas suas posturas ortodoxas com relação aos ensinamentos da Igreja -- contra o uso de preservativos e a favor do celibato clerical, por exemplo -- provocaram críticas de muitos católicos liberais.