A disputa pela sucessão de João Paulo 2º parece cada vez mais centrado nos cardeais europeus. Antes apontados como nomes de peso no Vaticano, devido à influência católica em seus continentes, os latinos e os africanos foram aos poucos suprimidos dos noticiários.
O mexicano Norberto Rivera Carrera, o nigeriano Francis Arinze, o brasileiro Cláudio Hummes, o hondurenho Oscar Andres Rodríguez Maradiaga e o colombiano Darío Castrillón Hoyos não são mais citados pelos jornais italianos, os que têm mais fontes ligadas à cúria.
O ponto de referência continua sendo o alemão Joseph Ratzinger, seja como "candidato", seja como articulador. Depois que a Igreja proibiu os cardeais de falar com a imprensa, no último sábado, a discussão passou a ser em torno que quem poderia fazer a Ratzinger.
Continuam bem cotados o número dois da hierarquia, o italiano Angelo Soldano (secretário de Estado do Vaticano), o austríaco Christoph Schönborn (arcebispo de Viena), Camillo Ruini (vigário-geral da diocese de Roma) e o português José da Cruz Policarpo, mas principalmente Diogini Tettamanzi e Carlo Maria Martini, ambos de Milão.
As críticas feitas por Ratzinger contra teólogos dissidentes polarizaram os católicos. Alguns entendem que o alemão não tem o perfil necessário para ser o novo papa. Moderados e alguns conservadores classificam-o como centralizador.
Além disso, alguns cardeais dizem estar contra Ratzinger porque "a idéia de um papa de transição denota uma falta de coragem e levaria (a igreja) a um estancamento, como nos últimos cinco anos de pontificado, mas sem a intuição nem os gestos de João Paulo 2º", informa o jornal italiano "La Repubblica".
A força dos italianos
Para a imprensa italiana, o cardeal emérito Martini é visto como o principal adversário de Ratzinger. Segundo o "La Repubblica", muitos cardeais, sobretudo os de origem americana e alemã, apoiariam o "aposentado".
Martini e Ratzinger são as duas faces da herança do pontificado de João Paulo 2º. O primeiro representa a mudança estrutural (é reformista e defende a contracepção e a ordenação de mulheres) e a proximidade às demais religiões.
Já o segundo personifica o rigor doutrinal e a tradição eclesiástica. Ultraconservador, é um dos mais poderosos do Vaticano, e dirige a Congregação para a Doutrina da Fé, órgão ortodoxo, antigo Tribunal da Inquisição. Atuou como supervisor da área de doutrina da Igreja Católica para o papa durante 23 anos.
Outro cardeal bem cotado é Dionigi Tettamanzi, sucessor de Martini como arcebispo de Milão e tido como moderador entre liberais e conservadores.
"Nas reuniões entre os cardeais, Martini (que já manifestou não querer o pontificado) vem mostrando grande respeito por seu sucessor em Milão, Dionigi Tettamanzi - um sinal claro de que os reformistas devem votar nele", informou o "La Repubblica".
Tettamanzi defendeu os manifestantes antiglobalização na cúpula do G8 em 2001, em Gênova, onde era arcebispo na época. Também falou sobre a necessidade de se oferecer tratamento para as vítimas da Aids na África.
Eleição
Nas primeiras 30 eleições, é necessário mais de 2/3 dos votos - 77, já que o número de cardeais com direito a voto (aqueles com menos de 80 anos) é de 115 (desistiram do conclave, por motivo de doença, o filipino Jaime Sin e o mexicano Alfonso Antonio Suárez Rivera).
Depois disso, a maioria simples passa a determinar a escolha do novo papa. Assim, o conclave, que tem início na próxima segunda-feira, não tem prazo definido para acabar. Como os cardeais não se conhecem profundamente entre si, eles se reúnem diariamente desde o dia 4, para aparar as arestas e definir todos os detalhes das eleições.
Quartos por sorteio
Os cardeais escolheram nesta quinta-feira, por meio de sorteio, os quartos em que ficarão hospedados durante o conclave. Eles ficarão na Casa Santa Marta, um hotel situado dentro do Palácio Apostólico, a cerca de 400 metros da Capela Sistina, onde será realizada a votação.
A décima reunião do Colégio Cardinalício, com os 142 "purpurados" que estão no Vaticano, começou com uma "invocação ao Espírito Santo" para iluminar o conclave na hora de escolher o futuro santo padre.
Nesse encontro prévio, os cardeais obtiveram esclarecimentos sobre alguns aspectos da Constituição Pontifícia, promulgada por João Paulo 2º em 1996 e que regula tudo o que se refere à sede vacante, período entre a morte de um papa até a escolha de seu sucessor.
Após esse preâmbulo espiritual e prático, os cardeais retomaram as deliberações secretas sobre a situação da Igreja e do mundo, através das quais vão escolher seus candidatos.