Os 115 cardeais que escolherão, a partir desta segunda-feira (18), o novo líder da Igreja Católica no mundo se recolhem já neste domingo (17) na Casa Santa Marta, local do Vaticano onde ficarão hospedados até a eleição final do sucessor de João Paulo 2º, morto no último dia 2 de abril.
Pode ser que não ocorra nenhuma votação nesta segunda. A decisão será tomada apenas nesta segunda-feira pelos religiosos do Colégio de Cardinalícios com menos de 80 anos - apenas os cardeais desta faixa etária têm direito a voto, os outros, no entanto, também podem ser votados.
O ritual rigidamente programado para a eleição de um novo papa tem um papel claro para todos, exceto para os atores mais importantes, os "eleitores ilustres" que influenciam a opinião dos cardeais no conclave e angariam votos entre eles.
Esses "fazedores de reis", tradicionalmente altos "príncipes da Igreja" europeus, normalmente não podem se tornar papa eles mesmos, mas podem estimular os colegas a votar em um candidato por meio de um lobby discreto.
Ninguém os nomeia, eles trabalham em segredo e seu papel é somente confirmado após o acontecido. O polonês Karol Wojtyla não teria se tornado o papa João Paulo 2o sem o abrangente esforço de lobby feito pelo cardeal de Viena Franz Koenig.
Os eleitores ilustres são cruciais porque muitos dos 115 cardeais eleitores não conhecem os candidatos pessoalmente. Somente dois deles já participaram de um conclave antes.
"A única maneira de um grupo tão diverso chegar a qualquer coisa perto da maioria requerida de dois terços", escreveu o historiador papal John-Peter Pham, "será se cardeais suficientes seguirem a liderança de seus colegas mais influentes".
Dois cardeais de 78 anos, o alemão Joseph Ratzinger e o italiano Carlo Maria Martini, apareceram no período de pré-conclave como estrelas guia para os campos conservador e moderado. Nenhum dos dois deve ser eleito.
Almoços de trabalho
Apesar de os cardeais dizerem depender de inspiração divina para mostrar-lhes o caminho, uma piscadela ou um aceno de um grande eleitor - como a sugestão de Martini de que ele apoiaria o cardeal de Milão Dionigi Tettamanzi - pode certamente ajudar o candidato.
Como decano do colégio de cardeais, Ratzinger foi capaz de esclarecer suas posições em sua homilia no funeral do papa João Paulo 2o no dia 8 de abril e presidiu os encontros diários da "congregação geral" nos quais os cardeais discutiram os problemas enfrentados pela Igreja.
A mídia italiana noticiou "almoços de trabalho" pela cidade e especulou sobre movimentos de "alianças" entre os peso-pesados.
Em um almoço na última sexta-feira, o cardeal moderado Karl Lehmann, chefe da influente conferência dos bispos da Alemanha, foi visto com seu colega conservador Angelo Scola de Veneza e o cardeal francês Jean-Marie Lustiger.
Uma outra notícia relatava o encontro de vários cardeais moderados alemães, britânicos, italianos e do Leste Europeu para promover Tettamanzi. Os próprios cardeais não comentam as notícias e a verdade pode não aparecer mesmo após o conclave.
Vazar fofocas e detalhes das discussões dos cardeais é outra forma de jogar o jogo. Os cardeais tentaram bloquear tais vazamentos com um voto de silêncio pré-conclave, mas os jornais italianos estavam cheios dessas notícias mesmo assim.
Alinhando votos
Dado o tradicional domínio romano da Igreja Católica, os eleitores ilustres eram tradicionalmente cardeais italianos baseados na burocracia do Vaticano, ou Cúria.
Em 1939, eles se alinharam em torno do companheiro de Cúria cardeal Eugenio Pacelli e rapidamente levaram outros para o seu lado. Ele venceu após três votações, a mais curta eleição no século 20.
O cardeal Angelo Roncalli se tornou o papa João 23 em 1958 graças, em parte, aos cardeais da França, onde ele havia sido anteriormente núncio papal (enviado) e pelos quais tinha intermediado por promoções.
Seu sucessor, Paulo 6º, teve vários europeus progressistas, incluindo Koenig, e o poderoso conservador cardeal Francis Spellman, de Nova York, o apoiando.
Em 1978, o cardeal de Florença Giovanni Benelli liderou o movimento para eleger seu companheiro de Veneza Albino Luciani como o papa João Paulo 1o, que morreu após somente 33 dias.
Quando Benelli tentou então usar seu status de grande eleitor para ser ele próprio escolhido, Koenig ganhou os cardeais dos países de língua alemã para Wojtyla, enquanto o cardeal polonês-americano John Krol reuniu a maioria dos eleitores americanos para o lado do polonês.
Ratzinger é favorito nas casas de apostas
As casas de apostas colocam neste domingo o cardeal alemão Joseph Ratzinger como o favorito para suceder o papa João Paulo 2º.
Ratzinger, que completou 78 anos no sábado, liderava três bolsas de apostas na internet, com margem de 2-1.Mas há dois italianos (Carlo Maria Martini e Dionigi Tettamanzi) e um francês (Jean-Marie Lustige) logo atrás dele.
Logo depois, mas com possibilidade de alcance, estão um brasileiro (Claudio Hummes) e um nigeriano (Francis Arinze).
Paddy Power, da casa de aposta irlandesa, disse que o primeiro conclave em um quarto de século está se tornando o maior evento de apostas não-esportivas, no lugar do Oscar de Hollywood.
Residência Santa Marta
Os 115 cardeais, que estavam hospedados em congregações religiosas, centros da Igreja ou nos colégios de sacerdotes de seus países em Roma, começaram a chegar à Residência Santa Marta no meio da tarde de domingo, depois de muitos deles terem celebrado missas nas igrejas nacionais de seus países na Cidade Eterna.
A Residência Santa Marta está poucos metros à direita da Basílica de São Pedro e é um moderno edifício de cinco andares com 130 quartos.
Os quartos foram atribuídos aos cardeais por sorteio, segundo estabelece a normativa vaticana.
O jantar desta noite e os eventuais passeios que possam realizar dentro da muralha vaticana - o Conclave de 2005 abrangerá praticamente todo o território vaticano - serão momentos que permitirão a eles trocarem opiniões sobre os problemas da Igreja e sobre que tipo de papa é necessário neste terceiro milênio.
As conversas proporcionarão aos cardeais dados mais precisos sobre em quem devem votar. Segundo o que se desprende do pouco que contaram os cardeais e seu entorno - alinhados com o compromisso que adotaram de não conceder entrevistas nem falar com a imprensa - o Conclave começa sem um favorito e em meio à divisão dos cardeais.
Depois desta primeira noite em Santa Marta, os cardeais realizarão nesta segunda-feira (às 5h horas de Brasília) a missa "Pro eligendo Pontifice" na Basílica de São Pedro do Vaticano, a que assistirão o Corpo Diplomático e todos os fiéis que desejarem.
Eles almoçarão de novo em Santa Marta e às 11h30 (de Brasília) se reunirão no Salão das Bênções do Palácio Apostólico, e em procissão se dirigirão para a Capela Sistina, onde será realizado o Conclave.
Durante os dias de Conclave, os cardeais celebrarão uma missa em Santa Marta às 2h30 horas (de Brasília). Às 4h horas se dirigirão para a Capela Sistina, a um quilômetro da casa. Eles podem ir a pé ou em ônibus, como preferir.
Na Capela Sistina rezarão primeiro as laudas da Liturgia das Horas e imediatamente depois começarão as votações.
A normativa vaticana estabelece duas votações de manhã e outras duas pela tarde.
Após a segunda votação de cada rodízio serão queimadas as cédulas e as eventuais anotações dos cardeais em cada uma delas.
Segundo os tempos aproximados previstos pelo Vaticano, as fumaças que anunciam ao mundo se há papa (branca) ou ainda não há (preta) poderão acontecer por volta das 07h (de Brasília) e por volta das 14h horas (de Brasília).
Isso se a eleição do papa não acontecer durante a primeira votação da manhã ou da tarde. Neste caso, a fumaça seria antecipada.
Esta noite é a última, antes do Conclave, que os cardeais ainda estarão "livres", ou seja, que poderão falar com que desejarem.
A Constituição Apostólica "Universi Dominici Gregis", sobre a Sé Vacante e a eleição do Sumo Pontífice, estabelece que durante o Conclave os cardeais eleitores serão obrigados a não manter correspondência epistolar, conversas telefônicas ou por rádio com pessoas não autorizadas nos edifícios reservados a eles.
Também não receberão a imprensa, nem ouvirão programas de rádio, nem assistirão à televisão.
Os cardeais não poderão revelar notícias diretas ou indiretas sobre as votações ou o tratado. E uma vez encerrado o Conclave e eleito o novo papa, também não deverão contá-lo, a não ser que o novo Pontífice tenha dado sua aprovação.
Quem violar o segredo pode ser excomunhado, segundo a normativa vaticana.
O Vaticano garantirá esse isolamento dos cardeais, e não permitirá a entrada de gravadores ou outro tipo de transmissão audiovisual na Capela Sistina.
Durante o Conclave os turistas não poderão subir à Cúpula da Basílica de São Pedro nem entrar nos jardins vaticanos, mas poderão visitar o túmulo de João Paulo 2º, na cripta do templo.