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23/04/2005 - 16h39
Bento 16 tentará integrar os divorciados à igreja

O novo papa, Bento 16, no trono de São Pedro
O cardeal argentino Jorge Bergoglio foi o segundo mais bem votado no conclave, obtendo 40 votos na terceira votação, antes da quarta e última que elegeu Bento 16, diz jornal

Da Redação
Com agências internacionais

Bento 16 poderá anunciar avanços na Igreja muito antes que seus críticos imaginam, já que, antes de chegar ao papado, preparou quatro documentos considerados "bombas teológico-doutrinais" e que prevêem, entre outras coisas, a reintegração dos divorciados no seio da igreja.

Neste sábado o "ministro da Justiça" do Vaticano, o cardeal espanhol Julián Herranz, admitiu ao jornal italiano "La Repubblica" que a igreja vai discutir o direito de comunhão para as pessoas divorciadas.

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O cardeal espanhol Herranz, que é presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos e da Comissão Disciplinar da Cúria Romana desde 1999, reconheceu que existem vários documentos a respeito preparados pelo cardeal Joseph Ratzinger quando era responsável pela Congregação da Doutrina da Fé.

Segundo estes texto, a igreja poderá admitir que o cônjuge foi abandonado, ou seja, se viu "obrigado" a se divorciar e depois voltou a se casar no civil para poder formar uma família, o que não apagaria a "falta", mas sim a reduziria.

Atualmente, segundo a doutrina católica, os divorciados que contraem matrimônio civil em segundas núpcias não podem receber a comunhão.

Por outro lado, pessoas que estão na prisão por ter cometido grandes delitos podem receber o sacramento, o que é interpretado por uma parte da igreja como uma terrível incoerência e uma grande injustiça.

Argentino foi o 2º mais votado, diz jornal
A candidatura do jesuíta argentino Jorge Bergoglio, de 68 anos, obteve 40 votos na terceira votação do conclave, antes da quarta e última, segundo o vaticanista do jornal italiano Il Giornale, Andrea Tornielli.

"Esteve cabeça a cabeça com Ratzinger. Bergoglio esteve a uma distância de 10 a 15 votos de quem foi eleito pontífice", escreveu Tornielli, autor de vários livros religiosos, entre eles uma biografia sobre o novo Papa.

Este seria o maior número de votos já alcançado por um latino-americano em um conclave, segundo o vaticanista, que citou indiscrições, que por causa do juramento de segredo do conclave nunca serão desmentidas ou confirmadas.

"Estava muito nervoso, sofria", contou o vaticanista, que destaca que suas fontes lhe garantiram que provavelmente o cardeal latino-americano não teria aceitado uma responsabilidade deste tamanho.

Papa agradece a imprensa
O papa Bento 16 teve neste sábado seu primeiro encontro com a imprensa, no qual agradeceu pelo trabalho dos jornalistas nos últimos dias e manifestou a intenção de dar continuidade ao que chamou de um "frutífero diálogo" [referindo-se ao contato entre a igreja e a mídia].

Numa breve intervenção, depois da qual não houve lugar para perguntas, o sumo pontífice falou em italiano, inglês, francês e alemão, mas não pronunciou uma só palavra em espanhol, apesar do grande peso da comunidade hispânica na Igreja Católica.

"Desejo continuar este diálogo frutífero e compartilho a idéia de João Paulo 2º de que o desenvolvimento atual da comunicação social impulsiona a igreja a uma revisão pastoral e cultural, permitindo-lhe enfrentar o mundo em que vivemos", declarou.

Bento 16 foi recebido com aplausos pelos cerca de 4.000 profissionais de comunicação e visitantes, que conseguiram entrar na sala da audiência. O discurso demorou cerca de dez minutos.

O papa agradeceu aos jornalistas em quatro línguas (italiano, inglês, francês e alemão), mas não em espanhol.

Missa e rituais
Bento 16 assumirá seu cargo formalmente neste domingo, durante a tradicional missa de início de pontificado, que será celebrada na Basílica de São Pedro, às 10h (5h de Brasília).

O papa celebrará a Missa de Início de Pontificado. O rito que acontecerá em seguida é resultante da reforma do Concílio Vaticano 2º, uma vez abolido o uso da tiara no papado de Paulo 6º, e inclui três "novidades": a oração no túmulo de São Pedro, o uso de um pálio mais longo e a imposição do Anel do Pescador, que terá o selo papal.

Bento 16 descerá ao túmulo de Pedro junto com os patriarcas das Igrejas Orientais. Ali ficará alguns minutos rezando, e depois subirá à basílica para se unir em procissão aos outros concelebrantes e religiosos, com os quais irá até o sacrário da Praça de São Pedro. Neste local, acontecerá a missa solene na presença de mais de cem delegações oficiais de todo o mundo e centenas de milhares de pessoas.

O Evangelho será lido em latim e grego, e depois acontecerá o rito da imposição do pálio e a entrega do Anel do Pescador.

O pálio é um antigo símbolo episcopal. Simboliza o Salvador, que, encontrando o homem como a ovelha desgarrada, o carrega nos ombros. É uma faixa coloca em volta do pescoço confeccionada com lã de cordeiro.

O pálio será colocado pelo cardeal chileno Jorge Arturo Medina Estévez, o mesmo que anunciou ao mundo que a Igreja tinha um novo papa no último dia 19.

Depois, Bento 16 receberá o Anel do Pescador. O ritual prevê que o decano do Colégio Cardinalício faça a entrega, mas como o decano era o papa, o rito será cumprido pelo vice-decano, o cardeal Angelo Sodano.

O monsenhor Crispino Valenziano, do escritório de Cerimônias Pontifícias, informou neste sábado que o Anel do Pescador é diferente do usado por João Paulo 2º. Desta vez o anel terá o mesmo símbolo do Selo Papal de chumbo, usado pelo Pontífice para carimbar documentos.

O anel trará a figura de Pedro jogando a rede para pescar. Bento 16 usará o anel até sua morte, quando o Camerlengo o retirará e o destruirá, para que ninguém possa usá-lo e também para simbolizar o final do Papado.

Espaço aéreo fechado
A cidade de Roma se prepara para receber ao menos 500 mil peregrinos e delegações oficiais do mundo inteiro, inclusive a da Alemanha, terra natal do novo papa, para a missa que marcará o início do pontificado de Bento 16.

A exemplo dos funerais de João Paulo 2º, as autoridades municipais criaram um dispositivo especial de segurança e de transporte para que a capital não entre em colapso. O espaço aéreo sobre a capital permanecerá fechado e o aeroporto civil e militar de Ciampino não receberá vôos regulares nem sábado (23) nem domingo (24), para facilitar o pouso de aeronaves oficiais.

Um avião radar Awacs, caças e helicópteros patrulharão o céu da cidade. Um total de 7.000 agentes das forças de segurança será mobilizado e 2.000 voluntários ajudarão a conduzir os peregrinos até a praça São Pedro, oferecendo água e servindo de intérprete.

Oito postos médicos, 60 ambulâncias, uma centena de médicos e entre 200 e 300 enfermeiras também estarão posicionados para ajudar os fiéis.

Os Fiéis poderão presenciar a missa em telões gigantes instalados em diversos pontos da cidade.

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