Bento 16 poderá anunciar avanços na Igreja muito antes que seus críticos imaginam, já que, antes de chegar ao papado, preparou quatro documentos considerados "bombas teológico-doutrinais" e que prevêem, entre outras coisas, a reintegração dos divorciados no seio da igreja.
Neste sábado o "ministro da Justiça" do Vaticano, o cardeal espanhol Julián Herranz, admitiu ao jornal italiano "La Repubblica" que a igreja vai discutir o direito de comunhão para as pessoas divorciadas.
O cardeal espanhol Herranz, que é presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos e da Comissão Disciplinar da Cúria Romana desde 1999, reconheceu que existem vários documentos a respeito preparados pelo cardeal Joseph Ratzinger quando era responsável pela Congregação da Doutrina da Fé.
Segundo estes texto, a igreja poderá admitir que o cônjuge foi abandonado, ou seja, se viu "obrigado" a se divorciar e depois voltou a se casar no civil para poder formar uma família, o que não apagaria a "falta", mas sim a reduziria.
Atualmente, segundo a doutrina católica, os divorciados que contraem matrimônio civil em segundas núpcias não podem receber a comunhão.
Por outro lado, pessoas que estão na prisão por ter cometido grandes delitos podem receber o sacramento, o que é interpretado por uma parte da igreja como uma terrível incoerência e uma grande injustiça.
Argentino foi o 2º mais votado, diz jornal
A candidatura do jesuíta argentino Jorge Bergoglio, de 68 anos, obteve 40 votos na terceira votação do conclave, antes da quarta e última, segundo o vaticanista do jornal italiano Il Giornale, Andrea Tornielli.
"Esteve cabeça a cabeça com Ratzinger. Bergoglio esteve a uma distância de 10 a 15 votos de quem foi eleito pontífice", escreveu Tornielli, autor de vários livros religiosos, entre eles uma biografia sobre o novo Papa.
Este seria o maior número de votos já alcançado por um latino-americano em um conclave, segundo o vaticanista, que citou indiscrições, que por causa do juramento de segredo do conclave nunca serão desmentidas ou confirmadas.
"Estava muito nervoso, sofria", contou o vaticanista, que destaca que suas fontes lhe garantiram que provavelmente o cardeal latino-americano não teria aceitado uma responsabilidade deste tamanho.
Papa agradece a imprensa
O papa Bento 16 teve neste sábado seu primeiro encontro com a imprensa, no qual agradeceu pelo trabalho dos jornalistas nos últimos dias e manifestou a intenção de dar continuidade ao que chamou de um "frutífero diálogo" [referindo-se ao contato entre a igreja e a mídia].
Numa breve intervenção, depois da qual não houve lugar para perguntas, o sumo pontífice falou em italiano, inglês, francês e alemão, mas não pronunciou uma só palavra em espanhol, apesar do grande peso da comunidade hispânica na Igreja Católica.
"Desejo continuar este diálogo frutífero e compartilho a idéia de João Paulo 2º de que o desenvolvimento atual da comunicação social impulsiona a igreja a uma revisão pastoral e cultural, permitindo-lhe enfrentar o mundo em que vivemos", declarou.
Bento 16 foi recebido com aplausos pelos cerca de 4.000 profissionais de comunicação e visitantes, que conseguiram entrar na sala da audiência. O discurso demorou cerca de dez minutos.
O papa agradeceu aos jornalistas em quatro línguas (italiano, inglês, francês e alemão), mas não em espanhol.
Missa e rituais
Bento 16 assumirá seu cargo formalmente neste domingo, durante a tradicional missa de início de pontificado, que será celebrada na Basílica de São Pedro, às 10h (5h de Brasília).
O papa celebrará a Missa de Início de Pontificado. O rito que acontecerá em seguida é resultante da reforma do Concílio Vaticano 2º, uma vez abolido o uso da tiara no papado de Paulo 6º, e inclui três "novidades": a oração no túmulo de São Pedro, o uso de um pálio mais longo e a imposição do Anel do Pescador, que terá o selo papal.
Bento 16 descerá ao túmulo de Pedro junto com os patriarcas das Igrejas Orientais. Ali ficará alguns minutos rezando, e depois subirá à basílica para se unir em procissão aos outros concelebrantes e religiosos, com os quais irá até o sacrário da Praça de São Pedro. Neste local, acontecerá a missa solene na presença de mais de cem delegações oficiais de todo o mundo e centenas de milhares de pessoas.
O Evangelho será lido em latim e grego, e depois acontecerá o rito da imposição do pálio e a entrega do Anel do Pescador.
O pálio é um antigo símbolo episcopal. Simboliza o Salvador, que, encontrando o homem como a ovelha desgarrada, o carrega nos ombros. É uma faixa coloca em volta do pescoço confeccionada com lã de cordeiro.
O pálio será colocado pelo cardeal chileno Jorge Arturo Medina Estévez, o mesmo que anunciou ao mundo que a Igreja tinha um novo papa no último dia 19.
Depois, Bento 16 receberá o Anel do Pescador. O ritual prevê que o decano do Colégio Cardinalício faça a entrega, mas como o decano era o papa, o rito será cumprido pelo vice-decano, o cardeal Angelo Sodano.
O monsenhor Crispino Valenziano, do escritório de Cerimônias Pontifícias, informou neste sábado que o Anel do Pescador é diferente do usado por João Paulo 2º. Desta vez o anel terá o mesmo símbolo do Selo Papal de chumbo, usado pelo Pontífice para carimbar documentos.
O anel trará a figura de Pedro jogando a rede para pescar. Bento 16 usará o anel até sua morte, quando o Camerlengo o retirará e o destruirá, para que ninguém possa usá-lo e também para simbolizar o final do Papado.
Espaço aéreo fechado
A cidade de Roma se prepara para receber ao menos 500 mil peregrinos e delegações oficiais do mundo inteiro, inclusive a da Alemanha, terra natal do novo papa, para a missa que marcará o início do pontificado de Bento 16.
A exemplo dos funerais de João Paulo 2º, as autoridades municipais criaram um dispositivo especial de segurança e de transporte para que a capital não entre em colapso.
O espaço aéreo sobre a capital permanecerá fechado e o aeroporto civil e militar de Ciampino não receberá vôos regulares nem sábado (23) nem domingo (24), para facilitar o pouso de aeronaves oficiais.
Um avião radar Awacs, caças e helicópteros patrulharão o céu da cidade. Um total de 7.000 agentes das forças de segurança será mobilizado e 2.000 voluntários ajudarão a conduzir os peregrinos até a praça São Pedro, oferecendo água e servindo de intérprete.
Oito postos médicos, 60 ambulâncias, uma centena de médicos e entre 200 e 300 enfermeiras também estarão posicionados para ajudar os fiéis.
Os Fiéis poderão presenciar a missa em telões gigantes instalados em diversos pontos da cidade.