Depois de um 2004 apagado, as investidas dos cientistas no espaço obtiveram bons resultados neste ano. Em janeiro, após percorrer 1,3 bilhão de quilômetros durante sete anos, a sonda européia
Huygens pousou na superfície de Titã, a maior e mais misteriosa das luas de Saturno. O feito, considerado histórico já que foi o pouso mais distante realizado por uma sonda construída por seres humanos, pode ajudar a desvendar a origem da vida na Terra. O interesse dos cientistas é justificado pelo fato de Titã ser
similar ao que o nosso planeta era há bilhões de anos, quando a vida estava para surgir aqui. As informações coletas pela Huygens são enviadas à sua nave-mãe, a sonda Cassini, localizada na órbita de Titã e que retransmite os dados ao nosso planeta.
Os norte-americanos também têm muito o que comemorar em 2005. A tragédia com o ônibus espacial Columbia em 2003, quando a nave se desintegrou ao retornar à Terra matando os sete tripulantes, não foi totalmente esquecida, mas a volta do
Discovery com todos os seus integrantes vivos pode ser comemorada pela Nasa (a agência espacial do EUA). É bem verdade que houve problemas no lançamento, que um astronauta teve de fazer reparos no ônibus em pleno espaço e que o pouso de volta foi adiado por três vezes, mas, mesmo com tantas adversidades, a missão foi cumprida com êxito.
As atividades espaciais também ecoaram por aqui. Em viagem à Rússia no mês de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou acordo que garante a presença do tenente-coronel da Aeronáutica
Marcos Cesar Pontes na próxima nave espacial tripulada. Se tudo der certo, no dia 22 de março de 2006, ele será o primeiro astronauta brasileiro a ir ao espaço. Para poder realizar o feito, o governo do Brasil terá de desembolsar cerca de US$ 10 milhões (cerca de R$ 22 milhões pela cotação do dia 1º de dezembro).
Amazônia
Também vem do espaço uma notícia ruim para os ambientalistas. O primeiro mapa feito por imagens de satélite mostra que, se os cientistas estiverem certos, o tamanho do
estrago causado pela atividade madeireira na Amazônia é o dobro do que se contabilizava até agora. Os dados obtidos pela Universidade Stanford (EUA) indicam que o estrago entre 1999 e 2002 pode ser de 60% a 123% maior do que o imaginado. Entretanto um
outro método que calcula o tamanho da área devastada feito por brasileiros contesta esse número.
A Amazônia também registrou boas notícias neste ano. Segundo dados preliminares divulgados pelo governo, houve
queda brutal na taxa de desmatamento da floresta em 2005. Os dados indicam que a devastação de agosto de 2004 a julho de 2005 caiu de 18,7 mil quilômetros quadrados para cerca de 9.100 quilômetros quadrados, uma redução de 52%.
Gripe Aviária
Ainda olhando para cima, mas já não tão alto quanto o espaço, o temor de uma epidemia vinda do céu foi outro fato que deixou marcas neste ano. A
gripe aviária, conhecida dos cientistas há alguns anos e que desde de 2003 já matou cerca de 70 pessoas no mundo, tornou-se a grande preocupação de 2005 com a migração de diversas espécies de aves. Antes restrita à Ásia, a cepa foi detectada em países da Europa (Croácia, Grécia, Reino Unido, Romênia, Rússia, Turquia e Ucrânia), do Oriente Médio, no Canadá e na Colômbia.
Por enquanto, a forma perigosa do vírus, a H5N1 --que possui uma taxa de letalidade em torno de 50%--, é transmitida apenas por contato direto com animais, mas a
OMS
(Organização Mundial de Saúde) adverte para uma possível mutação que pode gerar um vírus capaz de ser transmissível entre humanos, o que poderia desencadear uma grave pandemia. Caso isso realmente ocorra, alguns cientistas afirmam que o número de pessoas mortas deve chegar aos
milhões.
Protocolo de Kyoto
Foi mais uma vitória diplomática do que ambiental, mas o fato é que, desde o dia 16 de fevereiro, está em vigor o
Protocolo de Kyoto, único instrumento internacional já concebido para lidar com o aquecimento global. É fato também que os EUA, responsáveis por 25% de todas emissões de gases poluentes na atmosfera, continuaram de fora do acordo devido ao medo do presidente George W. Bush de que haja prejuízo para a economia do país, porém há uma luz. Em um ano marcado pelo recorde de furacões e tempestades tropicais --muitos cientistas estabelecem uma relação entre essa alta e o aquecimento do planeta-- nove Estados norte-americanos decidiram lançar um "Kyoto"
próprio, que ainda precisa ser aprovado por órgãos legislativos.
Clonagem e Hwang
Dois grandes anúncios agitaram o campo de pesquisas em clonagem humana neste ano. O primeiro, em maio, foi feito em um artigo escrito pela equipe do cientista sul-coreano Woo Suk Hwang --a mesma que surpreendeu o mundo em 2004 ao anunciar a primeira clonagem de um embrião humano-- no qual era divulgado a criação de onze linhagens de células-tronco embrionárias. Tratava-se da primeira aplicação prática da clonagem humana no desenvolvimento da chamada clonagem terapêutica.
Em dezembro, no entanto, uma equipe de pesquisadores sul-coreanos mostrou que as pesquisas de Hwang foram
forjadas. "Podemos dizer que os dados de 2005 foram intencionalmente forjados e que não foram um erro acidental", afirmou Roe Jung-Hye, chefe do escritório de pesquisa da Universidade Nacional de Seul.
De início, os cientistas acreditavam que Hwang tinha forjado algumas das 11 linhagens de células-tronco que sua equipe dizia ter cultivado, como informava um trabalho publicado na revista americana Science em maio de 2005. Dias depois, descobriu-se que
toda a pesquisa era falsa.
Um envergonhado Hwang se curvou diante de jornalistas e pediu
perdão a seu país por ter causado "tamanho choque e desapontamento".
Mas, por enquanto, nem tudo foi negativo para a clonagem e para Hwang. Dando continuidade a série de animais clonados, 2005 deu mais um passo para a evolução da técnica de reproduzir cópias idênticas de mamíferos. Em agosto, foi anunciada a clonagem de um cachorro. Entretanto, devido às denúncias contra o cientista, essa pesquisa está sob suspeita.
Atendendo pelo nome de
Snuppy, o animal reproduzido foi gerado pelo mesmo método que os cientistas usaram na ovelha Dolly. A novidade está na maior dificuldade que a clonagem de um cão exige por causa da fisiologia reprodutiva única desse animal, que reduz a qualidade e a quantidade dos óvulos utilizados no processo.
Lei de Biossegurança
Depois de muito debate em torno da utilização de sementes transgênicas e do estudo com células-troncos, o presidente Lula sancionou a
Lei de Biossegurança. O plantio e a comercialização de organismos geneticamente modificados será deliberado pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança). A lei autoriza o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas destinadas à cura de doenças degenerativas. Poderão ser usados embriões humanos produzidos por fertilização in vitro, que sejam considerados inviáveis há pelo menos três anos e após autorização dos pais.