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26/12/2005 - 21h30
A ciência olhou para o céu em 2005

Sonda envia imagens de Saturno à Terra
Quando o meio científico quiser lembrar os avanços e as conquistas do setor em 2005, olhar para cima pode ser o melhor jeito de refrescar a memória. De feitos inéditos na área espacial passando pela vigilância da devastação da floresta amazônica e pela gripe aviária, as principais ações da ciência ao longo do ano têm, de alguma forma, relação com o céu ou o espaço.

Carlos Iavelberg
Da Redação

Depois de um 2004 apagado, as investidas dos cientistas no espaço obtiveram bons resultados neste ano. Em janeiro, após percorrer 1,3 bilhão de quilômetros durante sete anos, a sonda européia Huygens pousou na superfície de Titã, a maior e mais misteriosa das luas de Saturno. O feito, considerado histórico já que foi o pouso mais distante realizado por uma sonda construída por seres humanos, pode ajudar a desvendar a origem da vida na Terra. O interesse dos cientistas é justificado pelo fato de Titã ser similar ao que o nosso planeta era há bilhões de anos, quando a vida estava para surgir aqui. As informações coletas pela Huygens são enviadas à sua nave-mãe, a sonda Cassini, localizada na órbita de Titã e que retransmite os dados ao nosso planeta.

Os norte-americanos também têm muito o que comemorar em 2005. A tragédia com o ônibus espacial Columbia em 2003, quando a nave se desintegrou ao retornar à Terra matando os sete tripulantes, não foi totalmente esquecida, mas a volta do Discovery com todos os seus integrantes vivos pode ser comemorada pela Nasa (a agência espacial do EUA). É bem verdade que houve problemas no lançamento, que um astronauta teve de fazer reparos no ônibus em pleno espaço e que o pouso de volta foi adiado por três vezes, mas, mesmo com tantas adversidades, a missão foi cumprida com êxito.

As atividades espaciais também ecoaram por aqui. Em viagem à Rússia no mês de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou acordo que garante a presença do tenente-coronel da Aeronáutica Marcos Cesar Pontes na próxima nave espacial tripulada. Se tudo der certo, no dia 22 de março de 2006, ele será o primeiro astronauta brasileiro a ir ao espaço. Para poder realizar o feito, o governo do Brasil terá de desembolsar cerca de US$ 10 milhões (cerca de R$ 22 milhões pela cotação do dia 1º de dezembro).

Amazônia
Também vem do espaço uma notícia ruim para os ambientalistas. O primeiro mapa feito por imagens de satélite mostra que, se os cientistas estiverem certos, o tamanho do estrago causado pela atividade madeireira na Amazônia é o dobro do que se contabilizava até agora. Os dados obtidos pela Universidade Stanford (EUA) indicam que o estrago entre 1999 e 2002 pode ser de 60% a 123% maior do que o imaginado. Entretanto um outro método que calcula o tamanho da área devastada feito por brasileiros contesta esse número.

A Amazônia também registrou boas notícias neste ano. Segundo dados preliminares divulgados pelo governo, houve queda brutal na taxa de desmatamento da floresta em 2005. Os dados indicam que a devastação de agosto de 2004 a julho de 2005 caiu de 18,7 mil quilômetros quadrados para cerca de 9.100 quilômetros quadrados, uma redução de 52%.

Gripe Aviária
Ainda olhando para cima, mas já não tão alto quanto o espaço, o temor de uma epidemia vinda do céu foi outro fato que deixou marcas neste ano. A gripe aviária, conhecida dos cientistas há alguns anos e que desde de 2003 já matou cerca de 70 pessoas no mundo, tornou-se a grande preocupação de 2005 com a migração de diversas espécies de aves. Antes restrita à Ásia, a cepa foi detectada em países da Europa (Croácia, Grécia, Reino Unido, Romênia, Rússia, Turquia e Ucrânia), do Oriente Médio, no Canadá e na Colômbia.

Por enquanto, a forma perigosa do vírus, a H5N1 --que possui uma taxa de letalidade em torno de 50%--, é transmitida apenas por contato direto com animais, mas a OMS (Organização Mundial de Saúde) adverte para uma possível mutação que pode gerar um vírus capaz de ser transmissível entre humanos, o que poderia desencadear uma grave pandemia. Caso isso realmente ocorra, alguns cientistas afirmam que o número de pessoas mortas deve chegar aos milhões.

Protocolo de Kyoto
Foi mais uma vitória diplomática do que ambiental, mas o fato é que, desde o dia 16 de fevereiro, está em vigor o Protocolo de Kyoto, único instrumento internacional já concebido para lidar com o aquecimento global. É fato também que os EUA, responsáveis por 25% de todas emissões de gases poluentes na atmosfera, continuaram de fora do acordo devido ao medo do presidente George W. Bush de que haja prejuízo para a economia do país, porém há uma luz. Em um ano marcado pelo recorde de furacões e tempestades tropicais --muitos cientistas estabelecem uma relação entre essa alta e o aquecimento do planeta-- nove Estados norte-americanos decidiram lançar um "Kyoto" próprio, que ainda precisa ser aprovado por órgãos legislativos.

Clonagem e Hwang
Dois grandes anúncios agitaram o campo de pesquisas em clonagem humana neste ano. O primeiro, em maio, foi feito em um artigo escrito pela equipe do cientista sul-coreano Woo Suk Hwang --a mesma que surpreendeu o mundo em 2004 ao anunciar a primeira clonagem de um embrião humano-- no qual era divulgado a criação de onze linhagens de células-tronco embrionárias. Tratava-se da primeira aplicação prática da clonagem humana no desenvolvimento da chamada clonagem terapêutica.

Em dezembro, no entanto, uma equipe de pesquisadores sul-coreanos mostrou que as pesquisas de Hwang foram forjadas. "Podemos dizer que os dados de 2005 foram intencionalmente forjados e que não foram um erro acidental", afirmou Roe Jung-Hye, chefe do escritório de pesquisa da Universidade Nacional de Seul.

De início, os cientistas acreditavam que Hwang tinha forjado algumas das 11 linhagens de células-tronco que sua equipe dizia ter cultivado, como informava um trabalho publicado na revista americana Science em maio de 2005. Dias depois, descobriu-se que toda a pesquisa era falsa.

Um envergonhado Hwang se curvou diante de jornalistas e pediu perdão a seu país por ter causado "tamanho choque e desapontamento".

Mas, por enquanto, nem tudo foi negativo para a clonagem e para Hwang. Dando continuidade a série de animais clonados, 2005 deu mais um passo para a evolução da técnica de reproduzir cópias idênticas de mamíferos. Em agosto, foi anunciada a clonagem de um cachorro. Entretanto, devido às denúncias contra o cientista, essa pesquisa está sob suspeita.

Atendendo pelo nome de Snuppy, o animal reproduzido foi gerado pelo mesmo método que os cientistas usaram na ovelha Dolly. A novidade está na maior dificuldade que a clonagem de um cão exige por causa da fisiologia reprodutiva única desse animal, que reduz a qualidade e a quantidade dos óvulos utilizados no processo.

Lei de Biossegurança
Depois de muito debate em torno da utilização de sementes transgênicas e do estudo com células-troncos, o presidente Lula sancionou a Lei de Biossegurança. O plantio e a comercialização de organismos geneticamente modificados será deliberado pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança). A lei autoriza o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas destinadas à cura de doenças degenerativas. Poderão ser usados embriões humanos produzidos por fertilização in vitro, que sejam considerados inviáveis há pelo menos três anos e após autorização dos pais.

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