A cidade de São Paulo começou a voltar à normalidade nesta terça-feira, após um dia de pânico e boataria que fecharam as portas do comércio e de escolas, em meio à onda de violência iniciada pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) na sexta-feira.
Balanço apresentado pela Polícia Civil paulista, no início da tarde, mostrou que, ao todo, ocorreram 251 ataques desde sexta-feira, com 115 mortos.
A reação policial fica clara no quadro das baixas: enquanto o número de PMs mortos aumentou de 22 (dado das 14h de segunda) para 23, o número de criminosos e suspeitos mortos subiu de 38 para 71. Os presos são 115.
Os demais mortos são seis policiais civis, três guardas civis metropolitanos (GCMs), oito agentes penitenciários e quatro cidadãos comuns.
Durante a noite de segunda e madrugada desta terça, uma espécie de toque de recolher auto-imposto pela população deixou ruas e avenidas completamente vazias; cinemas, bares e restaurantes não funcionaram.
Com a segurança policial reforçada, nesta manhã as lojas reabriram e boa parte das escolas e demais estabelecimentos retomava suas atividades. No entanto, uma parte da população ainda preferiu ficar em casa, o que se refletiu nos baixos índices de congestionamento no trânsito.
Depois de permanecer fechado na segunda-feira, a situação era tranquila no terminal Santo Amaro de ônibus. "Hoje o movimento foi fraco. Não tinha muito passageiro, nem mesmo às 6h30 da manhã", disse o motorista Joaquim Barbosa do Nascimento, 47 anos.
"As viaturas escoltaram a gente, os policiais me acompanharam até a avenida Ibirapuera." Desde segunda-feira, 80 ônibus foram atacados, segundo a Secretaria da Segurança Pública.
Quem mandou
As ações que assustaram São Paulo, segundo o comando da segurança pública de São Paulo, foram uma reação da facção criminosa PCC à transferência de líderes da organização para a penitenciária 2 de Presidente Venceslau (a 620 km da capital), complexo de segurança máxima idealizado para abrigar integrantes do crime organizado numa situação de isolamento total.
Entre os 765 detentos transferidos para o presídio está Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o principal chefe do grupo e tido como mandante dos ataques do PCC às autoridades.
A suspensão dos ataques e o encerramento de dezenas de rebeliões em presídios foi ordenado pelo próprio PCC. Por telefone celular, segundo apurou a "Folha de S.Paulo", líderes do PCC determinaram a presos e membros do que estão fora das cadeias que interrompessem a onda de violência.
O secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, admitiu nesta terça-feira que o PCC apresentou condições para pôr fim à série de ataques, e que houve uma reunião entre representantes do governo e o líder Marcola; mas voltou a negar que tenha havido acordo entre as partes.
Furukawa disse que a proposta chegou ao governo por meio da advogada e ex-delegada Iracema Vaseiaveco. Ela teria dito que o PCC encerraria as ações se tivesse certeza da integridade física de Marcola, e se houvesse garantia de que não haveria revanche contra presos da facção.
A reunião com o preso aconteceu no domingo (14) e contou com a advogada; o comandante da PM Ailton Araújo Brandão; o corregedor Antônio Ruiz Lopes, representante da SAP (Secretaria Estadual de Administração Penitenciária); e o delegado da Polícia Civil José Luiz Cavalcante. (Assista a reportagem em vídeo sobre o tema)
O comandante-geral da PM, coronel Elizeu Eclair Teixeira Borges, negou nesta terça-feira que o governo tenha feito um acordo com Marcola, mas também admitiu que houve uma "conversa"com o preso no domingo, com a presença de um PM e uma advogada.
Embora admita que seu subordinado esteve na penitenciária, o coronel disse desconhecer o teor do que chamou de "conversa".
No entanto, desde ontem outras autoridades vêm negando este acordo. "Não se negocia com bandido", disse o diretor do Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado (Deic), Godofredo Bittencourt. O governador Cláudio Lembo também afirmou que não houve qualquer tipo de negociação.
Hoje, o delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Marco Antônio Desgualdo, somou-se ao coro do desmentido. "A polícia foi para cima. Aqui não tem acordo. Começam a cutucar a onça com vara curta, vai ter encrenca", disse, em entrevista.
O próprio coronel Eclair, que chegou a relacionar o aumento no número de mortos pela polícia com o fim da crise, assegurou que as dezenas de rebeliões nas unidades prisionais do Estado acabaram ontem, quase simultaneamente, devido a negociações com os amotinados. "A PM entrou nos presídios, inclusive para fazer a revista", disse. "Quanto menor o uso da força, melhor para todo mundo".
A permanência da tropa de choque da PM fora dos presídios teria sido uma das reivindicações do PCC para encerrar os atentados.
O anúncio do fim das rebeliões foi feito ontem pela Secretaria da Administração Penitenciária, às 21h. Desde o início da crise, elas chegaram a ser 73. Todos os reféns foram soltos, e nove detentos morreram.
Mais ataques
Com ou sem acordo, ainda houve confrontos na madrugada desta terça. Em Osasco, segundo a polícia, três homens foram mortos e um quarto, baleado, após terem metralhado o Fórum e uma base comunitária da PM, à 0h30.
Outros dois homens foram mortos pela Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), por volta das 2h, no bairro Tranqüilidade, em Guarulhos. Com eles, os PMs apreenderam seis coquetéis molotov. A polícia afirma que todas as mortes ocorreram em confronto.
Também foram registrados ataques em Campinas, Peruíbe e Tremembé, sem feridos. Não foram registrados novos casos de queima de ônibus.
Uma bomba caseira explodiu num Gol da Polícia Civil em frente à delegacia de Tremembé (138 km a nordeste de São Paulo), por volta da 0h. Ninguém se feriu. Segundo a polícia, uma testemunha viu um homem colocar o explosivo sobre um dos pneus traseiros da viatura. A explosão danificou totalmente o carro.
Um pouco antes, criminosos ateram fogo à fachada do 1º DP de Peruíbe (130 km ao sul de São Paulo). Também não houve vítimas. Segundo a polícia, o fogo começou em um sofá que estava em frente à delegacia, que estava fechada quando ocorreu o incêndio. O Corpo de Bombeiros foi acionado e apagou o fogo rapidamente.
Ainda na noite de segunda, por volta das 22h, um grupo de homens atirou contra os prédios de um condomínio da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), na rua Jornalista Pena Branca, na Vila Amália (zona norte de São Paulo).
Os disparos não atingiram ninguém. Os criminosos fugiram correndo e não foram presos. Segundo a Polícia Militar, a maioria dos moradores do condomínio é formada por policiais civis e militares.
Alguns outros casos de tentativas de ataques e de confrontos ocorreram no interior de São Paulo. Houve prisões.
Suspeito preso
Policiais civis prenderam na madrugada desta terça o suposto coordenador dos ataques a ônibus em São Paulo. Desde o último domingo, 51 veículos foram incendiados na cidade -no Estado, o número chega a 90.
O suspeito, identificado como Lourival Silva de Paula, foi localizado em um telefone público na região de Americanópolis (zona sul). Ele estaria conversando com comparsas.
Mesmo com essa prisão, ainda houve dois ataques a ônibus na tarde desta terça. Um foi queimado e o outro, depredado. A polícia não vê ligação entre estes fatos e o PCC.
São Paulo recusou ajuda
No início da noite de segunda, após uma reunião, o governador Cláudio Lembo (PFL) e o ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos anunciaram que o governo federal não vai, por ora, colaborar diretamente com as ações das forças de segurança estaduais. A rejeição a essa ajuda pelo governador vem desde o início dos ataques, foi reafirmada pelo comandante da PM na entrevista em que falou dos boatos e, por fim, oficializada pelo próprio Lembo, falando à imprensa com o ministro a seu lado.
Thomaz Bastos afirmou, no entanto, que uma solicitação de ajuda por parte do governo estadual pode ser feita a qualquer momento, e que será prontamente atendida. Segundo o ministro, que elogiou muito a atuação das forças estaduais de segurança, já ocorre um trabalho de intercâmbio de inteligência com a Polícia Federal.
Segunda-feira de pânico
Na tarde de segunda-feira, medo e tensão levaram estabelecimentos localizados em ruas de comércio tradicionais, como na região de Pinheiros e no centro de São Paulo, a baixar as portas e dispensar seus empregados ainda no meio da tarde. Como precaução, empresas e escolas também encerraram o expediente mais cedo.
O paulistano, que já tivera dificuldades para ir trabalhar, enfrentou uma batalha maior ainda para conseguir condução ou dirigir até sua casa: às 18h, o congestionamento nas vias da cidade atingia 212 km, contra a média de 58 km. O recorde anterior era de 187 km.
Em contraste com o tumulto e o trânsito do "rush antecipado", já por volta de 20h algumas regiões da cidade que costumam ter forte movimento ao longo da noite estavam vazias - como a rua Augusta. Às 23h, nas avenidas Rebouças e Faria Lima, duas das mais importantes vias da zona oeste, praticamente não passavam carros.
Em menor escala, o mesmo pânico manifestou-se em outras cidades do Estado - como as da Baixada Santista, onde o comércio fechou - que também tiveram ataques a autoridades e rebeliões, e dezenas de municípios do interior do Estado, que viveram rebeliões nos presídios estaduais.
(com Folha Online, Folha de S.Paulo e agências internacionais)