Um novo balanço divulgado na noite desta quinta-feira pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo indica que chega a 152 o número de mortos na onda de violência iniciada na última sexta-feira pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), em resposta à decisão do governo de isolar líderes da facção criminosa na cadeia.
Do total de vítimas fatais, 107 pessoas foram mortas pela polícia em supostos confrontos. A secretaria não divulgou o nome da grande maioria deles. Não foi divulgado se houve feridos entre as pessoas que teriam enfrentado a polícia. O total de suspeitos presos chega a 124.
Os demais 45 mortos são policiais militares (23), policiais civis (7); guardas metropolitanos (3), agentes penitenciários (8) e civis (4). O número de feridos é de 54.
A secretaria discriminou com detalhes os alvos das ações dos criminosos: foram 82 ônibus; 56 casas de policiais; 17 bancos e caixas eletrônicos; uma garagem de ônibus; uma estação de metrô; uma unidade da CET; outros alvos foram 135. Os ônibus foram queimados, e as casas e prédios levaram tiros, ou foram atacadas com explosivos.
"Normalidade"
O delegado Godofredo Bittencourt, diretor do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), afirmou nesta quinta-feira - antes da divulgação do balanço pela SSP - que a situação se normalizou na cidade de São Paulo, depois da onda de violência iniciada no último dia 12.
Ainda assim, novas ações foram registradas entre a noite de ontem e a madrugada desta quinta. O delegado sugeriu que os últimos ônibus queimados não estão necessariamente ligados a ações do PCC. "As ocorrências estão dentro do normal, do que acontece em uma cidade do porte de São Paulo. A polícia está em alerta, porque este deve ser seu estado normal, e começamos a correr atrás de informações que já havíamos mapeado sobre membros do PCC", afirmou Bittencourt.
Segundo ele, os policiais estão de prontidão e tiveram suas férias suspensas, mas a população pode retomar sua rotina como antes dos ataques. Repetindo a postura do governo estadual, Bittencourt disse que não há necessidade de ajuda federal para conter a série de ataques.
"Agradecemos, mas não precisamos de ajuda de fora. A polícia está na rua e estamos colocando a casa em ordem", disse.
Bittencourt afirmou que, em anos anteriores, ações das autoridades "quebraram os dentes do PCC, deixando sua boca com um dente só". "Mas o PCC é um câncer e cresce à medida em que algum órgão permite", afirmou, sem especificar a quem se referia. "Nas ruas não foi, porque prendemos muitos deles [criminosos]. Temos de descobrir quem deu uma dentadura nova ao PCC", disse.
Ações
Na entrevista, Bittencourt anunciou a morte de um suposto criminoso e a prisão de outros dois. Segundo o delegado, todos estão ligados ao PCC.
Júnior Francisco da Silva, 31 anos, morreu na noite de ontem na região de Itapevi, onde morava. Segundo a polícia, ele trocou tiros e morreu na entrada de uma favela, durante uma ação que contava com dois delegados e 16 policiais.
Em sua casa, os policiais encontraram três pistolas, duas submetralhadoras, dois revólveres, 21 tijolos de cocaína, dois tijolos de maconha e cerca de 5 kg de crack. Estes itens estavam dentro de um tambor, escondido em uma espécie de poço no quintal da casa do suspeito. Segundo os policiais, havia três destes buracos cavados no chão, de 2m x 2m x 1,8 m (altura), que serviam também como cativeiro.
Já Eduardo Aparecido Vasconcelos, 27 anos, foi preso ontem à tarde na região de Santana (zona norte). Segundo policiais, ele confessou ter participado do ataque ao quartel do Corpo de Bombeiros no centro da cidade, no início da onda de violência, que terminou com a morte de um bombeiro. Vasconcelos, que disse "ter obedecido ordens", foi preso em flagrante com 80 gramas de cocaína.
A segunda prisão foi realizada na manhã desta quinta-feira em Pinheiros (zona oeste). Kleber Eriberto Paula Monteiro, 29 anos, é acusado de coordenar a logística das armas do PCC. Ele distribuiria, recolheria e esconderia as armas nos momentos adequados.
"Marcola" na TV
Na madrugada desta quinta, a TV Bandeirantes levou ao ar uma suposta entrevista com Marcos Camacho, o Marcola, principal líder da facção criminosa. O entrevistado, via celular, negou o suposto acordo com o governo estadual para um cessar-fogo e ameaçou com novos ataques. A Secretaria da Administração Penitenciária vai pedir a fita para periciá-la.
Pela manhã, o governador Cláudio Lembo disse que Marcola encontra-se incomunicável e contestou a veracidade da entrevista. A polícia de São Paulo vai investigar se houve algum tipo de fraude.
Em Brasília, o presidente da CPI do Tráfico de Armas, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), disse nesta quinta que quer ouvir Marcola, possivelmente na próxima semana, sobre os ataques realizados pela facção criminosa em São Paulo desde o final da semana passada.
Ontem, a CPI revelou que advogados que seriam ligados ao PCC pagaram a um funcionário terceirizado R$ 200 por uma gravação de uma sessão secreta da comissão, o que teria levado o PCC a saber do plano de transferência de seus líderes presos, possível estopim da onda de violência.
A CPI pediu à OAB que suspenda os dois advogados.
Hoje, a Justiça determinou que a internação de Marcola no regime disciplinar diferenciado (RDD) deve durar 90 dias, contados a partir de 13 de maio.
Os ataques desta quinta
Cinco ônibus foram incendiados na noite de quarta-feira, por volta das 20h, fazendo com que algumas empresas tirassem os veículos de circulação. Outros quatro veículos foram queimados na região de Santo Amaro, na zona sul, e um na zona norte. Em Guaratinguetá (176 km da capital), um ônibus municipal foi incendiado no começo da noite de quarta-feira. Outros dois ônibus teriam sido incendiados em Mauá, na Grande São Paulo.
Em mais um confronto com a polícia, de acordo com o 95º DP, próximo do bairro de Heliópolis, três suspeitos foram mortos em uma favela, após disparar tiros de fuzil contra uma viatura que fazia ronda no local.
Também na noite de quarta, 11 homens armados tentaram invadir um Batalhão da PM em Osasco, na Grande SP, segundo a Secretaria da Segurança Pública. O grupo tentou entrar pelos fundos da 1ª Companhia, no Parque Mazei. Paulo Eduardo Gomes de Oliveira foi morto após troca de tiros. Outros dez homens fugiram.
Em Guarulhos, dois suspeitos morreram após trocas de tiros com a polícia, segundo o 1º DP de Guarulhos. Os dois motoqueiros tentavam interromper as aulas de uma faculdade. Em outro incidente, um homem que planejava um ataque a uma delegacia também teria morrido.
Em São Sebastião (litoral de São Paulo), quatro homens encapuzados, armados com espingarda calibre 12 e pistolas, destruíram na madrugada desta quinta parte da gráfica do jornal diário "Imprensa Livre". Um funcionário da gráfica cortou o pé ao tentar fugir pela janela, mas os criminosos não agrediram ninguém.
Na região da marginal Tietê, PMs trocaram tiros com suspeitos que estavam em um carro e balearam um deles. No veículo, foram encontradas bananas de dinamite. O incidente complicou o trânsito durante a manhã.
Não-identificados
Na quarta-feira, o secretário da Segurança Pública Saulo de Castro Abreu Filho e o delegado-geral da Polícia Civil, Marco Antônio Desgualdo, tentaram explicar a não-divulgação da identidade dos suspeitos mortos pela polícia.
Ambos afirmaram que os nomes estão sendo mantidos em sigilo devido às investigações sobre possíveis antecedentes e ligações com facções do crime organizado. A divulgação dessas identidades poderia, segundo eles, atrapalhar o trabalho da polícia.
Com essas afirmações, Saulo e Desgualdo buscaram responder à suspeita de falta de transparência, por parte do governo, quanto à forma como ocorreram essas mortes.
Bloqueio de celulares
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a associação que reúne as operadoras de celular (Acel) desconhecem quantos usuários de celular existem nos municípios que, a partir desta sexta-feira, terão parte de suas estações radiobase (ERBs) desligadas por conta da decisão da Justiça de ontem.
De acordo com determinação do juiz de Direito Corregedor do Departamento de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária (Dipo) do Estado de São Paulo, Alex Tadeu Monteiro Zilenovski, as operadoras terão de inibir o sinal do celular nos presídios existentes nos municípios de Avaré, Presidente Wenceslau, Iaras, Araraquara, São Vicente e Franco da Rocha, todos no estado de São Paulo.
Ao desligar a ERB, entretanto, as operadoras deixarão de atender toda a região coberta por aquela antena, e não apenas o presídio. Como comentou o analista Roger Oey, do Banif, "não se trata de uma distância em metros, mas de quilômetros".
Ele ainda comentou que, se as estações tiverem de ser desligadas em dois presídios próximos, o efeito pode ser "um rombo na cobertura" da operadora, que pode afetar também usuários de outras cidades que passem por aquela região em uma viagem, por exemplo.
A Anatel admite que alguns usuários serão prejudicados, mas não sabe quantificar quantos, de acordo com a assessoria de imprensa do órgão. Os dados estatísticos da agência só medem o número de assinantes por estado ou por tecnologia (GSM, CDMA ou TDMA). A Acel se baseia nos mesmos dados.
As operadoras já se comprometeram em cumprir a determinação a partir de amanhã, quando vence o prazo de 48 horas dado pelo juiz. A Anatel, por sua vez, informou à imprensa que irá "coordenar as ações técnicas e de comunicação, que têm como premissa causar o menor impacto à população das áreas abrangidas pela decisão judicial", segundo comunicado distribuído hoje.
Ainda não foi definido, no entanto, de que forma será feita a comunicação para a população que, a partir desta sexta, talvez se veja impedida de usar seu celular.
As compensações citadas ontem, para que as operadoras abram mão da receita de tráfego nesse período - a ordem vale por 20 dias - nessas regiões tampouco foram definidas. A medida "terá um efeito negativo para as operadoras", ainda, entretanto, difícil de quantificar, segundo o analista do Banif.
A medida vem na esteira da aprovação, por uma comissão do Senado, de um pacote de medidas de combate ao crime organizado, entre elas, o isolamento de presos pegos com celulares em presídios e o uso de seus bens para indenizar o governo por danos a presídios. A matéria segue para aprovação dos deputados.
Quem mandou
As ações que assustaram São Paulo, segundo o comando da segurança pública de São Paulo, foram uma reação da facção criminosa PCC à transferência de líderes da organização para a penitenciária 2 de Presidente Venceslau (a 620 km da capital), complexo de segurança máxima idealizado para abrigar integrantes do crime organizado numa situação de isolamento total.
Entre os 765 detentos transferidos para o presídio está Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o principal chefe do grupo e tido como mandante dos ataques do PCC às autoridades.
Na tarde de segunda-feira, medo e tensão chegaram ao ponto mais elevado, levando estabelecimentos localizados em ruas de comércio tradicionais, como a Teodoro Sampaio, na região de Pinheiros, e lojas no centro de São Paulo a baixar as portas e dispensar seus empregados ainda no meio da tarde. Como precaução, empresas e escolas também encerraram o expediente mais cedo, o que provocou um congestionamento recorde na cidade.
(com Folha Online, Folha de S.Paulo, Valor e agências internacionais)