UOL Últimas NotíciasUOL Últimas Notícias
UOL BUSCA

Selo
Selo
ARQUIVOS

Retratos da Seca

Flávio Florido/UOL

Convênio entre ministério e governo do
Piauí atrasa socorro a vítimas da seca

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em São Raimundo Nonato (PI)

Teresina, 6 de julho de 2007. Sob os olhares de mais de 200 participantes de evento que discutia ações do governo federal no Piauí, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, e o governador do Estado, Wellington Dias, anunciam uma mudança no esquema de socorro às vítimas da seca: o Piauí receberia R$ 2,5 milhões para substituir o Exército no comando da Operação Carro Pipa. "Vamos começar pelo Piauí. A partir do momento que o convênio for direto com o Estado poderemos agilizar o atendimento", disse Geddel.

São Raimundo Nonato, 26 de setembro de 2007. Balde cheio equilibrado na cabeça, Maria Rodrigues, 58, se prepara para andar dois dos 15 quilômetros que percorre diariamente para obter água depois que a Lagoa do Canto secou. A 30 quilômetros dali, na Comunidade São Victor, Zélia de Sousa Marques, 46, entra e sai de uma cratera de onde extrai uma água barrenta. Já a conterrânea Joana Sousa de Jesus, 57, se articula com duas vizinhas para fazer nova "vaquinha" e contratar um caminhão-pipa, por R$ 80.

Três meses após o anúncio do convênio entre ministério e governo do Piauí, o Estado ainda não recebeu um centavo da ajuda prometida. E o Exército, devido ao acordo, ficou meses sem realizar o serviço que prestava todos os anos -atendeu, até o início de outubro, apenas dois municípios piauienses. Assim, sete meses após a última chuva na região semi-árida, casos como os destas três mulheres -cujo município começou a receber água apenas na última semana de setembro-, multiplicam-se pelo Estado.

Defesa Civil
Gráfico elaborado pela Secretaria Nacional de Defesa Civil mostra a distribuição de carros-pipa pelas cidades dos 8 Estados afetados pela seca; Piauí recebeu só 0,7%

Ao menos 1 milhão de piauienses -ou um de cada três moradores- são afetados pela seca, de acordo com a Secretaria Estadual de Defesa Civil. Dos 223 municípios, 147 (66% do total) já decretaram situação de emergência.

De acordo com o instituto Somar de meteorologia, a estiagem de 2007 na região do semi-árido piauiense, onde localiza-se São Raimundo Nonato, é um pouco maior do que a de anos anteriores. "Na estação chuvosa, que vai de novembro a março, choveu a média histórica. A diferença é que, neste ano, a chuva parou antes: após um fevereiro extremamente úmido, em março praticamente não choveu", diz o meteorologista Celso Oliveira.

Sem o dinheiro prometido pelo governo e com a estiagem se prolongando, o governo piauiense destinou, de acordo com a secretaria de Defesa Civil do Estado, R$ 300 mil emergenciais para a contratação de caminhões-pipa para 37 dos 147 municípios em situação de emergência. E, de acordo com o secretário nacional da Defesa Civil, Roberto Guimarães, pediu ao Exército, na penúltima semana de setembro, que reassumisse, provisoriamente, a distribuição de água. "Depois que o Piauí viu que a coisa não seria fácil, disse: 'queremos que o Exército forneça enquanto nós nos arrumamos'", diz Guimarães.

DISTRIBUIÇÃO DE
ÁGUA PELO EXÉRCITO
ESTADOMUNICÍPIOS
Ceará108
Paraíba80
Pernambuco39
Rio Grande do Norte28
Minas Gerais18
Bahia5
Tocantins5
Piauí2
Fonte: Secretaria Nacional de Defesa Civil

De acordo com funcionários do ministério e da Secretaria de Defesa Civil do Piauí, após três meses de trâmites burocráticos, a liberação dos recursos está próxima -assim como próxima está, também, a estação chuvosa, que tem início previsto para novembro. "Estabelecer um convênio não é uma coisa célere. O erário público requer responsabilidade e por isso impõe uma série de regras a serem cumpridas", diz Guimarães. "O ministro já nos indicou que esta é uma prioridade. O dinheiro está reservado. É só uma questão de tempo."

Nos outros sete Estados afetados pela seca, o Exército opera de forma ampla: segundo a Secretaria Nacional de Defesa Civil, R$ 71 milhões foram destinados para a contratação de carros-pipa em 283 municípios. Ceará (108 cidades) e Paraíba (80) são as unidades de federação que mais têm recebido água. No Piauí, "ainda em outubro", de acordo com Guimarães, o Exército atenderá mais 44 cidades.

Dos oito Estados brasileiros que sofrem com a seca, o Piauí é aquele que mais recebeu cestas de alimentos enviadas pelo ministério (21 mil). Mais populosos, Ceará (14 mil) e Bahia (13 mil) têm índices bem menores de ajuda governamental.

DISTRIBUIÇÃO DE COMIDA
ESTADONÚMERO DE CESTAS
Piauí21 mil
Ceará14 mil
Bahia13 mil
Rio Grande do Norte9,2 mil
Tocantins7 mil
Pernambuco4,4 mil
Maranhão1,4 mil
Paraíbanão pediu
Fonte: Secretaria Nacional de Defesa Civil

Para constatar os efeitos da seca no Estado que é considerado o mais pobre do país, a reportagem do UOL visitou três municípios piauienses entre os dias 25 e 30 de setembro. E pôde perceber que as conseqüências não se restringem à dificuldade para encontrar água.

Em Santa Luz, município com pouco mais de 5.200 habitantes, agricultores perderam cerca de 90% do que plantaram. Gado magro com costelas à mostra pastando em lavouras de milho arruinadas é cena comum na zona rural da cidade. Com a estiagem prolongada, a represa do Baixão do Canto secou, e 150 famílias tiveram de deixar o local e voltar para a cidade. Com a migração para a zona urbana de cerca de 10% da população, uma das duas bombas de água da cidade estourou no dia 27 de setembro. Até o dia 28, estava queimada, e em horários de maior demanda, muitas casas estavam desabastecidas.

Em São Raimundo Nonato, a seca torna difícil a colheita e raras as oportunidades de trabalho. Assim, todos os anos, cerca de 3 mil homens (ou 10% da população) migram para outros Estados durante os meses da estiagem, deixando suas famílias e virando alvos de empresas e fazendeiros que impõem condições degradantes de trabalho e, por vezes, análogas às do trabalho escravo.

Como têm dificuldades para encontrar água -e a que utilizam em geral é de má qualidade- e para alimentar-se, moradores das cidades visitadas pelo UOL vêm seus animais morrerem. Raimundo Ferreira, 49, perdeu 12 ovelhas. "Só escapa o (animal) que não é pra morrer, mesmo. Os fracos morrem de fome". Reflexo disto, Antonio Ribeiro Soares, dono de um restaurante em São Raimundo Nonato, não está encontrando no município galinhas adequadas para preparar um prato tradicional na região, a galinhada -está recorrendo a cidades distantes mais de 40 quilômetros.

Em São Braz do Piauí, a escassez de água leva trabalhadores rurais assentados, um vereador e donos de caminhões-pipa a disputarem as águas de um açude. Os primeiros querem a água para subsistência; o político, para dar a seu gado; e o pipeiro, para vendê-la. Como resultado, agora o açude está praticamente seco, e sua água, barrenta.

São mais de 5.500 municípios no Brasil. O Exército não pode sair socorrendo a esmo. Existe um procedimento
Roberto Guimarães, secretário nacional de Defesa Civil, explicando porque os militares só reestabeleceram a coordenação da distribuição de água para municípios piauienses no fim de setembro.
R$ 71 milhões
foram gastos pela Secretaria Nacional de Defesa Civil para distribuição de água nos Estados do Nordeste. Só dois municípios piauienses foram contemplados

R$ 2,5 milhões
é o dinheiro que deveria pagar caminhões-pipa para a distribuição de água no Piauí