Murilo Garavello Enviado especial do UOL Em Santa Luz (PI)
Dormir não é tarefa fácil para Adenora, 46 -precisa ingerir "remédio controlado". A perspectiva de ter de ouvir barulho de motos e conversas na rua de terra onde mantém uma pequena casa na periferia da zona urbana de Santa Luz, no sul do Piauí, fez com que sua família fosse a última entre 150 a deixar o Baixão Novo, comunidade rural que dista mais ou menos 30 quilômetros do centro da cidade e tornou-se inóspito depois que a represa do local secou.
Normalmente, só vem à cidade para "fazer a feira", ou seja, comprar produtos no supermercado. "Faz 24 anos que eu moro lá. É onde estão todas as minhas coisas, onde trabalho para me sustentar. É muito mais sossegado", diz. "Fiquei até quando pude. Mas já tava passando sede".
Além de ter de ser obrigada a deixar o local onde mora, neste ano Adenora enfrenta uma seca "pior do que nos outros anos". Com o marido, plantou milho, arroz, feijão e mandioca. "Não conseguimos colher nada, não. Nada, nada". Sem colheita para vender, os R$ 95 que recebe do Bolsa Família têm de ser suficientes para sustentar seis pessoas. "Apertando, dá. De vez em quando vendo uma galinha para inteirar".