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![]() Área: 604 km2 População (2007): 4.284 |
A agricultora Luísa Lopes Martins, 69, diz ter disenteria "toda semana". Ela ingere uma água turva, quase marrom, extraída de um açude repleto de estrume de gado e hoje semi-seco após ter abastecido caminhões-pipa particulares nos meses anteriores.
A comunidade de Clemente, em São Braz do Piauí, assiste a um conflito fundiário. De um lado, famílias de trabalhadores rurais que reclamam a posse das terras que abrigam o açude e dependem da água para facilitar sua sobrevivência e a de seus animais. De outro, um vereador da cidade, que diz ter seu ex-sogro pago R$ 18 mil, em 1994, pelo terreno e, por isso, coloca dezenas de cabeças de gado para pastar no local.
| ÁGUA SUJA PARA O CONSUMO |
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![]() No açude da comunidade de Clemente, reportagem do UOL encontra pássaro morto |
![]() É deste açude que Luísa tira a água... |
![]() turva que usa para beber e cozinhar |
MAIS SOBRE LUÍSA |
FOTOS DE LUÍSA |
FOTOS DA SECA |
Em meio a essa disputa, donos de caminhões-pipa que, enquanto havia água em abundância, extraíam "carradas" e mais "carradas", ou seja, de 6 a 8 mil litros a cada vez, para comercializar em outros municípios. Assim, maximizam seus lucros ao escapar de pagar a taxa de R$ 33,90 cobrada para encher um caminhão no sistema adutor do município vizinho de São Raimundo Nonato, fonte normalmente utilizada pelos "pipeiros".
O açude -e quem dele depende para sobreviver- sofre as conseqüências dos diferentes interesses que desperta. A água, outrora abundante mesmo nos tempos de seca e "clarinha, clarinha", segundo Luísa, agora é escassa -está prestes a terminar- e suja, pela presença do gado por 120 dias, no período em que o pasto ainda não estava completamente seco.
"Esse vereador é uma pessoa mesquinha, ruim, mesmo. Não precisa destas terras e vive nos fazendo ameaças", diz Raimundo de Souza Martins, 55, presidente da Associação dos Produtores Rurais de Clemente.
Sarail Pereira Filho, vereador filiado ao DEM eleito com 129 votos em 2004, por sua vez, não contemporiza. "Há uns malandros que não querem trabalhar, tentam pegar o que não é deles. Meu sogro pagou R$ 18 mil para ter a barragem. Só comprou o terreno por causa dela. Eles não podem meter a mão".
Os trabalhadores, que plantam caju e comercializam castanha, têm um documento, uma certificação do Instituto de Terras do Piauí (Interpi), regularizando o local. De fato, falta apenas a demarcação, ou seja, a designação dos limites da propriedade de cada família associada.
![]() Documento do Interpi que regulariza posse da terra para a associação de trabalhadores |
Já Sarail não tem papéis que comprovem a posse da propriedade. "O antigo proprietário morreu antes de passar a escritura para o meu sogro. Mas tenho 50 testemunhas do negócio", afirma. "É tudo mentira dele. Essa história de testemunhas é invenção", ataca Martins.
O vereador alega ainda ter áreas construídas no local, inclusive uma casa, e reivindica uma indenização "de alguém" para desistir de levar seu gado para o local. "Não posso entregar de mão beijada um negócio em que meu sogro investiu muito dinheiro. Se me indenizarem, abro mão".
A reportagem do UOL visitou o local e constatou que o que existe certamente não custou "muito dinheiro": uma parede inteira levantada, duas pela metade e um telhado; na parte interna, há apenas gravetos. "Rapaz, vocês vão dizer em São Paulo que essa é a mansão do Piauí, não?", diz em tom irônico o lavrador Vanderlim Pereira.
![]() Conjunto de uma parece e telhado que Sarail denomina "casa construída" |
Enquanto aguardam a demarcação dos lotes, os trabalhadores pretendiam limpar o açude, removendo os galhos, os montes de estrume e a camada de terra rachada pela seca, preparando o local para a chegada das chuvas de inverno -como os nordestinos denominam o período chuvoso, que geralmente tem início em novembro. Entretanto, se dizem ameaçados por Sarail.
"Ele veio aqui outro dia. Xingou todo mundo e disse que ia fazer isso e aquilo se limpássemos o açude", diz Agostim Martins, 70, marido de Luísa. "Tenho medo demais dele (vereador). E tenho mais medo ainda de mim mesmo". O vereador nega. "Homem que é homem não faz ameaças, não tem nada disso. Eles querem é criar caso".
Há uns malandros que não querem trabalhar, tentam pegar o que não é deles. Não posso entregar de mão beijada um negócio em que meu sogro investiu muito dinheiro. Eles não podem meter a mão
Esse vereador é uma pessoa mesquinha, ruim, mesmo. Vive nos fazendo ameaças
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