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Seca gera migração e legião de "viúvas de maridos vivos" em São Raimundo Nonato
Murilo Garavello Enviado especial do UOL Em São Raimundo Nonato (PI)
A falta de chuva e irrigação arruína a plantação. Animais morrem de sede. As ofertas de emprego na retraída economia rural ficam ainda mais escassas do que nos períodos em que há chuva. A necessidade de sustentar a família torna sedutoras as oportunidades de trabalho temporário em outros Estados que chegam pelo rádio e nos bate-papos com os conhecidos.
| MULHERES SE ASSOCIAM PARA COMBATER EFEITOS DA SECA |
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 Mulheres estão sendo treinadas para construir cisternas na comunidade Boi Morto |  O êxodo dos trabalhadores acabou originando uma entidade pouco comum no meio rural nordestino, uma associação de mulheres. Há nove anos, enquanto os homens viajavam, cerca de 40 criaram a Associação das Mulheres Produtoras Rurais da Comunidade Boi Morto para poder receber verbas governamentais e de ONGs para projetos de melhoria das condições de vida.
A entidade, a princípio pouco atuante, agora gera frutos: uma parceria entre a CPT e a Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, de Teresina está financiando a capacitação das mulheres para a construção de cisternas -basicamente, depósitos para acumular água da chuva. Auxiliadas por pedreiros e técnicos, aprendem o ofício enquanto erguem 16 cisternas. Um projeto para outras 35 unidades está sendo gestado.
No entanto, a união de mulheres ainda esbarra em resquícios de machismo que perduram na região. Das quatro que se alistaram para o serviço -pelo qual recebem e que dá prioridade para a construção de cisternas em suas próprias casas-, duas subitamente desistiram.
Uma delas é a mulher de Adail Santos, Lenicélia. Ao voltar de Goiás, em setembro, o marido pediu a ela que não participasse da construção de cisternas. "Ela precisava me ajudar a buscar água e cuidar dos nossos filhos", justifica.
Já Raimundo Fernandes, 49, que ao contrário de muitos de seus conhecidos não viaja para empreitadas temporárias desde 1977 -"só eu que fiquei aqui, bicho do mato, mesmo"-, se diz feliz com a participação da mulher, Maristela Castro, no projeto. "Acho bom que trabalhe, mesmo", afirma, rindo. |
Seguindo esse roteiro, Adail de Jesus Santos, 33, deixou a roça, os sete porcos e algumas galinhas a cargo da mulher, Lucélia, e trocou a paisagem amarelo-acinzentada da seca em São Raimundo Nonato pelos campos verdes da colheita de cana em Maurilândia (Goiás).
Como ele, de acordo com estimativa da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a cada ano, cerca de 3.000 dos 30.500 habitantes de São Raimundo Nonato deixam suas famílias, tornando suas mulheres "viúvas de maridos vivos" -como algumas se autodenominam- para aceitar empreitadas temporárias principalmente em Mato Grosso, Goiás, Pará e São Paulo.
"São Raimundo Nonato é um dos municípios com maior fluxo migratório no Estado", afirma Paula Maria Mazullo, delegada regional do trabalho do Piauí. De acordo com ela, a cada ano, entre 20 mil e 30 mil piauienses migram para outros Estados.
São convites para a labuta na lavoura de cana e em menor escala, oportunidades na construção civil. Muitas vezes, portas de entrada para trabalho pesado sob condições precárias. Adail, por exemplo, teve de pagar as passagens de ida e de volta, teve as despesas de alimentação -fornecida pela empresa empregadora- descontadas automaticamente do salário e acabou embolsando só "um pouco" de dinheiro.
Adail, ao menos, recebeu. Atuando há três meses na construção civil em Brasília, Valdemar Pereira de Assis, 53, ainda não, segundo relato de sua mulher, Joana, 47. "Ele não mandou um centavo ainda. Disse que ele e os companheiros estão querendo processar a firma", diz.
Para conseguir viajar, Valdemar tomou dinheiro emprestado a juro de 10%. Joana ainda não pagou. Pior, vivendo apenas dos R$ 65 que recebe do Bolsa-Família, para sustentar a filha Ivonete, 28, e uma neta de 13 anos, que moram com ela, está aumentando as dívidas ao comprar "fiado".
Trabalhadores de posição semelhante à de Adail e Valdemar são alvos preferenciais de empresas que exploram os trabalhadores e elaboram esquemas para endividá-los e mantê-los em condições análogas à do trabalho escravo. Um dos filhos de Amanda Rodrigues dos Santos, 59, por exemplo, há alguns anos embarcou em caminhão para transporte de gado. Após denúncia, foi libertado antes de chegar ao destino.
O caso não é incomum. A partir de dados do Ministério do Trabalho e Emprego, a ONG Repórter Brasil analisou o local de nascimento de 60% dos 16.431 trabalhadores escravos libertados de 2003 a abril de 2007. Destes, 743 nasceram no Piauí -dezenas deles em municípios da região de São Raimundo Nonato.
Para combater os casos de trabalho degradante e trabalho escravo, a Delegacia Regional do Trabalho do Piauí tem lutado junto ao governo do Estado para que as empresas ofereçam contratos, ainda que temporários, aos trabalhadores. "Eles precisam deixar o Piauí com contratos assinados. Porque hoje o compromisso que as empresas assumem com os operários na maior parte das vezes é apenas verbal. Isso dá margem à exploração do trabalhador", diz Paula Mazullo.

Hoje o compromisso que as empresas assumem com os operários na maior parte das vezes é apenas verbal. Isso dá margem à exploração do trabalhador
Paula Mazullo, delegada regional do trabalho do Piauí
3.000
homens, ou 10% da população de São Raimundo Nonato, deixam o Estado todos os anos para trabalhar temporariamente em outros municípios, estima a Comissão Pastoral da Terra
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