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Flávio Florido/UOL
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O "bicho do mato": Raimundo Pereira

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São Raimundo Nonato
Área: 2.428 km2
População (2007): 30.466
Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em São Raimundo Nonato (PI)

Contra as privações e o sofrimento, bom humor e auto-ironia. Raimundo Fernandes, 49, é do tipo que provoca risadas apenas com um olhar. E sorri ao fim de cada frase, como quando define-se: "Sou meio bicho do mato, sabe?", ao explicar porque destoa dos homens de sua geração na comunidade Boi Morto, em São Raimundo Nonato, e não migra para outros Estados em busca de empreitadas temporárias. "Na seca, só sobra eu, mesmo".

E o que faz, durante a seca, quando plantar é inútil e não há o que colher? "Com o que perco mais tempo o dia inteiro é buscar água. Pego aquele coitado daquele cavalo e vou pra cá e pra lá atrás de água", conta, explicando que obtém água de quatro lugares diferentes, cada uma para uma função: beber, dar aos animais, tomar banho ("na verdade, é uma água poluída, não dá pra dizer que você fica banhado, não"), usar nas pequenas obras que faz. Como a maior da água que consegue é salgada, há meses sofre com um corte profundo no dedo que não cicatriza. "É sal demais, a pele num dá conta, fica rachada".

Raimundo também cuida dos animais. Dos que sobraram. "Os fracos morrem de fome, da água ruim. Já perdi umas 12 ovelhinhas neste ano. Também, não cai um pingo desde fevereiro". De procurar trabalho, desistiu: "e tem quem pague?". Para sustentar a mulher e os filhos, R$ 80 do Bolsa Família. É suficiente? "Dá apertado. De vez em quando, mato uns animaizinhos pra comer".