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Retratos da Seca

Flávio Florido/UOL

Em Santa Luz, seca faz trabalhadores perderem colheitas e provoca êxodo rural

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Santa Luz (PI)
Arte UOL
Área: 1.187 km2
População (2007): 5.294

Nunca a represa do Baixão Novo havia secado. Nunca as 150 famílias que moram no local haviam sido obrigadas a mudar-se para a cidade. Em 27 anos, Jerônimo da Silva, 59, nunca precisou comprar comida nem dar água encanada a seu gado. Em 60 anos de vida, Antonio Fernando da Silva nunca havia visto uma seca como a deste ano.

Sete meses sem chuva não fazem de 2007 um ano de estiagem histórica no sul do Piauí, diz o Instituto Somar de Meteorologia. Não é o que se ouve nas poucas ruas asfaltadas ou na empoeirada zona rural de Santa Luz, uma cidade onde a maior parte das 5.294 pessoas contadas pelo IBGE em 2007 dependem da pecuária e da agricultura para sobreviver.

Flávio Florido/UOL
Marlene Alves Vieira, 49, ficou sem água tanto na roça quanto na zona urbana
DEPOIMENTO DE MARLENE
DEPOIMENTO DE RAIMUNDO
DEPOIMENTO DE JERÔNIMO
DEPOIMENTO DE ADENORA

Com perdas estimadas pela Federação dos Trabalhadores Rurais (Fetag) em até 90% do que foi plantado, muitos pequenos proprietários perderam ao mesmo tempo a fonte de renda e de comida. Agora, dependem de ajuda governamental ou da solidariedade dos vizinhos menos afetados para enfrentar o mês que os separa das tradicionais chuvas de novembro.

Outro efeito da estiagem lamentado por mais de 500 pessoas é o fim das águas da represa do Baixão Novo, que supria as necessidades dos habitantes do bairro rural, que fica a cerca de 30 quilômetros do centro da cidade, e de seus animais. Como o poço que a prefeitura está cavando nas redondezas ainda não está operante, todos tiveram de deixar o local. Uma das últimas foi Adenora Paes Landim da Silva, 46.

Flávio Florido/UOL
Como os pastos ficam secos, gado tem dificuldades para comer e emagrece

"Os outros todos vieram (para a cidade), só eu, mais meu esposo e três sobrinhos ficamos. Estávamos pegando água do caminhão que ia trabalhar no poço. A gente dava nosso butijão e eles devolviam cheio de água. Mas quando o caminhão parou de ir, tivemos de sair", diz Adenora, que tem uma pequena casa perto do centro de Santa Luz. "Em 24 anos que estou lá, nunca tinha visto a água da represa acabar".

Já Marlene Alves Vieira, 49, teve uma surpresa desagradável ao deixar o Baixão Novo e retornar para o pequeno imóvel de dois cômodos feito de tijolos de barro que possui na cidade: por falta de pagamento, a água estava cortada. Ou seja, fugiu da sede na roça para encontrá-la na zona urbana. A solução foi beber dos vizinhos, passar a buscar lenha para evitar o custo de cozinhar a gás e endividar-se para restabelecer o abastecimento, já que ela e o marido colheram menos de 10% do feijão que plantaram e, agora, têm como fonte de renda apenas os R$ 50 que recebem do Bolsa Família.

Flávio Florido/UOL
Vários açudes de Santa Luz estão secos

Raimundo Coelho Rodrigues, 59, que também deixou o bairro depois que "a lama do açude rachou", não está numa situação tão difícil, mas suas perdas não foram pequenas. Diz que, em geral, colhe entre 50 e 60 sacas de milho. "Neste ano, só tirei umas seis sacas. E um milho tão velho que parece milho de pinto", diz, rindo. "É um milho que não presta", esclarece.

O afluxo de ao menos 10% da população do município para a zona urbana sobrecarregou o sistema de abastecimento de água. Resultado: uma das duas bombas de água queimou na quinta-feira, dia 27 de setembro.

Enquanto não havia a troca, "às vezes falta água à tarde, às vezes a noite", diz Antonio da Silva.
EXCESSO DE DEMANDA FAZ BOMBA DE ÁGUA QUEIMAR

No Baixão dos Bois, que dista mais de um quilômetro da cidade, pés secos de milho hoje servem de pasto para um rebanho magro. Boa parte dos bois tem costelas à mostra. Cerca de 50 deles pertencem a Jerônimo da Silva, que em 1980 ganhou algumas cabeças e pôde deixar o serviço de vaqueiro em uma fazenda para comprar uma propriedade. Os três pequenos desníveis cavados na terra para acumular água da chuva e servir para a bebida dos animais foram suficientes nos últimos 27 anos. Não neste: dois dos três açudes estão secos e, com a perspectiva da água do terceiro acabar, já comprou mangueiras para puxar água de sua casa.

Na roça que mantém, as notícias não são melhores. Os cerca de sete hectares plantados de milho e de feijão não geraram o suficiente nem para a subsistência. "Nunca precisei comprar comida. Neste ano, não está tendo jeito", afirma, revelando, também, que anda procurando "bicos" como diarista junto a outros proprietários, para complementar a renda e não pôr fim a suas economias. "Mas quase não arrumo quem queira serviço, não".

Nunca precisei comprar comida. Neste ano, não está tendo jeito
Jerônimo da Silva, agricultor
90%
do que foi plantado perdeu-se, de acordo com a Federação dos Trabalhadores Agrícolas

Não colhi nada; tenho que pagar água, pagar luz, comprar comida e já estou devendo para o feirante. A esperança é Deus ajudar
Manoelito Rodrigues Vieira, agricultor