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QUEM É FIDEL| ANTES DA REVOLUÇÃO| A RELAÇÃO COM OS EUA
Atentados a Fidel, crise dos mísseis, embargo

Murilo Garavello
Em São Paulo

As conturbadas relações com os EUA ocuparam boa parte da vida de Fidel. Nas quase cinco décadas em que esteve no poder, o cubano viu membros da inteligência cubana encarregados de sua proteção evitarem 638 tentativas de assassinato promovidas ou apoiadas pelos EUA, de acordo com o documentário "638 ways to kill Castro", exibido pelo Canal 4 britânico em 2006. A CIA, agência de inteligência americana, refere-se a esse número como fantasioso, mas admite a existência de ao menos "uma dezena de planos" somente na década de 60.

AFP
Manifestantes protestam contra o governo de George W. Bush em 2002
A oposição dos EUA a Fidel é anterior à aliança cubana com a URSS, que agravou a Guerra Fria. Os principais líderes da revolução não mantinham contato com os soviéticos. Nem mesmo eram formalmente comunistas. "O Partido Comunista cubano era notadamente não simpático a Fidel, até que algumas de suas partes juntaram-se a ele, meio tardiamente, em sua campanha. As relações entre eles eram visivelmente geladas", escreve o historiador britânico Eric Hobsbawn no livro "A era dos extremos".

Apesar disso, as características pessoais e as idéias propagadas por Fidel nunca foram cômodas aos EUA. Rebelde nato, Castro começou a pregar a soberania da América Latina e o fim da subserviência aos interesses americanos assim que, à reboque do triunfo da revolução, conheceu a notoriedade internacional. Ótimo orador, carismático e ousado, o cubano incentivava os movimentos de esquerda da região.

Não somente no plano retórico os EUA, que haviam dominado econômica e politicamente a ilha nas décadas anteriores, foram contrariados. O regime castrista adotou medidas de restauração da soberania -como a restrição do acesso de estrangeiros a documentos de governo- e de mudança radical do funcionamento interno -por exemplo, uma reforma agrária que não indenizou multinacionais americanas, como a United Fruit Company, que perderam seus latifúndios no país. Em janeiro de 1961, já sob o governo de John Kennedy, os EUA romperam relações diplomáticas com Cuba e, nos meses seguintes, reforçaram medidas restritivas à economia do país.

O EMBARGO AMERICANO
Além das ameaças militares e conspirações contra Fidel, os EUA adotam outra estratégia para minar o regime cubano: o embargo econômico. Imposto em fevereiro de 1962, é um dos mais duradouros empecílios de um país a outro na história moderna. Desde 1991, ONU aprova resoluções anuais condenando o embargo. Na última, expedida em 2006, 183 nações votaram a favor, e apenas quatro contra. Veja, abaixo, as datas principais dessas restrições::
1960 - EUA reduz em 700 mil toneladas a cota de açúcar importado de Cuba
1961 - Relações diplomáticas entre os dois países são rompidas
1961 - John Kennedy estende embargo herdado do presidente anterior, Dwight Eisenhower
1992 - Lei Torricelli - proíbe subsidiárias estrangeiras de empresas americanas de comercializarem com Cuba
1996 - Lei Helms-Burton - sujeita a sanções empresas não-americanas que negociarem com Cuba
2000 - Clinton suaviza embargo, permitindo venda de alimentos e medicamentos para Cuba por razões humanitárias.
2006 - Governo Bush intensifica investigação e punição a americanos que forem a Cuba via outros países (Cuba não carimba os passaportes de seus visitantes)
Hoje - Norte-americanos não podem gastar dinheiro em Cuba. Quem violar embargo pode ser punido com até 10 anos de prisão, multa de US$ 1 milhão para a companhia e US$ 250 mil para indivíduos
A URSS enxergou no conflito cubano-americano a possibilidade de obter um parceiro geopolítico fundamental, situado a cerca de 150 quilômetros da superpotência rival. E, ao oferecer-se para comprar açúcar, principal produto do país, e a vender petróleo a preços baixos, entre outras medidas, logrou a parceria que reforçou a iminência de conflitos na região.

Em 1961, funcionários do alto escalão da CIA, a agência de inteligência dos EUA, organizaram um exército de 1.400 mercenários para a invasão de Cuba. Após 68 horas de batalha e a morte de 150 cubanos, o exército de Fidel rendeu 1.200 adversários, que acabaram mais tarde trocados por comida e alimentos junto ao governo americano. "O incrível é que o advogado que negociou (a devolução dos presos) comigo foi subornado pela CIA para que me trouxesse de presente uma roupa de mergulho que vinha impregnada de fungos e bactérias suficientes para me matar. O advogado que negociava comigo a libertação dos prisioneiros!", afirmou Fidel.

Os EUA não desistiram. De acordo com o historiador cubano Pedro Álvarez Tabío, em um espaço de 14 meses entre 1961 e 1963, ocorreram 717 ataques a equipamentos industriais e 5.780 ações terroristas na ilha -que resultaram em 234 mortes e 2.000 mutilações.

Em 1962, o clímax: a URSS instalou mísseis nucleares em Cuba. Os EUA descobriram em 16 de outubro. Com as imagens dos mísseis, obtidas por aviões que sobrevoaram o espaço cubano ilegalmente, os americanos questionaram os soviéticos, que tentaram minimizar o potencial destrutivo do arsenal. Não foram convincentes. No dia 24 de outubro, a Marinha dos EUA forjou um cordão de isolamento à ilha pelo mar e ameaçou declarar guerra à URSS, que além dos mísseis mantinha à época cerca de 42 mil soldados em Cuba.

O impasse acabou elevado a contornos dramáticos pelo poderio atômico das superpotências e pelo fato de que a URSS havia enviado dezenas de navios a Cuba dias antes. No dia 27, a tensão chegou ao ápice: os soviéticos derrubaram um avião espião americano que sobrevoava a ilha. Quando a guerra parecia inevitável, como sugeriram posteriormente relatórios da CIA e declarações dos governantes envolvidos, uma proposta diplomática soviética resolveu o conflito: os comunistas se comprometiam a retirar os mísseis de Cuba se os EUA abrissem mão de armamento semelhante que haviam instalado na Turquia anos antes. O acordo foi aceito.

A maneira independente como a URSS procedeu durante a crise, sem consultar o regime de Fidel Castro ou barganhar medidas de proteção à soberania de Cuba, fez com que a relação entre os dois países comunistas se abalasse. "Em certo ponto, chegamos à conclusão de que, se fôssemos diretamente atacados pelos EUA, os soviéticos jamais lutariam por nós", disse Fidel.

Além das supostas 638 tentativas de assassinato, o ditador desfia um rosário de acusações aos americanos no livro "Fidel Castro - biografia a duas vozes": a CIA teria criado mais de 300 organizações anticastristas; em 1971, supostamente introduziu por meio de um contêiner, o vírus da febre suína ("tivemos que sacrificar 500 mil porcos"); em 1981, teriam lançado na ilha o vírus do tipo II da dengue, que provoca febres hemorrágicas mortais para o ser humano, contaminando mais de 350 mil pessoas e deixando 158 mortos.

Pode haver exagero nas acusações do ditador. Afinal, durante cinco décadas prosperou uma guerra de versões em relação à maioria dos assuntos relacionados aos dois países. A realidade provavelmente está em algum ponto entre os dados divulgados pela máquina publicitária do regime castrista e a antipropaganda americana, que financiou veículos de imprensa e organizações dissidentes abertamente dedicadas à desestabilização do regime.

A batalha no campo da informação ilustra o viés menos bélico e mais político que moldou a relação entre EUA e Cuba após os anos 1960. Apesar dos preparativos ininterruptos dos cubanos para defesa em caso de uma nova tentativa de invasão, o mote dos conflitos subseqüentes foram ações políticas ou econômicas, como as crises imigratórias nas décadas de 1980 e 2000 ou o acirramento do embargo econômico, na década de 1990.
Se você chama de liberdade de imprensa o direito dos inimigos de Cuba de falar e escrever contra a Revolução cubana, eu diria que não estamos a favor dessa liberdade
Castro, em entrevista a Ignácio Ramonet, no livro "Biografia a duas vozes"
Os mexicanos e os argentinos que saem de seus países são chamados de imigrantes. Todos os que saem de Cuba são exilados
Idem
 
638
foram as tentativas de assassinato contra Fidel Castro, de acordo com o documentário "638 ways to kill Castro", exibido pelo Canal 4 britânico em 2006.
36 mil
homens. Foi o número de soldados enviados por Cuba a Angola, em 1975, além de 480 instrutores militares e aviões MIG soviéticos, para ajudar na guerra de independência do país africano em relação a Portugal.

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