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"Guerra irregular" derrubou a ditadura de Batista

Roger Modkovski
Em São Paulo

Fidel Castro tomou o poder em Cuba em 1959 depois de ter liderado, nas montanhas de Sierra Maestra, uma guerrilha que, em seus momentos mais críticos, teve apenas 20 homens. Ele teve como aliados guerrilheiros que se tornariam mitos da esquerda do século 20, como Camilo Cienfuegos e Ernesto Che Guevara, além de seu irmão Raúl Castro.

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Fidel e integrantes da guerrilha em 1958
Com menor poder de fogo que o Exército do ditador Fulgencio Batista, Fidel apostou no conceito de "guerra irregular", usando o que ele chama de "os ardis do segredo e da surpresa" contra o inimigo. Segundo Fidel, o romance "Por Quem os Sinos Dobram", de Ernest Hemingway, sobre a Guerra Civil Espanhola, o teria inspirado a criar e aplicar suas táticas guerrilheiras.

"Desenvolvemos uma guerra de movimento, como já disse, de atacar e retirar-se. Surpreendê-los. Atacar e atacar. Desenvolvemos a arte de confundir as forças adversárias, para obrigá-las a fazer o que queríamos. E muita arma psicológica", disse Fidel sobre a guerrilha.

O começo
Os primórdios da campanha de Sierra Maestra localizam-se em 1953. Em 26 de julho daquele ano, Fidel, que já tinha militância política, lidera um grupo de jovens revolucionários em uma tentativa de levante contra o general Batista, que havia subido ao poder um ano antes com um golpe de Estado e contava com a simpatia dos Estados Unidos.

Mas o ataque revolucionário aos quartéis de Moncada, na cidade de Santiago de Cuba, fracassa. Preso, Fidel é julgado e condenado a 15 anos de prisão. Em 1955, é anistiado por Batista e, clandestinamente, monta o Movimento 26 de Julho. Em 7 de julho, ele parte em exílio para o México, onde conhece o argentino Che Guevara e organiza o embrião da guerrilha.

AFP
Fidel, ao lado de Camilo Cienfuegos
Em 2 de dezembro de 1956, depois de uma viagem de sete dias, ele e 82 homens voltam a Cuba no barco "Granma", dispostos a tomar o poder. "Granma" iria acabar virando o nome do principal jornal oficial do novo regime.

Eles desembarcam na costa leste do país, próximo à cidade de Manzanillo. Três dias depois, são surpreendidos por um ataque aéreo e de infantaria em Alegría de Pío e sofrem diversas baixas. Após a derrota, dispersos, Fidel, Raúl, Che e alguns outros fogem para Sierra Maestra, maior cadeia de montanhas da ilha e lugar de difícil acesso. Lá, com apenas dois fuzis, instalam-se e começam a reorganizar a guerrilha com a ajuda de camponeses e de revolucionários que já atuavam na ilha.

Primeiros combates
O primeiro combate depois da chegada à serra ocorre em 17 de janeiro de 1957, contra uma patrulha mista, e acaba com a tomada da Comandancia de La Plata, que é transformada em base pelos rebeldes. Pequena, a vitória é considerada "simbólica" pelo próprio Fidel.

Em fevereiro, os revolucionários recebem na serra o jornalista Herbert Matthews, do "New York Times", que tem o crédito de ter "apresentado" o personagem Fidel aos Estados Unidos e ao mundo. Sofrem mais ataques. Fidel divide a guerrilha em colunas lideradas por Cienfuegos, Che e Raúl.

Paralelamente à guerrilha, grupos civis fazem ações de insubordinação contra Batista nas principais cidades cubanas. Enfranquecida pelas denúncias de corrupção, a ditadura perdia apoio. Em 13 de março de 1957, uma tentativa de matar Batista fracassa em Havana.

Em julho de 2005, o furacão Dennis atingiu as montanhas de Sierra Maestra e destruiu a simbólica "Comandancia de La Plata", lugar a partir do qual Fidel Castro dirigiu a luta guerrilheira.

La Plata, quartel-general dos rebeldes, foi erguida em 1958 num lugar de difícil acesso das montanhas e chegou a ter 18 instalações rústicas, 15 das quais foram destruídas pelo furacão. As edificações, de paredes de madeira e tetos de folhas de palmeira, estavam em processo de restauração.

A partir dali, Fidel dirigiu os últimos meses da luta guerrilheira contra Batista. No lugar, foi erguido um hospital de campanha, uma fábrica de minas, uma oficina de conserto de armas e a emissora Rádio Rebelde.
FURACÃO DESTRÓI BASE DOS GUERRILHEIROS EM SIERRA MAESTRA
A guerrilha promove uma série de atentados e sabotagens e, em maio de 1957, captura o quartel de El Uvero, na batalha considerada por Fidel como "a maioridade" militar de seus homens. No fim do ano, o Exército tenta tomar Sierra Maestra, mas não consegue.

Em abril de 1958, é convocada uma greve geral contra Batista. Mas, sem o apoio da guerrilha, a iniciativa fracassa. Fidel declara "guerra total" a Batista, e as colunas rebeldes avançam em todas as direções no território cubano.

Batista lança uma ofensiva de 10 mil homens contra La Plata, e é derrotado após 74 dias de batalhas como as de Jigüe, Santo Domingo e Las Mercedes, lideradas pelo próprio Fidel. A derrota do Exército muda o curso da guerra. As colunas de Che e Cienfuegos tomam as províncias centrais da ilha.

Caminho aberto
A batalha de Guisa, em novembro de 1958, marca o início da última ofensiva revolucionária e abre caminho para Santiago. A essa altura, os revolucionários são cerca de 3.000 homens armados, número que subiria a 40 mil até a tomada de Havana.

As colunas fecham o cerco sobre Santiago de Cuba. Em 1º de janeiro de 1959, Batista deixa Cuba rumo à República Dominicana. Depois, parte para o exíilio na Espanha, então sob domínio do ditador Francisco Franco.

Uma semana depois, Fidel entra triunfalmente em Havana e assume o cargo de primeiro-ministro do Governo Revolucionário. A guerrilha de Sierra Maestra havia vencido.
Se você chama de liberdade de imprensa o direito dos inimigos de Cuba de falar e escrever contra a Revolução cubana, eu diria que não estamos a favor dessa liberdade
Castro, em entrevista a Ignácio Ramonet, no livro "Biografia a duas vozes"
Os mexicanos e os argentinos que saem de seus países são chamados de imigrantes. Todos os que saem de Cuba são exilados
Idem
 
638
foram as tentativas de assassinato contra Fidel Castro, de acordo com o documentário "638 ways to kill Castro", exibido pelo Canal 4 britânico em 2006.
36 mil
homens. Foi o número de soldados enviados por Cuba a Angola, em 1975, além de 480 instrutores militares e aviões MIG soviéticos, para ajudar na guerra de independência do país africano em relação a Portugal.

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