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14/03/2008 - 03h10

A vida não convencional da mãe de Barack Obama

Janny Scott
Do New York Times
Na versão resumida da história de Barack Obama, a mãe dele é apenas a mulher branca do Kansas. A frase vem acompanhada da sua contraparte, o pai negro do Quênia. Na campanha eleitoral, ele a chamou de a sua "mãe solteira". Mas nenhuma das descrições consegue retratar a vida não convencional de Stanley Ann Dunham Soetoro, que, dos seus genitores, foi o que mais modelou Obama.

O Kansas foi apenas uma etapa intermediária na infância dela, que acompanhou o seu pai, um vendedor de mobílias, rumo ao oeste. No Havaí, aos 18 anos, ela casou-se com um estudante africano. Depois, casou-se com um indonésio, mudou-se para Jacarta, tornou-se antropóloga, escreveu uma dissertação de 800 páginas sobre os trabalhos de serralheria dos camponeses de Java, trabalhou para a Fundação Ford, defendeu o direito das mulheres trabalhadoras e ajudou a criar o sistema de microcréditos para os pobres de todo o mundo.

Ela tinha grandes expectativas em relação aos filhos. Na Indonésia, ela acordava o Obama às 4h da manhã para que ele fizesse cursos de inglês por correspondência antes de ir para a escola; ela trouxe para casa gravações de Mahalia Jackson, e discursos do reverendo Martin Luther King Jr. E quando Obama pediu para ficar no Havaí para cursar o segundo grau em vez de retornar à Ásia, ela aceitou viver longe dele - uma decisão que, segundo a sua filha, foi uma das mais difíceis que Stanley Ann tomou em sua vida.

Arquivo pessoal da família Obama/The New York Times  
Foto mostra Stanley Ann Soetoro durante viagem à Indonésia entre os anos 1988 e 1992

"Ela sentia que, de alguma forma, ao vagarmos por território desconhecido, poderíamos nos deparar com algo que, em um momento, pareceria representar aquilo que somos no nosso âmago", diz Maya Soetoro-Ng, a meia-irmã de Obama. "Essa era basicamente a sua filosofia de vida - não nos limitarmos por medo de definições estreitas, não erguermos muros à nossa volta e nos empenharmos ao máximo para encontrarmos a afinidade e a beleza em locais inesperados".

Stanley Ann, que morreu de câncer de ovário em 1995, foi quem criou Obama, o senador por Illinois que está disputando a vaga do Partido Democrata de candidato à presidência. Ele pouco viu o pai após os dois anos de idade. Embora seja impossível precisar a influência que os pais tiveram na vida de um filho, as pessoas que conheceram bem Stanley Ann afirmam que a sua influência sobre Obama é inegável.

Eles eram muito próximos, segundo os amigos de Stanley Ann e da meia-irmã de Obama, embora tenham passado grande parte de suas vidas tendo oceanos ou continentes a separá-los. Obama afirmou que, se não fosse pela mãe, ele não estaria onde se encontra hoje. Mas ele também fez algumas escolhas diferentes - casando-se com uma mulher de uma família afro-americana extremamente unida da zona sul de Chicago, tornando-se um cristão praticante e narrando publicamente a sua busca da sua identidade como homem negro.

Algumas coisas que ele disse sobre a mãe parecem tingidas por uma mistura de amor e remorso. Ele diz que o seu maior erro foi não ter estado à beira do leito da mãe quando ela morreu. E quando a Associated Press perguntou aos candidatos a respeito das suas "melhores lembranças" - outros mencionaram bolas de beisebol autografadas, um relógio de bolso, uma "mulher-troféu" -, Obama disse que a sua é uma fotografia das montanhas da costa sul da ilha de Oahu, no Havaí, onde as cinzas da sua mãe foram espalhadas.

"Às vezes penso que caso soubesse que ela não sobreviveria à doença, eu poderia ter escrito um livro diferente - menos uma meditação sobre o pai ausente, e mais uma celebração da mãe que foi o único fator constante na minha vida", escreveu ele no prefácio das suas memórias, "Dreams From My Father" ("Sonhos do Meu Pai"). Ele acrescentou: "Sei que ela foi o espírito mais gentil e generoso que eu já conheci, e devo a ela aquilo que tenho de melhor em mim".

Em uma campanha na qual o senador John McCain, o presumido candidato republicano, tem usado freqüentemente a sua itinerante mãe de 96 anos de idade para responder às suspeitas de que ele pode ser muito velho aos 71 anos, Obama, que se recusou a ser entrevistado para esta matéria, invoca a memória da sua mãe com mais parcimônia. Em uma propaganda de televisão ela aparece brevemente - com pele de porcelana, cabelos revoltos e segurando no colo o filho bebê. "A minha mãe morreu de câncer aos 53 anos", diz ele em uma propaganda eleitoral, cuja mensagem é focada na questão da saúde. "Naqueles últimos meses dolorosos, ela se preocupava mais em pagar as despesas médicas e hospitalares do que em melhorar".

Ele a descreveu como uma mãe adolescente, uma mãe solteira, uma mãe que trabalhava, ia à escola e criava os filhos ao mesmo tempo. Obama diz que foi só devido a ela que ele teve uma excelente formação educacional e a confiança na sua capacidade de fazer as coisas certas. Mas, em entrevistas, amigos e colegas de Stanley Ann lançam uma luz sobre um lado dela que é menos conhecido.

"Ela era uma grande pensadora", afirma Nancy Barry, ex-presidente da Women's World Banking, uma rede internacional de fornecedores de micro-financiamento, para a qual Stanley Ann trabalhou na cidade de Nova York no início da década de 1990. "Creio que ela não tinha nem um pouco de ambição pessoal. Ela preocupava-se com as questões centrais, e acredito que não tinha medo de dizer a verdade aos poderosos".

Os pais dela eram do Kansas - a mãe de Augusta, o pai de El Dorado, um lugar que Obama visitou em uma escala de campanha em janeiro. Stanley Ann (o pai dela queria um garoto, e por isso a batizou com esse nome) nasceu em uma base do exército durante a Segunda Guerra Mundial. A família mudou-se para a Califórnia, Kansas, Texas e Washington em uma busca incessante de oportunidades antes de aterrissar em Honolulu em 1960.

Em um curso de russo na Universidade do Havaí ela conheceu o primeiro aluno africano da instituição, Barack Obama. Eles casaram-se e tiveram um filho em agosto de 1961, em uma época em que os casamentos inter-raciais eram raros nos Estados Unidos. Os pais dela ficaram irritados, segundo Stanley Ann contou anos mais tarde a Obama, mas adaptaram-se. "Tenho certas dúvidas em relação ao que pessoas de outros países me dizem", disse anos atrás em uma entrevista a avó do senador.

O casamento durou pouco. Em 1963, o pai de Obama foi para a Universidade Harvard, deixando a mulher e o filho. Ela então se casou com Lolo Soetoro, um estudante indonésio. Quando ele foi convocado para retornar ao seu país em 1966, após a agitação em torno da ascensão de Suharto, Stanley Ann e o jovem Barack foram também para a Indonésia.

Segundo vários amigos de Stanley Ann da escola de segundo grau, tais escolhas não foram inteiramente surpreendentes. Eles lembram-se dela como sendo uma pessoa curiosa, aberta e de uma inteligência incomum. Ela nunca namorou com "os garotos brancos engomados", diz Susan Blake, uma amiga daquela época. "Já quando adolescente ela possuía uma visão própria do mundo. Tratava-se de adotar o diferente, em vez de assumir aquela postura etnocêntrica que despreza o que é diferente. Foi nessa direção que a mente dela a conduziu".

O seu segundo casamento também acabou, na década de 1970. De acordo com uma amiga, ela queria trabalhar, e Lolo Soetoro desejava mais filhos. Stanley Ann disse certa vez que ele tornou-se mais norte-americano, e ela mais javanesa. "Existe uma crença javanesa segundo a qual se você casa-se com alguém e o relacionamento não dá certo, tal relação fará com que você adoeça", diz Alice G. Dewey, uma antropóloga e amiga de Stanley Ann. "É simplesmente uma idiotice permanecer casada em tais circunstâncias".

Alguns amigos dizem que o fato de ambos os casamentos terem acabado não vem ao caso. Stanley Ann permaneceu leal aos dois maridos e encorajou os filhos a manterem vínculos com os pais.

(Obama conta que ao ler rascunhos das memórias do filho, ela não fez comentários sobre a forma como foi descrita, mas "não perdeu tempo em explicar e defender os aspectos menos nobres do caráter do meu pai".)

"Ela sempre sentiu que o casamento como uma instituição não era algo particularmente essencial ou importante", diz Nina Nayar, que mais tarde tornou-se uma grande amiga de Stanley Ann. "Para ela o que importava era ter amado profundamente".

Em 1974, ela estava de volta a Honolulu, como aluna de pós-graduação e criando Barack e Maya, nove anos mais nova. Barack tinha uma bolsa de estudos para a prestigiosa escola preparatória Punahou. Quando Stanley Ann decidiu retornar à Indonésia três anos mais tarde para fazer as suas pesquisas de campo, Barack decidiu não ir.

"Eu duvidava do que a Indonésia tinha agora a oferecer e estava cansado de começar tudo de novo", escreveu ele nas suas memórias. "E mais do que isso, cheguei a um pacto não declarado com os meus avós: eu poderia morar com eles. E eles me deixariam em paz, contanto que eu não apresentasse os meus problemas. Durante aqueles anos eu estava imerso em uma intermitente luta interior. Eu tentava me preparar para ser um homem negro nos Estados Unidos".

Soetoro-Ng recorda-se do dilema da mãe. "Ela queria que Obama fosse também", diz Soetoro-Ng. Mas ela acrescenta: "Embora tenha sido doloroso ficar separada de Obama durante os seus quatro anos de segundo grau, ela reconheceu que isso talvez fosse o melhor para ele. E naquele momento a minha mãe precisava de fato ir para a Indonésia".

O período de separação foi difícil tanto para a mãe quanto para o filho. "Ela tinha muita saudade do Obama", conta Georgia McCauley, que ficou amiga de Stanley Ann em Jacarta. Barack passava férias de verão e de Natal com a mãe; eles se comunicavam por cartas, as dele eram ilustradas com caricaturas. O tópico principal de suas conversas era sempre o filho, contam as suas amigas. Quanto a Obama, ele estava lutando com questões relativas à identidade racial, à alienação e à sensação de pertencer a um determinado grupo.

"Houve certos momentos na vida dele durante aqueles quatro anos em que Obama poderia ter se beneficiado diariamente da presença da mãe", diz Soetoro-Ng. "Mas creio que ele fez a coisa mais certa para si".

Fluente em indonésio, Stanley Ann mudou-se com Maya, primeiro para Yogyakarta, o centro de trabalhos manuais de Java. "Tendo sido uma tecelã na faculdade, Stanley Ann ficou fascinada com aquilo que Soetoro-Ng chama de "minúcias grandiosas da vida". Esse interesse inspirou o seu estudo das indústrias da vila, que se tornou a base da sua tese de doutorado em 1992.

"Ela adorava morar em Java", conta Dewey, que se lembra de ter acompanhado Stanley Ann até uma serralheria da vila. "As pessoas diziam, 'Oi! Como vai?' Ela por sua vez perguntava: 'Como vai a sua mulher? A sua filha já teve o neném?'. Eles eram amigos. A seguir ela retirava o seu caderno de anotações da bolsa e indagava: "Quantos de vocês possuem energia elétrica? Vocês têm dificuldades para conseguir ferro?"

Ela tornou-se consultora da Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional (Usaid) para a criação de um programa de crédito na vila, e depois passou a ser funcionária de um programa da Ford Foundation em Jacarta especializado em trabalho das mulheres. Mais tarde, foi consultora no Paquistão, depois ingressou no banco mais antigo da Indonésia para trabalhar naquilo que descreveu como o maior programa mundial de micro-financiamento sustentável, criando serviços como créditos e poupança para os pobres.

Os visitantes freqüentavam constantemente o seu escritório da Ford Foundation no centro de Jacarta e a sua casa em um bairro da zona sul da cidade, onde mamoeiros e bananeiras cresciam no jardim e pratos javaneses como opor ayam eram servidos no jantar. Os seus convidados eram líderes do movimento indonésio dos direitos humanos, pessoas de organizações de mulheres e representantes de grupos comunitários que faziam trabalhos de base para desenvolvimento.

"Eu não conhecia muitos deles, e muitas vezes perguntava, 'quem era aquele sujeito?'", diz David S. McCauley, um economista ambiental do Banco de Desenvolvimento Asiático em Manila, que ocupava o escritório vizinho ao de Stanley Ann. "Depois eu descobria que o cara era o presidente de alguma grande organização que tinha milhares de membros de Java ou algum outro lugar. Alguém que ela conhecera havia algum tempo e que fazia questão de visitá-la ao passar por Jacarta".

Como mãe, Stanley Ann era ao mesmo tempo idealista e exigente. Os amigos a descrevem como informal e intensa, bem-humorada e obstinada. Ela pregava ao filho jovem a importância da honestidade, da fala franca e do julgamento independente. Quando ele reclamava das aulas que ela lhe dava de madrugada, Stanley Ann retrucava. "Ei, rapaz, isto também não é nenhum piquenique para mim".

Quando Barack estava na escola de segundo grau, ela o criticou pela sua aparente falta de ambição, escreveu Obama. Stanley Ann lhe disse que ele poderia ingressar em qualquer universidade do país, com apenas um pouco de esforço. ("Lembra-se de como é isso? Esforço?") Ele disse que olhava para a mãe, tão séria e segura quanto ao destino do filho: "Eu de repente sentia vontade de acabar com aquela certeza dela. De dizer-lhe que a sua experiência comigo havia sido um fracasso".

Soetoro-Ng, que também se tornou antropóloga, recorda-se de conversas com a mãe sobre filosofia ou política, livros e artesanatos indonésios de madeira baseados em temas esotéricos. Em um determinado Natal na Indonésia, Stanley Ann descobriu uma árvore mirrada e decorou-a com pimentas vermelhas e verdes e pipocas.

"Ela passou para nós um entendimento muito amplo do mundo", diz a filha. "Ela detestava a intolerância, estava bastante determinada a ser lembrada por uma vida de serviços, e achava que tais serviços se constituíam no verdadeiro padrão de avaliação de uma vida".

Muitos dos seus amigos enxergam o legado dela em Obama - na sua autoconfiança e energia, na sua capacidade de construir pontes de entendimento, e até no fato de ele aparentemente sentir-se à vontade junto a mulheres fortes. Alguns dizem que ela também os modificou.

"Sinto que ela me ensinou como viver", afirma Nayar, que tinha pouco mais de 20 anos quando conheceu Stanley Ann no Women's World Banking. "Ela não se preocupava particularmente com aquilo que a sociedade diria a respeito das mulheres trabalhadoras, solteiras, das que se casaram fora de suas culturas originais, daquelas que eram destemidas e sonhavam alto".

Após o diagnóstico da sua doença, Stanley Ann passou os últimos meses da sua vida no Havaí, perto da mãe (o seu pai já tinha morrido). Obama lembra-se de ter falado com a mãe no seu leito hospitalar a respeito dos temores dela de terminar financeiramente quebrada. Ele afirmou que ela não estava pronta para morrer. "Mesmo assim, ela ajudou a mim e a Maya a seguirmos as nossas vidas, apesar dos nossos temores, negações ou súbitas ansiedades".

Stanley Ann morreu em novembro de 1995, quando Obama começava a sua primeira campanha para um cargo público. Segundo uma amiga, após uma cerimônia fúnebre na Universidade do Havaí, um pequeno grupo de amigos seguiu de carro para a costa sul de Oahu. Enquanto o vento arremessava as ondas sobre as pedras, Obama e Soetoro-Ng lançaram as cinzas da mãe no Oceano Pacífico, na direção da Indonésia.

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