17/07/2008 - 02h04
Barack Obama esclarece os eixos principais da sua diplomacia
Philippe Bolopion
Do Le Monde
Em Nova York
Convencido de que a "predominância" da questão iraquiana "distrai" os Estados Unidos em relação à verdadeira ameaça terrorista, o candidato democrata à eleição presidencial de novembro, Barack Obama, prometeu, se for eleito presidente, repatriar a maior parte das tropas americanas que se encontra no Iraque até o verão de 2010. Desta forma, ele pretende "redistribuir" os recursos americanos, concentrando-os no "combate contra a Al Qaeda no Afeganistão e no Paquistão". O seu adversário, o candidato republicano John McCain, não se deu conta de que "a linha de frente central da guerra contra o terrorismo não é o Iraque, e nunca foi", denunciou o senador do Illinois, num discurso sobre política externa que ele pronunciou na terça-feira (15), em Washington.
"Logo no primeiro dia em que assumirei minhas funções, eu darei ao nosso exército a nova missão de pôr fim a esta guerra", precisou Obama, acrescentando que os Estados Unidos poderiam "efetuar sem perigo a redistribuição" das suas tropas de combate num espaço de tempo inferior a 16 meses. Sete anos depois do início da guerra, a sua administração manteria então no Iraque apenas uma "força residual para (...) desbaratar os vestígios da Al Qaeda, proteger os diplomatas e os funcionários militares [americanos] e treinar as forças de segurança iraquianas", sem procurar conservar bases permanentes no país.
Por sua vez, o presidente George W. Bush rejeitou "as programações artificiais de retirada", enquanto John McCain rebateu que a América poderia "vencer ao mesmo tempo no Iraque e no Afeganistão". O senador do Arizona preconiza enviar para o Afeganistão cerca de 15 mil homens suplementares, baseando-se no modelo da "onda" de reforços que, segundo ele, permitiu "reverter os rumos da guerra no Iraque". McCain também zombou de Barack Obama por este ter detalhado seus planos faltando poucos dias para uma turnê que este fará no exterior - que passará entre outros pelo Iraque e o Afeganistão -, e que supostamente se destinava a ajudá-lo a formar sua opinião.
Mas, segundo o candidato democrata, a guerra no Iraque, da qual McCain é, conforme lembrou Obama, "um dos mais entusiásticos defensores", "custou milhares de vidas americanas, cerca de um trilhão de dólares, [e ainda] alienou dos Estados Unidos muitos aliados". "Nós não podemos tolerar esta pressão sobre as nossas forças em favor de uma guerra que não aumentou de maneira alguma a nossa segurança", martelou Barack Obama, que foi um opositor desde o primeiro momento da intervenção no Iraque. Os Estados Unidos deverão ainda assim "se mostrar tão prudentes ao [se] retirarem do Iraque [quanto eles] foram negligentes ao se envolverem nesta guerra", acrescentou.
10 mil soldados suplementares no Afeganistão
Obrigado a admitir que a "onda" de reforços defendida por John McCain no Iraque havia permitido, ao longo dos 18 últimos meses, "reduzir o nível de violência", Barack Obama apontou que, enquanto isso, no Afeganistão, "os talebans passaram para a ofensiva", e que no Paquistão, "a Al Qaeda vem beneficiando cada vez mais de um território protegido". "Nós carecemos de recursos para terminar o trabalho, por causa do nosso compromisso para com o Iraque", disse, prometendo fazer deste combate uma "prioridade absoluta", por meio do envio, entre outros, de 10 mil soldados suplementares.
A maior ameaça encontra-se "nas regiões tribais do Paquistão, onde os terroristas se dedicam aos seus treinamentos e de onde os insurretos atacam no Afeganistão", avalia Barack Obama, que adverte que, caso o Paquistão nada fizer, os Estados Unidos "suprimirão alvos terroristas de alto nível tais como [Osama] Bin Laden quando estes aparecerem na [sua] linha de tiro". E ele acrescenta: "Nós devemos oferecer outra coisa do que um cheque em branco a um general [Pervez Musharraf] que perdeu a confiança do seu povo".
"O fato de que o presidente tenha nos envolvido, alegando motivos enganadores, numa guerra desastrada em nada diminui a ameaça que constituem armas de destruição maciça nas mãos de terroristas", considera ainda o candidato democrata, que pretende colocar todos os equipamentos nucleares "a salvo dos terroristas e dos Estados delinqüentes".
A respeito do Irã, Barack Obama afirma não poder "tolerar armas nucleares nas mãos de países que apóiam o terrorismo", mas ele repetiu a sua proposta de se reunir "com os dirigentes iranianos competentes".
Além do mais, Obama promete pôr fim à "tirania do petróleo" que, segundo ele, "financia as bombas dos terroristas, de Bagdá a Beirute". O aquecimento climático representa para o senador democrata uma "crise de segurança nacional", que ameaça as regiões costeiras americanas e comporta o risco de colocar as populações em competição na busca de água e de alimentos. Finalmente, referindo-se a uma "nova era de cooperação internacional", Barack Obama promete "reconstruir" as alianças dos Estados Unidos. "Ao longo de oito anos, nós pagamos o preço de uma política externa que dá lições sem ouvir ninguém", lamentou.
Segundo uma pesquisa realizada por encomenda da emissora ABC e do jornal "Washington Post", que foi publicada na terça-feira (15), Barack Obama tem uma dianteira de 8 pontos em relação a John McCain, mas o candidato republicano continua sendo considerado como o que reúne as melhores condições para solucionar o problema iraquiano, na opinião de uma pequena maioria de eleitores.