03/11/2008 - 09h01
McCain, um político rebelde e apaixonado por golpes de efeito
César Muñoz Acebes
Em Washington
John McCain, o candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, é um herói de guerra com aversão à autoridade e que gosta de correr riscos em sua vida pessoal e política.
Estudante mediano, fã de esportes e senador temperamental, McCain não é um candidato republicano convencional.
Mostrou em sua campanha credenciais de independência, em um ano em que o público parece cansado da hegemonia republicana e de oito anos de George W. Bush na Presidência.
McCain, de 72 anos, nunca foi o mais popular entre os legisladores republicanos.
"Ele colaborava com o outro partido (o Democrata), e isso não era visto como algo positivo", afirmou Roy Blunt, vice-líder da bancada republicana na Câmara dos Representantes (Baixa).
Também não conta com grande simpatia por parte da direita religiosa. O desejo de ganhar essa comunidade fez, inclusive, com que escolhesse para vice em sua chapa Sarah Palin, governadora do Alasca.
McCain apostou em Palin, até então desconhecida e com muito pouca experiência política mas cuja oposição ao aborto e ao casamento homossexual agrada mais a base mais conservadora do partido.
A escolha de Palin evidencia a afinidade de McCain pelos golpes de efeito, essas decisões radicais e súbitas do homem que não teme cometer equívocos, e sim não atuar ou fazer diferença.
McCain voltou a mostrar essa característica ao suspender sua campanha brevemente para viajar a Washington com o objetivo de negociar um pacote de resgate no valor de US$ 700 bilhões para reativar a economia.
Em ambos os casos, é possível que tenha cometido erros de cálculo. Os elogios generalizados iniciais com relação a Palin se transformaram em críticas, após a candidata ter mostrado desconhecimento sobre o papel do vice-presidente americano, cargo que pretende ocupar.
Em política econômica, os eleitores afirmam nas pesquisas que confiam mais em Obama que em McCain, o que poderia carimbar o resultado das eleições da próxima terça-feira.
A principal proposta econômica do candidato republicano é manter as reduções tributárias promovidas pelo Governo Bush, contra as quais votou em um passado não muito distante, mas que começou a apoiar durante as primárias de seu partido para ganhá-las.
Não mudou, no entanto, sua posição em favor de uma presença militar contundente no Iraque.
"Prefiro perder as eleições que perder a guerra", disse McCain, que disse que no Vietnã, os EUA perderam porque seus líderes não enviaram tropas suficientes.
A participação de McCain nesse conflito foi um dos pontos de inflexão de sua vida.
O candidato nasceu em 1936 em uma base naval americana no Canal do Panamá, e como seu pai e seu avô estava destinado a ser marinheiro.
Esteve a ponto de ser expulso da Academia Naval de Annapolis, a mais prestigiosa do país, onde ganhou a reputação de playboy, irreverente e desalinhado.
Em 1967, um míssil derrubou seu bombardeiro no Vietnã. Teve de passar os seguintes cinco anos e meio em campos de prisioneiros, onde as torturas sofridas não acabaram com sua vontade de insultar seus guardiães até a exaustão.
McCain se negou a aceitar a libertação que lhe era oferecida pelo Governo vietnamita em 1968, devido à importância de seu pai almirante.
Quando em 1973 voltou a pisar em seu país, com muletas, McCain encarava as seqüelas de seus ferimentos derivados da queda do avião, da falta de cuidados médicos e das surras. Hoje em dia não pode levantar os braços acima da cabeça.
Soube se adaptar bem ao campo profissional, com o cargo de chefe do departamento da Marinha no Congresso, mas na vida pessoal sua paixão pelas mulheres fez com que acumulasse um divórcio de sua esposa, que o havia esperado por todos os anos em que esteve no Vietnã.
Um mês depois se casou com sua atual companheira, Cindy, uma mulher rica e que é 17 anos mais nova que ele.
Em 1985 entrou no Senado, mas sua ascensão política sofreu um grave revés três anos depois, quando supostamente integrou um grupo de legisladores que supostamente fez lobby em favor de empresários.
O comitê que tratou do tema absolveu McCain, obsessivo com a preservação de sua honra. O republicano disse que essa denúncia era a pior coisa que havia "acontecido na vida", contando os anos passados nas masmorras vietnamitas.
Desde então, grande parte de seu trabalho como reformista no Senado veio de uma necessidade de se redimir perante a opinião pública. Pretende, agora, levar seu zelo à Casa Branca.