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04/11/2008 - 07h00

Fila e sol da Flórida são adversários na corrida pelo recorde de partipação eleitoral dos EUA

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em Miami Beach (EUA)
É esperada uma adesão recorde do eleitorado norte-americano nas eleições de hoje. Seja pela campanha polêmica. Seja pelas pesquisas de opinião acirrada. Seja pelo ineditismo de poder eleger um presidente de origem negra. Seja pela raridade de reunir dois candidatos que não são ex-presidentes nem vice-presidentes.

Mesmo assim, como o voto é facultativo, muitos aptos a votar não o farão, por não ser prioridade na vida ou por não gostar ou estar decepcionado com a política.

Miami em tempos de eleições
Na Flórida, porém, há mais duas razões. A primeira são as filas quilométricas, porque a cédula de votação é um verdadeiro livro, com mais de trinta perguntas para responder, como oito pedidos de emendas à Constituição e a escolha de juízes da comarca.

Mas a segunda razão pode ser mais forte: o sol e a praia. "Nesta terça vou jogar vôlei de praia com meus amigos como nos outros dias", conta o estudante Booker Gilbert, esperando sua vez do lado de fora da quadra em Miami Beach. "Troquei o Oregon pela Flórida porque lá só chove e faz frio. Cheguei há um mês e não consegui transferir meu local de votação. Vou ver se posso votar por correio", completa o garoto que veio da cidade de Eugene para fazer faculdade no sul ensolarado dos EUA.

Já Phil Andrews brinca com seu filho na areia sob o olhar da mulher. O casal veio da Filadélfia para uma semana de descanso e só vai saber das eleições na noite de terça. "Vamos ficar na praia o dia todo e jantar seguindo a apuração dos votos", revela sua agenda deste 4 de novembro de 2008. Andrews confessa que esqueceu o compromisso cívico quando comprou o pacote turístico ainda em 2007. "Não é todo ano que tem eleição, não é? Planejamos as férias e só nas vésperas de viajar lembramos que haveria a eleição", conta o visitante.

Rodrigo Bertolotto/UOL
Garota mexe no celular enquanto toma sol, tendo por perto gaivota
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A poucos metros, duas garotas fazem topless exibindo os seios turbinados por silicones - o costume é tão reverenciado em Miami Beach que até os manequins das lojas tem proeminentes peitos. Anda-se mais um trecho e na esquina com a 12 Street é o point gay, com rapazes vindos de vários países para exibir os torsos ao sol e a seus pares - o mártir dessa comunidade é Gianni Versace, estilista italiano que passava temporadas por lá até ser assassinado em julho de 1997 por um garoto de programa.

Mas nesse cenário de opulência e indulgência, há quem esteja por obrigação. É também quem pode se ausentar das urnas atraída pela praia e repelida pelas filas de votação. Tudo por razões trabalhistas. "Vou chegar cedo para votar, mas às 12h começa meu turno e não posso atrasar", conta a salva-vidas Cinthia Aguilar, cuidando do posto em frente da 14 Street, local em que as palmeiras e os neons se juntam como símbolo da cidade. "Já tentei votar no fim-de-semana, mas a fila era muito longa. Se acontecer de novo, fico sem votar, afinal, tenho que render um colega que estará no turno anterior", afirma Cinthia.

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Lojistas de Miami Beach apoiam Obama, com placas nas vitrines
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Já Jailah Tucker avisou o patrão que fica o dia todo, se precisar, para votar por Barack Obama. "Ele não pode reclamar. É meu direito. Mas vou bem cedo para não perder meu dia de trabalho", diz a garota que trabalha no aluguel de cadeiras e guarda-sóis no famoso balneário.

Quem se arrisca a perder a votação é Anthony Thomas. De férias há um mês na Flórida, ele viaja no dia do pleito para sua terra natal, Nova Jérsei. Qualquer atraso na viagem pode significar mais uma abstenção norte-americana. "Quero votar e acho que vai dar tempo. Estou até voltando antes das minhas folgas acabem para poder levar Obama à Casa Branca", se entusiasma.

Rodrigo Bertolotto/UOL
Em Miami, seios siliconados são tão comuns que as manequins das lojas têm formato avantajado também
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Mais prevenida foi a californiana Maria Telles. Excursionando por Miami com mais três amigas, o quarteto votou antecipadamente em San Francisco para poder curtir o passeio sem culpa ou sem retornos abruptos. "Agora é só ficar na frente da TV e ver se nosso candidato se elege", afirma, sem querer declarar se votou nos republicanos ou democratas.

O recorde de participação aconteceu na corrida presidencial de 1960, com 57% dos cidadãos indo às urnas. O curioso é que há um estudo que diz que, se tivesse chovido forte na Costa Leste e Meio-Oeste no dia da votação, o vencedor seria Richard Nixon e não John Kennedy. Uma dessas estatísticas, das quais os norte-americanos gostam tanto, crava que em dia de chuva 2,5% a mais de democratas deixam de votar (já os republicanos têm menos medo de se molhar e só 1% se ausenta por esse motivo). É a conclusão de pesquisa da Universidade da Geórgia que estudou os efeitos do mau tempo nas abstenções nas eleições de 1948 e 2000.

Historicamente, a taxa de participação nas eleições presidenciais costuma situar-se entre os 55% e os 60%. Agora, cada candidato torce para que chova nos redutos do rival (estão previstas chuvas em Virgínia, nas Carolinas, Nebraska e Oregon). Mas na Flórida, os prognósticos são solares, e as pessoas vão para a praia aproveitar o feriado eleitoral, com ou sem votar.
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