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04/11/2008 - 20h25

No dia da eleição, UOL conversa com candidato a presidente dos EUA que até fala português

Rodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL Notícias
Em Miami (EUA)
Os Estados Unidos têm uma tradição política tão peculiar que socialismo por aqui é quase um palavrão. A ponto de o candidato a presidente pelo Partido Socialista atender ao telefone de campanha pessoalmente, de seu escritório abarrotado de papéis a cinco horas de estrada ao norte de Miami. "Hello, this is Brian Moore." Essas foram as primeiras palavras para uma ligação da reportagem do UOL que procurava, com poucas esperanças, uma entrevista com o único postulante da Flórida à Casa Branca.

E o mais surpreendente é que Moore trocou para o português quando soube que a ligação era de um veículo brasileiro: "Isso é muito bom. Obrigado por ligar, eu morei no Brasil." A conversa continuou em um espanhol misturado com português e acabou em um mais funcional inglês, mas antes o candidato a suceder George W. Bush desfilou seu conhecimento de português: "bom dia", "até logo", "legal", "igualmente" e para encerrar a ligação mandou "um abraço".

UOL ENTREVISTA CANDIDATO
Reprodução
Brian Moore é o candidato do Partido Socialista dos Estados Unidos
Brian contou longamente que entre 1996 e 1997 esteve na Amazônia fazendo trabalhos de saúde pública e combate a parasitas com as populações. "Encontrei até a primeira-dama Ruth Cardoso em uma cerimônia", lembra de sua passagem nos trópicos. Fez o mesmo serviço voluntário no Peru, Panamá, Bolívia e Guatemala.

E agora, depois de combater a lombriga na América do Sul, ele quer nacionalizar as finanças e indústrias da América do Norte. "Os trabalhadores têm que controlar as corporações como IBM, Coca-Cola e GM, que dão lucros para poucos", sentenciou.

Como gastou US$ 20 mil na campanha de poucos broches e placas e declara que ficaria feliz se conseguisse 20 mil votos nesta terça (o que dá um dólar por eleitor), os gigantes do capitalismo dos EUA podem ficar tranqüilos. Também Bush pode ficar, afinal, Moore prometia entregar seu possível antecessor às cortes internacionais por sua atuação nas guerras do Afeganistão e Iraque.

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Rodrigo Bertolotto/UOL
Na Flórida, eleitor mata o tempo em fila para votar conferindo as cotações da bolsa pelo smartphone
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O único candidato independente que se aproximou do poder foi o milionário Ross Perot, que concorreu quando George Bush pai tentava a reeleição em 1992 diante do democrata Bill Clinton. Perot começou com 40% de apoio nas pesquisas de opinião, mas terminou com 20% e no terceiro lugar.

Já Moore ganhou notoriedade nacional quando o trio republicano John McCain, Sarah Palin e Joe "The Plumber" fizeram coro afirmando que o democrata Barack Obama era "socialista" - ofensa que só é superada nos EUA por "terrorista", denominação dos atuais rivais da nação mais rica do mundo.

Vários canais ligaram para o verdadeiro socialista na corrida presidencial para saber se Obama estava roubando sua bandeira. "Nada mais distante do socialismo do que o senhor Barack Obama. Ele e seu partido são capitalistas", decretou para o canal C-Span.

Até o ultraconservador Fox News entrou ao vivo com Moore para comentar o fato. "Essa quebra de empresas mostra que o capitalismo vai acabar, e o socialismo vai ressurgir", decretou, antes de começar um bate-boca com o apresentador Neil Cavuto, que cortou o microfone do opositor para encerrar a entrevista.

Outro que usou o expediente foi o comediante Steven Colbert, do canal Comedy Central. Durante a entrevista, quando Moore dizia que "o capitalismo não é justo", o interlocutor encerrou o assunto com a seguinte frase: "A vida não é justa, e eu também: tchau, Brian."

FOTOS DO DIA DA ELEIÇÃO
AP
Governador do Estado da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, vota em Los Angeles
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Melhor tratamento ele recebeu do canal Al Jazeera, em um debate com outros candidatos chamados de independentes - Obama e McCain enfrentaram outros dez candidatos pejorativamente chamados de "nanicos".

Aos 65 anos, percorreu vários Estados indo de carro. Em Vermont, quase acabou preso porque fazia campanha em um estacionamento, e o dono do shopping ligou para a polícia com a acusação de invasão de propriedade. Outra viagem ao volante durante toda uma noite para Mississippi e Louisiana foi ainda mais frustrante: ele não conseguiu incluir seu nome na cédula porque o Partido Socialista não conseguiu recursos e seguidores suficiente nesses locais - só 20 Estados podem votar no socialista.

A partir desta quarta, Moore terá de sair de sua aposentadoria e buscar emprego, afinal, sua mulher, uma bancária, perdeu o emprego com a crise financeira. "Como ela não tem título superior, é mais difícil achar uma vaga. Vou voltar ao batente", afirma o ex-funcionário do governo formado em administração pública que tentou virar presidente dos EUA.
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