Se a vitória de Barack Obama ecoou com euforia pelos Estados Unidos, demonstrações mais contidas de apoio e ceticismo ditaram o tom entre os líderes dos países protagonistas das relações mais tempestuosas com a Casa Branca.
Rival histórica, Moscou não perdeu tempo em endurecer o discurso ao recém-eleito, a quem pediu uma política internacional "menos egoísta". O presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, até expressou a esperança de que, com um novo comandante, as relações com os Estados Unidos melhorem, mas acusou Washington de agravar a crise financeira global.
"Esperamos que nossos parceiros, o novo governo dos Estados Unidos, escolham a favor das relações plenas com a Rússia", afirmou Medvedev, já que as relações entre Washington e Moscou se deterioraram durante o governo Bush. "Eu gostaria de enfatizar: não temos problemas com o povo americano. Nós não temos nenhum anti-americanismo inato", completou.
Principal aliado dos EUA durante o governo Bush, o Reino Unido vem de uma parceria que acabou desastrosa à popularidade do governo de Tony Blair, mas o primeiro-ministro Gordon Brown foi discreto e se disse "feliz" com a vitória de Barack Obama.
Brown sabe que Obama ainda não foi testado no cargo e terá pela frente uma crise econômica de grandes proporções, mas terá que adaptar seu discurso. Até pouco tempo, Brown dizia que "crise não é uma hora para novatos".
Aliado com o chefe de governo Silvio Berlusconi, que apoiava o republicano John McCain, o porta-voz do Senado italiano Maurizio Gasparri criou polêmica nesta quarta-feira ao sugerir que a organização terrorista Al-Qaeda teria ficado feliz com a vitória de Obama.
"Obama suscita muitas interrogações. A Al-Qaeda deve estar contente com Obama na Casa Branca", declarou Gasparri em programa da rádio "RAI". "Os melhores nem sempre vencem", lamentou.
Em Cuba, a imprensa oficial pôs em xeque a "mudança" a que propõe Barack Obama à frente dos EUA. O tablóide "Granma", porta-voz oficial do governante Partido Comunista, questionou: "O candidato da mudança?".
A descrença é justificada. "Obama teve o respaldo da classe dominante dos Estados Unidos" e "da maioria do 'establishment' democrata".
O líder Fidel Castro já havia manifestado sua preocupação com a ausência da ilha entre as prioridades de Obama. "A preocupação com os problemas do mundo não ocupa realmente um lugar importante na mente de Obama, mas muito menos na do candidato que, como piloto de guerra, descarregou dezenas de toneladas de bombas sobre a cidade de Hanói (...) sem remorso algum de consciência", escreveu Castro em artigo.
A Síria, que nos últimos anos manteve tensas relações com os Estados Unidos, por sua vez, espera que o novo governo cumpra a guinada na política externa. "Temos a esperança de que a vitória de Barack Obama contribua para uma mudança da política externa dos Estados Unidos e permita passar de uma política de guerra e de embargo para uma política de diplomacia e diálogo", afirmou o ministro da Informação, Mohsen Bilal, à agência de notícias síria "Sana".
O ministro insistiu que Obama "não ignore os problemas de que padecem os povos e apóie a paz, tal como proclamou durante sua campanha eleitoral".
Já os líderes de Bolívia e Venezuela, se mostraram otimistas com a chance de um recomeço nas relações bilaterais com os Estados Unidos, e não pouparam otimismo.
Evo Morales, que há dois anos é visto com desconfiança pela Casa Branca por seu discurso "antiimperialista", aplaudiu o que chamou de uma "grande vitória" de Barack Obama, e já previu a retomada do diálogo deteriorado pela gestão Bush. Apenas dois meses atrás, Morales expulsou o embaixador norte-americano Philip Goldberg de La Paz e ordenou no último fim de semana a suspensão das atividades da agência antidrogas dos Estados Unidos em território boliviano, denunciando atividades de conspiração em ambos os casos.
Assim como o presidente Lula, Morales comparou-se ao novo presidente americano. "Obama é uma homem que vem de setores discriminados e escravizados. Meu grande desejo é que o senhor Obama possa suspender o embargo a Cuba, retirar as tropas de alguns países, e também assegurar que as relações entre a Bolívia e os Estados Unidos vão melhorar", afirmou o presidente boliviano.
O discurso otimista foi endossado pelo venezuelano Hugo Chávez. "Chegou a hora de estabelecer novas relações" entre os dois países, informou. "Estamos convencidos de que chegou a hora de estabelecer novas relações entre nossos países e com nossa região, com base nos princípios do respeito à soberania, à igualdade e à cooperação verdadeira", afirmou, em comunicado do Ministério das Relações Exteriores venezuelano.
Chávez também afirmou que "a eleição histórica de um afro-descendente à frente da nação mais poderosa do mundo é o sintoma de que a mudança de época que está sendo gerada desde o sul da América poderia estar chegando à porta dos Estados Unidos".